

escrever é um ofício solitário. aqui na minha frente só tenho uma janela. de onde vejo o mundo, por onde saem palavras... e o vento, como um sopro, ventila a mente.
"O azul ultramarino era fabricado a partir do pó do lápis-lazúli, importado a altos custos do Oriente; o pó era diluído em líquido várias vezes para se extrair a cor, sendo que o primeiro extrato obtido - um azul violeta intenso - era o melhor e o mais caro. O azul alemão nada mais era que o carbonato de cobre; sua cor era menos brilhante e, o mais grave, seu uso se revelava instável, particularmente em afrescos... Os pintores e seu público estavam atentos a tudo isso, e as conotações de exotismo e perigo que se associavam ao azul ultramarino tinham uma importância no quadro que, hoje, possivelmente nos escape..."
(Michael Baxandall - O Olhar Renascente)
Nightshade, Deadly (Atropa belladonna LINN.)
Belladonna is supposed to have been the plant that poisoned the troops of Marcus Antonius during the Parthian wars. Plutarch gives a graphic account of the strange effects that followed its use.
Buchanan relates in his History of Scotland (1582) a tradition that when Duncan I was King of Scotland, the soldiers of Macbeth poisoned a whole army of invading Danes by a liquor mixed with an infusion of Dwale supplied to them during a truce. Suspecting nothing, the invaders drank deeply and were easily overpowered and murdered in their sleep by the Scots.
According to old legends, the plant belongs to the devil who goes about trimming and tending it in his leisure, and can only be diverted from its care on one night in the year, that is on Walpurgis, when he is preparing for the witches' sabbath. The apples of Sodom are held to be related to this plant, and the name Belladonna is said to record an old superstition that at certain times it takes the form of an enchantress of exceeding loveliness, whom it is dangerous to look upon, though a more generally accepted view is that the name was bestowed on it because its juice was used by the Italian ladies to give their eyes greater brilliancy, the smallest quantity having the effect of dilating the pupils of the eye.
Another derivation is founded on the old tradition that the priests used to drink an infusion before they worshipped and invoked the aid of Bellona, the Goddess of War.
The generic name of the plant, Atropa, is derived from the Greek Atropos, one of the Fates who held the shears to cut the thread of human life - a reference to its deadly, poisonous nature.
Thomas Lupton (1585) says: 'Dwale makes one to sleep while he is cut or burnt by cauterizing.' Gerard (1597) calls the plant the Sleeping Nightshade, and says the leaves moistened in wine vinegar and laid on the head induce sleep.
Mandrake, a foreign species of Atropa (A. Mandragora), was used in Pliny's day as an anaesthetic for operations. Its root contains an alkaloid, Mandragorine. The sleeping potion of Juliet was a preparation from this plant - perhaps also the Mandrake wine of the Ancients. It was called Circaeon, being the wine of Circe.
(A última valsa do Dia da Bastilha - Robert Doisneau - 1945)
Quase
Por uma estranha alquimia
(Você e outros elementos)
Quase fui feliz um dia.
Não tinha nem fundamento.
Havia só a magia
Dos seus aparecimentos
E a música que eu ouvia
E um perfume no vento.
Quase fui feliz um dia.
Lembrar é quase promessa
É quase quase alegria.
Quase fui feliz à beça
Mas você só me dizia:
"Meu amor, vem cá, sai dessa".
(Guardar - Antônio Cícero)

Lo que aquí vi fue que vimos una infinitíssima cosa de pájaros de diversas formas y colores, y tantos diversos papagayos, y de tan diversas suertes, que era maravilla: algunos colorados como grana, otros verdes y colorados y limonados, y otros todos verdes, y otros negros y encarnados; y el canto de los otros pájaros que estaban en los árboles, era cosa tan suave y de tanta melodía que nos ocorrió muchas veces quedarnos parados por su dulzura. Los árboles son de tanta belleza y de tanta suavidad que pensábamos estar en el Paraíso Terrenal, y ninguno de aquellos árboles ni sus frutas se parecían a los nuestros de estas partes. Por el río vimos muchas especies de pescados y de diversos aspectos. (Américo Vespúcio)Visto de longe, parecia flutuar... Erguido sobre o promontório, era uma enorme caixa retangular acoplada a uma caixa oval. Ao seu redor, um jardim colorido havia sido recortado pelas bifurcações de um caminho tão sinuoso quanto um pensamento distraído. Mais de perto, podia-se ver, através da fachada de vidro, os movimentos no seu interior. À porta, sob uma marquise de inesperado recorte, havia uma imensa escultura, um corpo nu de mulher. Depois dela, um amplo salão – recheado com colunas de alumínio, mesas de jogo, roletas, fichas, taças e muita gente – confirmava as expectativas: era o edifício sonhado por JK, projetado por Niemeyer, decorado pelo paisagismo de Burle Marx e pela escultura de Zamoyski. Era o Cassino da Pampulha, que, nos três anos que separaram sua criação da proibição do jogo no Brasil, em 1946, revolucionou os hábitos belorizontinos quase tanto quanto modernizou a arte de construir.
Dentre aquela gente eufórica que circulava pelo salão, uns se distraiam contemplando a face esquerda do edifício (aquela película de vidro) a se abrir em uma ampla vista para o lago; amplidão que se refletia na parede oposta, coberta de espelhos rosados. Outros, subindo ou descendo as rampas de alabastro que ligavam o salão ao mezanino, repetiam o espanto do prefeito da cidade: Nunca havia visto um edifício com rampa, em lugar de uma escada.
Seguindo pela rampa que ladeava os espelhos, o som da música aumentava, ecoando instrumentos de orquestra, vozes de renomados cantores e passos double de vedetes. Ali em frente, o corredor se abria numa sala oval: o grill-room, todo transparente, todo de vidro. Inclusive o chão, que brilhava luzes coloridas sob os pés de quem dançava. Acima da pista de dança, o estratégico recorte do teto produzia um impressionante efeito acústico: os sons da música executada no palco, ao passar por ali, tornava-se mais potente, sendo novamente reduzido ao atingir as mesas, do outro lado do salão. Nas mesas, outras inovações da época eram servidas: o filet tournedor e a maionese, preparados pelo chef Lucas. Já o palco, em forma de feijão, tinha o moderno requinte de ser, também, um elevador capaz de conduzir os artistas do grill-room ao bar do primeiro piso, ou aos camarins subterrâneos.
Além da festa, além do luxo, esse cenário da modernidade tinha, para JK, um sentido político: o de ligar a utopia dos novos tempos à visão daqueles que, há menos de 50 anos, haviam criado Belo Horizonte. O Cassino da Pampulha seria, então, a versão concreta e renovada de um projeto nunca realizado pela Comissão Construtora da Nova Capital: o Cassino do Parque Municipal.
Pois passara noites e noites a sonhar
que não se conseguia acabar de vestir
nunca
(Adília Lopes - Maria Cristina Martins)
E passei dias e dias esperando
todo trabalho findar
para as tardes e tardes seguintes
ir ao cinema tomar sorvete namorar
Quem me quer disse
bem
Meu querer disse
sim
Minha vida arrematou
não
que a história não é bem assim
Canto de Oxum
Nhem-nhem-nhem
Nhem-nhem-nhem-xorodô
Nhem-nhem-nhem-xorodô
É o mar, é o mar
Fé-fé xorodô...
Xangô andava em guerra,
Vencia toda a terra,
Tinha ao seu lado Inhansã
Pra lhe ajudar.
Oxum era rainha,
Na mão direita tinha
O seu espelho onde vivia
A se mirar.
Quando Xangô voltou,
O povo celebrou.
Teve uma festa que
Ninguém mais esqueceu.
Tão linda Oxum entrou,
Que veio o rei Xangô
E a colocou no trono
Esquerdo ao lado seu.
Inhansã apaixonada
Cravou a sua espada
No lugar vago que era
O trono da traição.
Chamou um temporal
E no pavor geral
Correu dali gritando
A sua maldição.
(Toquinho/Vinícius)
E assim é a obra de Virginia Woolf. O tempo que narra não é o tempo do mundo, nem mesmo o da história. É o tempo que transcorre no interior que cada um de seus personagens; tempos íntimos e pessoais que, às vezes, se interceptam ou se chocam. Os acontecimentos que dão andamento ao que se conta não são palpáveis ou visíveis ao observador comum. São as pequenas transformações que cada um sofre com o passar do tempo. Não do tempo que nos marca a carne e nos deteriora exteriormente. Mas aquele que altera pouco a pouco os ânimos e paixões dos personagens, mudando-os em consonância ou dissonância com a forma como são vistos, de fora, pelos outros; com as posições e os códigos de um mundo que, em vão, tenta controlá-los. Resulta disto um tipo inusitado de narração, que é antes uma grande cadeia de descrições. Para contar uma estória, Woolf apresenta-nos uma bolha de sabão. Na superfície da bolha, nos faz ver um reflexo, uma imagem de uma pequena parcela do mundo que logo se explode dando lugar a outra bolha, e outra imagem. E desta, faz brotar outra, e mais outra, numa infinita e encantadora sucessão.