quarta-feira, 6 de setembro de 2006

FEIJOADA

Onde está o broca??


terça-feira, 5 de setembro de 2006

Afro-american broca,

assim você me mata. Já morro, naturalmente, de saudades da península, da ibérica e de outras tantas; perdido que estou nessa terra de bárbaros. A saudade é tanta que corro o risco de provar as ostras nativas...

Aqui, é época de moules, ou mousselen, se você preferir o flamengo ao francês. Mexilhão, no bom português. Já comi moules da França, e da Zelândia. As da zelândia, dizem, estão a cada estação piores e menores (tem umas que você precisa de lupa pra achar), e os produtores colocam a culpa no tempo, no governo, em qualquer um que estiver passando pela frente. Depois de anos desaparecidas, as moules belgas voltarão ao mercado, em breve. Vamos experimentar. Mas, não espero grande coisa, pois, como é sabido, fora as ameixas, fritas e o chocolate, nada da bel-zica é bom. A carne não tem gosto. Os tomates são pura àgua. As maçãs... bem, para as maçãs inventaram uma moda, a da maçã crocante: crocante e saborosa como uma prancha de isopor.

As cerejas estiveram ótimas. Mas, já passou a época.

O bom daqui é que é fácil encontrar comida de qualquer lugar. Então, no supermercadinho, ou no supermercadão, podemos encontrar desde carnes ruins, como a belga e a australiana, até excelentes, como a brasileira e a argentina. Tem mandioca da África, pequi brasileiro, café do sul da Bahia ou de Lambari, chá chinês e vizinhas de Taiwan, que são umas gracinhas.

O povo, em geral, não come muito, e bebe demais. Eles tomam café da manhã, comem um sanduiche meio-dia, e jantam - bife com fritas, moules com fritas, croquete com fritas, qualquer coisa com fritas, ou macarrão. Sempre macarrão. Comida em restaurante não é lá grandes coisas. E, um croque-monsieur (um misto quente bem normalzinho), custa uns 4 euros. E nem chega aos pés dos nossos iche iches.

Os queijos são ótimos, mas esqueça que existe boa mussarela no mundo. A melhor daqui é pura borracha. Por isso, ainda não me atrevi a experimentar uma pizza. Para essas coisas, em geral se usa um ementhal jovem.O melhor queijo que comi, foi um de cabra, jovem e espanhol - humm, delícia. E um pyrenée de leite de vaca. Bom também.

Tenho bebido vinho espanhol, francês e muito, mas muito, muito mesmo vinho argentino. Alguns excelentes, por sinal.

Já as ameixas, existe quase que uma variedade para cada cidade. Imagino que quase todas inventadas artificialmente. Pois, as coisas aqui são tão artificiais que surgiu a moda da comida "biológica", ou seja, comida de verdade. Tem um tipo de vaca belga, por exemplo, que tem uma bunda tão grande, que quase nunca a levam ao pasto. Toda vez que minha recém-amiga carioca diz que, aqui, sempre aparece uma vaca no nosso caminho, lembro dessas vacas; embora ela se refira a "essaish vacaish; sempre mulhereish e flamengaish"...

Outro dia, fui num aniversário. Muita feijoada, das boas, farofa, vinagrete e COUVEEEE!!! Ataquei a couve com toda a minha vontade. Que decepção. Nem pra de Bruxelas aquela couve servia... Parecia chicória (chicon, não sei se em flamengo essa chicon do café é a witloof que usamos na salada) torrada, que os velhos colocam no café ralo, para parecer forte. Era algo aguado, e meio azedo.

O difícil também é viver sozinho. Pois comprar enormes quantidades sai muito mais barato que comprar minúsculas quantidades de qualquer coisa. Hoje, por exemplo, tenho um quilo de witloof na geladeira, e meio quilo de ameixas roxas. Isso depois de ter comido duas caixas de champignons e um monte de mexerica (ou mexirica ou mixirica, dependendo do seu corpo-lheis) africanas.

E, por fim, qualquer coisa aquí, é diferente daí, ou d'acolá. O shoyu escuro é doce e com pouco sal. Nem imagino o light...

Por falar em light, nada aqui é light, fora refrigerante (aproveitando, aquí tem coca baunilha, será bom?). Dificilmente se acha um adoçante como os daí. E é sempre caro. Por isso, adotei os torrões de açúcar. Depois de quase dois meses usando o de beterraba, comprei os de cana, e achei muito doce. Digo, o açúcar "como" o nosso, pois també comprei o candi, "como" o oriental.

Adorei o candi belga - são pedrinhas de açúcar de tamanho e forma irregulares, que existem nas cores branco (translúcido), ambar e preto. O âmbar fica lindo dentro do chá... e ele não adoça tanto.

No mais, vou levando. Saudades dos meus, beijos nos seus.

René

sexta-feira, 1 de setembro de 2006


O nome da ameixa verde é Reine Claude. La Reina Clódia.
Ela é boa de comer.

domingo, 20 de agosto de 2006

karen zegt: recebeu a carta?
René zegt: chegou onti
René zegt: ainda nao li
René zegt: pq fomos a ghent
René zegt: onde descobri que gantois é quem é de ghent
karen zegt: hein?
René zegt: e tinha um escravista fulano de gantois
René zegt: por isso mãe menininha do gantois
karen zegt: ah
karen zegt: o que isso tem a ver
René zegt: aaaaaaaaaaaaaaah minha maaeeeee
René zegt: minha maaeee minininhaaaaaaaaaahhhhhhhhh
karen zegt: com a carta?

É favor navegar:

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

Caríssimo sempre bem criado amigo,

estive e estou muito bem, nesse fim de primeiro mundo. Houve feriado prolongado, em louvor à Santa Virgem, à cerveja, e ao festival de rock local! Para completar, estropiou-se o sistema operacional de meu computador. Foi essa a causa de meu desaparecimento.

É curiosa a vida por aqui. Por mais que queiram me convencer do contrário, acredito que a razão flamenga seja prima-irmã da portuguesa, mas com largos traços germânicos. Explico-me: quando se trata de se levar a vida com praticidade, impera a lógica lusitana; quando o que está em jogo é o ego, vêem-lhes os ares da superioridade da raça. Venho agora mesmo da agência dos correios, onde pude comprovar a primeira afirmação desta tese minha. Conto-lhe.

Na entrada de meu edifício, não há as corriqueiras campainhas, marcadas com os nomes de cada morador. Pelo contrário, há uma apenas, onde se pode ler uma advertência dizendo que, após esta porta, há outra, com as campainhas. Pois bem, assim sendo, há que se abrir esta porta, que nunca se encontra fechada à chave, e tocar as campainhas no corredor, logo antes de uma segunda porta, que permanece, essa sim, trancada. Operação bastante complicada, o sei. Mas, seja como for, o carteiro nunca acerta, e se a remessa for volumosa, tenho que buscá-la na agência central. E lá fui.

Lá chegando, entrei na fila do serviço expresso. Para minha sorte, havia somente duas pessoas à minha frente, a esperar o atendimento. Esperei cerca de 20 minutos, e logo percebi que o senhor que nos atendia não conseguiu resolver o problema de nenhum dos meus companheiros de espera. Chegou minha vez, solicitei a remessa. Esse senhor pegou o papel com as informações sobre meu pacote, andou para um lado, andou para outro. Ao cabo de 10 minutos me diz: Scrijnmakersstraat, 15? Olho para o papel em suas mãos e aponto: 16!!! Ohhhhh!! Aqui está!

Dessa, "Até o criado-mudo reclamou..."

O mesmo se passou durante o tal festival de rock. Durante este festival, diversos palcos são montados pelas praças e esquinas do centro histó(é)rico da cidade, as ruas no entorno são fechadas, e o acesso a elas, e aos shows, se dá perante o pagamento de suntuosos montantes. O acesso à minha residência, que se situa entre dois dos palcos principais, foi, obviamente, fechado. Não apenas por um lado da rua, que dá direto nos palcos, mas pelos dois. Assim sendo, para sair de casa, ou regressar, fui obrigado a exlicar, e re-explicar, que eu morava naquela rua, e queria ter acesso à minha vivenda.

Afff...

Isso explica algo...

Mesmo que isso me obrigue a assumir minha própria intolerância e preconceito, posso dar um exemplo que comprovaria a segunda parte da hipótese. Acaba de estourar uma grande controvérsia nacional. Um dos maiores representantes políticos dos flamengos atacou os francófonos do país, dando a entender que eles não eram capazes de aprender o flamengo, quando viviam nas regiões onde ele predomina. Um quiprocó, um bafafá que está dando o que falar... O representantes dos francófonos (que mais lembra o Daniel Azulai) retrucou, e assim vai.

O que posso dizer é que os próprios flamengos, alguns e não todos, ou falam muito mal o francês, ou se recusam a usá-lo, mesmo perante os estrangeiros. E nessa briga de diz que me diz, ou que nada se diz, o país vai se separando.

Bom, fico de expectador. E, enquanto isso, aproveito minha estadia. Para evitar os contratempos do sobredito festival, fui-me à França. Chovia em Paris, mas tudo estava lindo, como haveria de ser. Comemos muito bem num chinês de preço razoável, e visitamos o novo museu, dedicado à arte de nós, povos primitivos. Uma beleza. Estéticamente perfeito. Uma modernidade só. Dou parabéns sobretudo aos designers do museu, que conseguiram um meio fantástico dos textos de referência museográfica e legendas das obras não interferirem em nossa degustação da arte desses primitivos: as letras dos letreiros foram feitas, em branco, sobre acrílico preto, iluminado por trás. Uma belezura, de um tipo tão pequeno que não atrapalha o visu geral, e nem permite saber se aquele colar de pedrinhas era da América, África ou Oceania.

Com algum esforço descobri que boa parte desses primitivos nasceu e viveu no já há muito passado século XX... vou abrir uma loja de cocar ali perto - índio quer apito, mas também sabe lucrar!

Depois, fui ao norte da civilização francesa, no dia de Maria. Em Cambrai, fomos ver a procissão com os bonecos gigantes do casal de "mouros", Martin e Martine. A estória dos dois é complexa, por isso a conto como bem quero: ouvi dizer que este negro pertencia a um exército europeu, e da negra se apaixonou. Mas, ambos eram proibidos de se unirem, carnal ou não carnalmente, talvez por não serem católicos de batismo e ancestrais. Mas, Martin, que de ferro ainda não era, deve ter com Gregório cantado, que

O querer não tem razão,
que a vontade é mui sutil,
e assim por onde quer entra,
e talvez não quer sair.

Deram bananas à branquelada e fizeram seu carnaval.

Descobertos, foram condenados a tocar os sinos da cidade, marcando as horas. Apiedando-se deles, um padre local, que haveria de ser bem amigo de picardias e fornicações (como haveria de ser), mandou que se contruissem dois "automátos", que marcassem as horas por eles. Assim, foram-se os dois viver felizes para sempre, enquanto os pobres bonequinhos negrinhos lá estão, até hoje, a badalar a cidade.

Deles fiz algo como umas 70 fotos. Espero ter acesso à máquina, que me foi emprestada, para copiar algumas...

Depois, fui passear nos subterrâneos de Arras... muito bem, muito bom. E, assim vai a vida...

Voltando pra casa, pensei em reformular as propostas para o milênio. A primeira haveria de ser que: A cada mês, ficam obrigados os carrilhões a marcarem as horas, e quartos de horas, com uma nova seqüência musical, que não há de se repetir, no espaço de um ano.

Quero ver Martine se acabando num Lundu.

Um abraço nos seus,

René

PS: hoje, na rua, o ceguinho, em seu alaúde tocava, o Tico-tico no fubá. Pena que sem trocados eu estava!

Ainda há que se dizer, que triunfante passei pelo arco de Paris, ao som Cotidiano de Chico Duarte, que a rádio veiculava.

Paris, todo dia faz tudo sempre igual...

no jantar, teremos feijoada,
assim me calo com a boca de feijão, ão, ão!

segunda-feira, 31 de julho de 2006

já que a regina perguntou...

dispois, se uma broca sobrevive aqui? depende... uma broca pluriétnica certamente vai morrer pela boca. todo domingo vamos a uma feira étnica em bruxelas. primeiro, passamos pela grande tv de cachorro: enormes caminhões que as laterais se abrem, revelando forninhos com uma centena de frangos rodando e tomando um bronze, ao ar livre... frangos dos mais variados sabores, que ainda não tive coragem de provar, pois não sei bem das condições de preparo e armazenamento...

depois, chegamos às barracas de frutas dos marroquinos. tenho comido muita cereja (da doce e da azeda), pêssegos de diversas e dulcíssimas espécies, e um tipo de ameixa daqui, que é verde, mas de.li.ci.o.sa!!

depois, passamos no italiano, para comprar verduras. tem umas verduras daqui que são gostosas, mas com nomes que ainda não consigo guardar. tem outras que parece que você está comendo dente de leão com capim manteiga.

beringelas e tomates, pelo menos 3 variedades de cada, que se preparam de inúmeras formas diferentes. a esposa do meu orientador é apaixonada por beringela, e quando descobriu que também sou, usou isso de desculpa para fazer todo dia. é beringela grelhada, salada de beringela, dá-lhe beringela. outro dia fomos a um supermercadinho dos turcos (que, aliás, têm os açougues mais limpos que vi), para comprar tahine para fazer o quê? BERINGELA!

a única coisa que ela lamenta é não ter aqui um tipo de beringela que ela pode preparar como a avó dela fazia, aí em Marília. é uma receita japonesa (a avó nasceu lá), de beringela crua, "cozida" apenas com sal. parece bom.

bom, voltando ao mercado, lá tem também barraquinhas de azeitonas e frutos secos dos árabes. ai ai.

e inúmeras outras coisas, como queijos, carnes e peixes. essas últimas coisas a gente não compra, por conta da higiene. o peixe invariavelmente tem moscas (mesmo na feira aqui de leuven) e cheira mal.

mas, mesmo que você não goste, tenho que dizer que estamos na temporada de mexilhões. hummm. delicia. a esposa do professor fez pra gente mexilhões cozidos no salsão. meus deus do céu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

aliás, se ela não me matar de tanto comer, o marido dela me matará de tanto beber. até agora foram (além de diversos aperitivos) vinhos argentinos, franceses, espanhóis, chilenos, etc.,etc.,etc.

no mais, eles trouxeram do japão uns salgadinhos de soja, cobertos de gengibre, e azeitonas de valência, que me matam.

queijos: comprei gouda, ementhal e camembert. e ganhei um pedaço de queijo minas.

o jantar de ontem foi coelho assado com limão cozido no açúcar (coisa da barraquinha dos árabes), com mandioquinha africana frita. e, de sobremesa, biscoitos amanteigados belgas. hummmm!!

aliás, os sorvetes são bons, mas nada que se compare com os nossos.

no mais, tenho emagracido um pouco, pois faço tudo a pé, e tenho feito somente duas refeições leves por dia (quando não vou jantar com eles), por conta do calor.

os doces e chocolates que vejo pela rua são lindos. só provei, até agora, a torta das ameixas verdes, que meu orientador comprou para que eu experimentasse. no mais, estou esperando o daniel chegar. pois sei que ele vai me fazer comer tudo. então, que eu emagreça de antemão...

no mais, beijos e sodades

René

quarta-feira, 26 de julho de 2006

para imprimir e colar na porta de casa


uma promoção Ajax Festa das Flores

responder é preciso

Creio que o comentário do meu irmão, categoria anta jùnior, merece uma resposta. Não pelo tom provocativo, mas por suscitar histórias. Histórias, pois bem, histórias. Estou aqui para completar as pesquisas para meu doutoramento em História, mas vou acaber é mestre em narrar histórias e estórias de vida. Pois, a maior parte do tempo em que estou em frente ao computador são dedicadas à saciar os anseios tupininquins, que em coro cantam:
Mande notícias do mundo de lá!
Diz quem fica...
E tem horas que só posso dizer:
Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Então, nada de novo no front. Só a repetição desse nosso velho tema tão banal: calor e higiene.
Pois bem, admito que gosto de banho mais do que índio. Mas, devo dizer, como não sou bobo, aqui não ponho minhas barbas de molho. Tenho medo do preço da àgua, por isso me tornei o viciado em economia desse bem não tão natural e nem tão renovável aqui nesse mundo de Oh, meu Deus!
Nos primeiros dias, nada de traumatizar a população local. Foi um banho por dia, olhe lá. Naquele estilo: abre torneira, se molha; fecha torneira, se ensaboa; abre torneira, enxágüa.
Depois que me mudei, também mudei de hábitos. Dois banhos por dia, no mesmo esquema. Esse luxo não é produto do puro desvairio higienizante brasileiro, nem mesmo por alguma obsessão por água. Mas, puro reflexo do aumento da temperatura local dos 28 para os 34 graus.
O que não consegui conter, foi o impulso de limpar meu pequeno estúdio, logo que nele entrei. Quando me entregou as chaves, a proprietária (que é sempre muito solícita e de quem nada devo reclamar), me disse sorrindo: passei ontem o dia inteiro limpando o estùdio. Que bom, pensei.
Mas, por precaução, fui passar um paninho dentro do armário, antes de colocar minhas coisas - o paninho, de amarelinho, tornou-se cinzinha, quase pretinho. Não deu outra: passei a mão no meu vidro de dois litros de Ajax Festa das Flores (cuidadosamente escolhido no supermercado para que seu perfume não me causasse alergia - quanta frescura), e virei um tanto num balde. Acrescentei ÁGUA (olha a conta, seu herege!). Peguei uma bucha, e esfreguei. Esfreguei o armário, esfreguei o armário da cozinha, esfreguei as portas, esfreguei os acendedores de luz, esfreguei os lustres. De tudo escorria um caldo preto, que eu guardaria como nanquim, se uma caneta tinteiro tivesse. O lustre da cozinha, então, me tomou uma hora. Era um tal de dez anos de poeira misturado com óleo de fritura... no fim, parecia novinho, branquinho, branquinho.
Depois, foi a vez do chuveiro. Ou melhor, a ducha. Minha ducha é uma espécie de grande lata de sardinha branca que fica de pé dentro de um quartinho. A gente entra nela, abre a torneirinha de ÁGUA quente, depois e de ÁGUA fria, e pá pá pá pá pá toma banho, com aquele barulhão de ÁGUA caindo em lata (hoje esse barulho diminuiu um pouco, pois a senhoria me deu um tapete de plástico pra pôr lá dentro, que amortece o bombardeio de ÁGUA). Explicada a ducha, passo para a narrativa de sua limpeza.

Quando fui ao supermercado, comprei um produto fortíssimo, com desinfetante e o filho mais moço do diabo à quatro, para limpar minha lata de sardinha. Esse é um produto muito comum aqui, que serve para tirar o que eles chamam de calcário, dos metais da casa, como torneiras. Ou seja, pra tirar aquelas coisas brancas que se acumulam nos metais que ninguém limpa. Minha latinha tinha muito calcário. Calcário branco, calcário preto, calcário marrom. Muito calcário, muita craca mesmo.

Previnido, mas sem as tais barbas de molho, aproveitei minha ida às lojas Bloker (a versão local das Lojas Americanas), para comprar, na promoção, uma escovinha de limpeza. Escovinha na mão, produto contra cracária, e ÁGUA, parciomosiosamente gasta. Esfrega, esfrega, esfrega, e sai aquele caldo preto, agora com partículas sólidas de craca. Por fim, tirei tudo das partes da ducha em: que encosto. Ficou um restinho para a próxima tentativa. Meu espírito indígena vencido pelo cracário.
Ni qui acabei, tava exausto. Achei melhor ir dormir, e continuar minha saga na manhã seguinte. Dia seguinte, foi a vez do chão. Comecei com um paninho úmido, a Ajax Festa das Flores. Termeinei lavando duas vezes o chão, com um balde de ÁGUA, e Ajax. As flores fazim uma "reivi" lá dentro...

Foi quando comecei a reparar meis no prédio onde moro. Ao se entrar nele, sentimos o cheiro da cozinha comunitária (que é das mais limpas que vi aqui). É um misto de lixo acumulado com bafo de comida feita com as janelas fechadas. Assim, logo alcança-se a escada, que felizmente não tenho que usar, pois moro no térreo. A dita escada tem um carpete bi-color: vinho onde se pisa, cinza com floquinhos de poeira, onde ninguém toca.

Passando por isso, sentia-se o odor do banheiro comunitário (atualmente já visitado pela Festa das Flores). Depois, você ouve uma música eletrónica vindo de uma porta, luzes coloridas saindo pelas frestas da mesma. Ao entrar: A FESTA DAS FLORES.

Um tupiniquim em seu paraíso artificial.

Hoje, o que mais medo me dá não é a Nazareth, mas sua escada...

Pararauê-re-re-re-re-re-re-re-re……………………………….

terça-feira, 25 de julho de 2006

o scrap do dia - versão completa

Mi,
tô aqui com uma bolsa sanduíche, vivendo de comer sandubão!
Francês? Hahaha!
Aqui se fala flamengo!
Ao menos em teoria, pois tem lugar que arrisco um flamenguinho básico, noutros um francês pedestre. Mas, no geral, estou me comunicando bem com meu inglês de pedreiro checheno, trabalhando em Bariloche!
No banco, e com um dos meus orientadores, converso em espanhol.
Mas, o que estou praticando mesmo é o português. Vou sair daqui falando português fluentemente. A família do meu outro orientador fala português, a mulher dele é de Marília. E tenho frenqüentado muito a casa deles. A secretária do departamento tb fala português, isso sem contar com uma verdadeira comunidade brasileira que há aqui...
Eu estava pensando em conhecer a Austrália, mas ouvi dizer que o número de sinistros no trânsito aumentou enormemente. Melhor ficar por aqui!
Beijos

segunda-feira, 24 de julho de 2006

fragmento aberto, de carta pessoal

...e eu aqui... nesse fim de primeiro mundo. super cafoninha, pois me recuso a usar as meias pretas com o tenis branco. na verdade, estou "super out, meu bem", pq diz um dermatologista daqui que tomar muito banho faz mal... no super, eu passo super longe das pessoas, pois meu cheiro de sabonete pode ferir o olfato alheio.

istro dia, eu tava chegando na faculdade, e passei em frente à praça, quando uma moça parou no meio do caminho, procurando uma coisa na bolsa. como era cedo, ela, como muita gente, levava seu pão, sem embalagem, dentro da bolsa. sem cerimônias ela se abaixou, tirou o pão da bolsa, pôs no meio fio. pegou o que queria, guardou o pão novamente. e foi-se. pois bem, a estória do pão no chão não é lenda urbana.

e é por isso que meu orientador choca os alunos dele, dizendo q o Brasil precisa dar aulas de civilidade pra Bélgica...

e o calor continua saárico. outro dia, ouvi um senhor dizer ao seu namoradinho que um africano estava reclamando do calor. e ponderou, preconceituosamente: essa gente mora perto do deserto, e vem reclamar do calor aqui?

pois, eu me sinto em Salvador eô-eô...

um brasileiro ligou de Paris e disse que a cidade estava insuportável. tudo cheira a xixi e c.c.! C'est Paris: trashchicm, mon fils...

vi na tv uma reportagem sobre o 0800 de informações sobre o calor. Uma velhota, à qual não beijarei, perguntava ao atendente o que ela deveria fazer para manter a saúde (quiçá a sanidade). O moço respondeu em bom francês: você terá que estar tomando ao menas um litro de água por dia.

- isso tudo, meu filho? eu não consigo...
- mas, vai estar sendo preciso...
- tu tu tu tu...

Depois o povo fica com dó das velhotas desidratadas, em pó ou defumadas que são encontradas, dias depois, mortas em casa...

no mais, beijos nas crianças

René

terça-feira, 23 de maio de 2006

Mas se eu esperar compreender para aceitar as coisas - nunca o ato de entrega se fará. Tenho que dar o mergulho de uma só vez, mergulho que abrange a compreensão e sobretudo a incompreensão. E quem sou eu para ousar pensar? Devo é entregar-me. Como se faz? Sei porém que só andando é que se sabe andar e - milagre - se anda.

(Clarice Lispector - Água Viva)

segunda-feira, 17 de abril de 2006

oito horas da manhã. as conservadoras de edifícios tomam minha rua. seus uniformes são das cores azul papel-da-maçã e um bege estranho, beirando o cinza. cigarro e conversas em tom alto, ligando os dois lados da rua, acompanham o serviço.

hoje será mais difícil varrer o lixo: acabou de chover.

domingo, 16 de abril de 2006

passar tantos dias na frente do computador, só vendo pessoas virtuais, ou dialogando com os mortos, é caminhar em direção à insanidade. faz-me falta uma voz humana, que não saia da tv, e nem cante. minha janela parece um quadro, mesmo que nada estático. e só a mudança da luminosidade, lá fora, me garante que ainda vivo. queria que hoje o sol não se pusesse.

sexta-feira, 7 de abril de 2006

XXXIX


Depois que o senso foi reposto
E o juízo recuperado,
Eu cuidei de findar o proposto;
E achei o tinteiro gelado
E tambémo círio apagado;
Fogo? Não tinha onde encontrar.
Assim, dormi, todo embrulhado,
E não houve como findar.

(François Villon - O Legado)

Um dia com Aretha



What you want
Baby I got it, mm
...
Noo, a little respect
Noo, a little respect
I’mma say it one more time
R-e-s-p-e-c-t

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

que cuidar de uma criança era difícil, isso eu já sabia. mas, dois, de uma só vez? isso é trabalho ao quadrado!! e satisfação também...

no quesito trabalho, otto, o estrupício, é muito pior que a ana. enquanto ana é uma pessoa higiênica e controlada, cadidata a miss lilica bicalho, o otto, ai... limpar cocô dele o dia inteiro é uma experiência realmente engrandecedora; a cada vez, queimam-se dez karmas de sua cota, com direito a concorrer um bônus extra, no final de cada mês!

ainda acho que a licença paternidade deveria ser concedida após o quarto mês do nascimento...

fumm... de novo...

com licença eu vou à luta
Comendo os convidados,

A hora do almoço pode ser menos estressante se você tiver um pouco de imaginação. Há alguns anos criei um evento que pode acontecer sempre que a negociação da hora de comer ficar complicada: a Festa da Barriga. É muito simples: a barriga do seu filho é um salão de festas e todos os alimentos são convidados.

É interessante que a criança escolha o anfitrião e o motivo da comemoração. Por exemplo: oaniversário da Beterraba, a despedida do Brócolis, o casamento do Arroz com o Feijão. Mas mãe, O Feijão e O Arroz não são homens? Aproveite a oportunidade para explicar à novíssima geração que homens podem se casar com homens, sim. Você pode notar também que o fato do arroz ser branco e o feijão ser preto não impede que eles se amem. Mas aí o negócio já descamba para aula de politicamente correto e no final das contas você quer mesmo é que seu filho coma toda a comida. Uma coisa de cada vez.

Geralmente o alimento escolhido é o mais diferente no dia, por exemplo, a Abóbora. Nesse caso, ela deve ser a primeira a chegar, ou melhor, a ser comida. Os convidados se preparam na boca, quando são mastigados. Portanto, se sua filha estiver comendo muito depressa, explique que assim aqueles legumes estarão chegando à festa sem a menor produção. Quando ela engolir, você faz as vozes: _Brócolis querido, que bom que você veio! _Parabéns, Abóbora, como você está bonita! Os convidados vão chegando e a festa vai ficando cada vez mais animada: _Oi, Carninha, olá, Batata, como vai, seu Espinafre?

Se houver algum legume que sua filha não quer comer, faça uma vozinha triste: _Poxa, eu queria tanto ir à Festa da Barriga... Chantagem emocional e lá vai o penetra que em outra situação não entraria naqueles salões.

Mas cuidado: não acostume sua criança a promover sempre a Festa da Barriga. Você pode ser eleita a dubladora oficial das verduras e legumes baladeiros.

: : Laura : :


pilhado de mothern


gunff!! nunca foi preciso que eu promovesse festinhas, baladinhas e afins, para verduras e legumes (vida dura a deles, e curta... muito curta). melhor assim. não tive que me preocupar, desde cedo, com a preparação do evento. a roupa, o salão, o dj. coisas que nunca fizeram muito parte das minhas preocupações festo-comemorativas. os divertimentos (teatro de fantoche, oba!), os comes e os bebes, isso sim!

o que será que D. Beterraba quer pro jantar?
(Fra Angelico - Predella da Anunciação)

"O azul ultramarino era fabricado a partir do pó do lápis-lazúli, importado a altos custos do Oriente; o pó era diluído em líquido várias vezes para se extrair a cor, sendo que o primeiro extrato obtido - um azul violeta intenso - era o melhor e o mais caro. O azul alemão nada mais era que o carbonato de cobre; sua cor era menos brilhante e, o mais grave, seu uso se revelava instável, particularmente em afrescos... Os pintores e seu público estavam atentos a tudo isso, e as conotações de exotismo e perigo que se associavam ao azul ultramarino tinham uma importância no quadro que, hoje, possivelmente nos escape..."

(Michael Baxandall - O Olhar Renascente)

sábado, 4 de fevereiro de 2006

esquentando os tamborins
sou, ou não sou, piada de salão?

(São Jorge e o Dragão - Rogier van der Weyden)

Ao escrever não posso fabricar como na pintura, quando fabrico artesanalmente uma cor. Mas estou tentando escrever-te com o corpo todo, enviando uma seta que finca no ponto tenro e nevrálgico da palavra... Antes de mais nada, pinto pinturas. E antes de mais nada te escrevo dura escritura. Quero como poder pegar com a mão a palavra. A palavra é objeto? E aos instantes eu lhes tiro o sumo de fruta. Tenho que me destruir para alcançar cerne e semente de vida. O instante é semente viva. (Água Viva - Clarisse Lispector)
Hoje, travo mais uma batalha. A batalha que é batalha-de-cada-dia. Hoje, me bato pela palavra. Como domar a palavra? É possível fazer dela pintura? Ou é melhor deixá-la palavra. Pura e simples? Nessa dúvida, estanco. O fluxo pára. E as palavras fazem bola no meu peito. Uma bola de pêlo. Se, ao menos, elas saíssem pela boca, escorressem pelos dedos. Haveria alívio.

terça-feira, 29 de novembro de 2005

Caros amigos e familiares,

É com alegria e satisfação que agradecemos os alvissareiros votos e congratulações, recebidos em função da feliz natividade. Avisamos que os gêmeos são dois miúdos sacudidos, saudáveis, espertos, e bem gordinhos. Calmos, não reclamam de nada; e como não poderia deixar de ser, mamam o dia todo. E, a quem quiser conhecê-los, Otto e Ana avisam que estarão recebendo visitas, das 12 às 18 horas, na maternidade, onde permanecem ao lado da mãe. Presentes, cartões e telegramas deverão ser enviados à nossa residência. Exultantes, agradecemos.

René, Otto, Ana, e mamãe.

(Daniel e Letícia também)

sábado, 19 de novembro de 2005

Os selvagens pintam-se e adornam-se reciprocamente, mas são as mulheres que tingem os homens, desenhando mil primores, tais como linhas, ondas e coisas assim semelhantes, em traços tão miúdos, que mais não é possível.

Não diz nenhum livro que existam outros povos com o mesmo costume. É exato que os citas, quando iam visitar seus amigos, por ocasião da morte de alguém, pintavam as faces. As mulheres da Turquia esmaltam as unhas com uma espécie de tinta vermelha ou persa, julgando, desse modo, que se tornam mais belas; mas não tingem o resto do corpo.

As mulheres americanas não tingem o rosto e o corpo de seus filhos apenas de negro, mas de várias outras cores, especialmente uma que se assemelha ao boli armênio. Essa última tinta é fabricada de uma terra gorda como a argila, que dura por espaço de quatro dias. As índias pintam-se as pernas com uma tinta de cor igual ao boli armênio, de modo que, ao vê-las de longe, julgar-se-á que estão metidas em belas calças de fina estamenha preta.

(André Thevet - Singularidades da França Antártica - 1557)

tão inusitada quanto clara rockmore,
pitoresca como um theremin,

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

(Vista do Cantão - Vingboons-atlas)
Prazer do mercador
O viajante dos mares cavalga o vento celeste
que transporta seu barco a países longínquos
sem deixar rasto,
como o pássaro nas nuvens.
(Li Po)
Despedida (Acompanhando um amigo)

A verde montanha se estende para além da Muralha Norte.
Brancas águas cercam a Muralha Leste.
Quando aqui nos separamos,
sereis a erva aquática vogando para grandes distâncias.

As nuvens errantes me farão pensar em quem viaja.
O sol poente me recordará o antigo amigo.
Já vos afastais e acenamos com as mãos.
Nossos cavalos, um para o outro, relincham tristemente.

(Li Po)
(Montanha no Verão - atribuída a Qu Ding)



Prazeres de uma noite de verão

Afastamo-nos da montanha azul e a lua nos acompanha.
O orvalho torna pesada as mangas de nossa roupa.
Voltamo-nos para avaliar a distância percorrida:
mas uma bruma esbranquiçada afoga o campo.

De mãos dadas, aqui estamos diante da casa rústica
onde os amigos nos esperam.

Agora caminhamos ao longo de uma alameda bordada de bambus
que nos roçam, quando passamos.

Estamos todos reunidos! Que felicidade!
Servem-me vinho perfumado. Canto a canção do "Vento nos Pinheiros".
Os rouxinóis, as rãs e os insetos cantam também, ao mesmo tempo.


(Li Po)

quarta-feira, 12 de outubro de 2005


Luz Negra


Sempre só
Eu vivo procurando alguém
Que sofra como eu também
E não consigo achar ninguém




Sempre só
E a vida vai seguindo assim
Não tenho quem tem dó de mim
Estou chegando ao fim



A luz negra de um destino cruel
Ilumina o teatro sem cor
Onde estou representando o papel
De palhaço do amor

(Nelson Cavaquinho, Amâncio Cardoso)

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

Há que se ter sutilezas com os usos da língua

Para as pálpebras, use de leveza
Nos lábios, delicadeza
Na nuca, use-a por inteiro

Já a dos desafetos,
Corte, salgue
E dependure ao vento.

quinta-feira, 8 de setembro de 2005


(Lighthouse Hill - Edward Hopper - 1927)

Com melancolia e solidão.
Espero.
E, enquanto espero, eu canto...
IV

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres mais medo de morrer.

E então serás eterno.



XXVIII

Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.

(Cânticos - Cecília Meireles)

quarta-feira, 31 de agosto de 2005

(Canibal - Performance de Marco Paulo Rolla)


- Calma minha gente, é só a marca do fogão!!

terça-feira, 30 de agosto de 2005


Belladonna Boladona

Nightshade, Deadly (Atropa belladonna LINN.)

Belladonna is supposed to have been the plant that poisoned the troops of Marcus Antonius during the Parthian wars. Plutarch gives a graphic account of the strange effects that followed its use.
Buchanan relates in his History of Scotland (1582) a tradition that when Duncan I was King of Scotland, the soldiers of Macbeth poisoned a whole army of invading Danes by a liquor mixed with an infusion of Dwale supplied to them during a truce. Suspecting nothing, the invaders drank deeply and were easily overpowered and murdered in their sleep by the Scots.
According to old legends, the plant belongs to the devil who goes about trimming and tending it in his leisure, and can only be diverted from its care on one night in the year, that is on Walpurgis, when he is preparing for the witches' sabbath. The apples of Sodom are held to be related to this plant, and the name Belladonna is said to record an old superstition that at certain times it takes the form of an enchantress of exceeding loveliness, whom it is dangerous to look upon, though a more generally accepted view is that the name was bestowed on it because its juice was used by the Italian ladies to give their eyes greater brilliancy, the smallest quantity having the effect of dilating the pupils of the eye.
Another derivation is founded on the old tradition that the priests used to drink an infusion before they worshipped and invoked the aid of Bellona, the Goddess of War.
The generic name of the plant, Atropa, is derived from the Greek Atropos, one of the Fates who held the shears to cut the thread of human life - a reference to its deadly, poisonous nature.
Thomas Lupton (1585) says: 'Dwale makes one to sleep while he is cut or burnt by cauterizing.' Gerard (1597) calls the plant the Sleeping Nightshade, and says the leaves moistened in wine vinegar and laid on the head induce sleep.
Mandrake, a foreign species of Atropa (A. Mandragora), was used in Pliny's day as an anaesthetic for operations. Its root contains an alkaloid, Mandragorine. The sleeping potion of Juliet was a preparation from this plant - perhaps also the Mandrake wine of the Ancients. It was called Circaeon, being the wine of Circe.

domingo, 28 de agosto de 2005

(La Dame Indignée - Robert Doisneau - 1948)
- Satisfeita, Yolanda?

(A última valsa do Dia da Bastilha - Robert Doisneau - 1945)

Quase

Por uma estranha alquimia
(Você e outros elementos)
Quase fui feliz um dia.
Não tinha nem fundamento.

Havia só a magia
Dos seus aparecimentos
E a música que eu ouvia
E um perfume no vento.

Quase fui feliz um dia.
Lembrar é quase promessa
É quase quase alegria.

Quase fui feliz à beça
Mas você só me dizia:
"Meu amor, vem cá, sai dessa".


(Guardar - Antônio Cícero)

sexta-feira, 26 de agosto de 2005

MOTO CONTÍNUO
(Edu Lobo - Chico Buarque)

Um homem pode ir ao fundo do fundo do fundo se for por você
Um homem pode tapar os buracos do mundo se for por você
Pode inventar qualquer mundo, como um vagabundo se for por você
Basta sonhar com você
Juntar o suco dos sonhos e encher um açude se for por você
A fonte da juventude correndo nas bicas se for por você
Bocas passando saúde com beijos nas bocas se for por você
Homem também pode amar e abraçar e afagar seu ofício porque
Vai habitar o edifício que faz pra você
E no aconchego da pele na pele, da carne na carne, entender
Que homem foi feito direito, do jeito que é feito o prazer
Homem constrói sete usinas usando a energia que vem de você
Homem conduz a alegria que sai das turbinas de volta a você
E cria o moto-contínuo da noite pro dia se for por você
E quando um homem já está de partida, da curva da vida ele vê
Que o seu caminho não foi um caminho sozinho porque
Sabe que um homem vai fundo e vai fundo e vai fundo se for por você
meu rosto é essa máscara que ponho para te afligir, para te encantar, para te afastar, para te atrair, para te esquecer. muitas vezes esses sucessos são involuntários, tão involuntários quanto o sentimento que os movem. e me pego dizendo o que não queria expressar, mesmo sem abrir a boca. então, atenha-se ao olhar, ele diz o que os músculos enganam. ao menos, essa é minha verdade.
- Mas nós que vivemos no corpo vemos com a imaginação do corpo as coisas desenhadas a traço. Vejo rochas ao sol claro. Não posso levar esses fatos para dentro de alguma caverna e, tapando os olhos, fundir seus amarelos, azuis e cor de ferrugem em uma só substância. Não posso ficar muito tempo sentada. Preciso levantar-me de um salto e partir... Solto todos esses fatos - diamantes, mãos mirradas, potes de porcelana e o resto - como um macaco solta nozes de suas mãos peladas. Não posso dizer-lhes se a vida é isso ou aquilo. Vou sair para a multidão heterogênea. Serei golpeada; erguida e baixada entre os homens, como um navio no mar.

(As Ondas - Virgina Woolf)

terça-feira, 23 de agosto de 2005



My Beautiful Laundrette

Gordon Warnecke & Daniel Day-Lewis

Ando homem de poucas palavras, ou quase nenhuma. Mas, não poderia deixar de dizer algo sobre esse filme, que de tão simples, é bonito e poderoso. Foi com ele que descobri que amor se pode encontrar em qualquer lugar. E que há sempre alguém a quem se dedicar. Pois é, fica o dito e o redito por não dito...

domingo, 21 de agosto de 2005

IV

Adormece o teu corpo com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?


IX

Os teus ouvidos estão enganados.
E os teus olhos.
E as tuas mãos.
E a tua boca anda mentindo
Enganada pelos teus sentidos.
Faze silêncio no teu corpo.
E escuta-te.
Há uma verdade silenciosa dentro de ti.
A verdade sem palavras.
Que procuras inutilmente,
Há tanto tempo,
Pelo teu corpo, que enlouqueceu.


(Cânticos - Cecília Meireles)

quinta-feira, 18 de agosto de 2005


Belorizontem

(Antigo Prédio dos Correios - Av. Afonso Pena, em frente ao Parque Municipal)

segunda-feira, 15 de agosto de 2005

ENTRE INFERNO E CÉU
O Belo e o Bem na iconografia européia sobre a América (sécs. XVI-XVII).


Lo que aquí vi fue que vimos una infinitíssima cosa de pájaros de diversas formas y colores, y tantos diversos papagayos, y de tan diversas suertes, que era maravilla: algunos colorados como grana, otros verdes y colorados y limonados, y otros todos verdes, y otros negros y encarnados; y el canto de los otros pájaros que estaban en los árboles, era cosa tan suave y de tanta melodía que nos ocorrió muchas veces quedarnos parados por su dulzura. Los árboles son de tanta belleza y de tanta suavidad que pensábamos estar en el Paraíso Terrenal, y ninguno de aquellos árboles ni sus frutas se parecían a los nuestros de estas partes. Por el río vimos muchas especies de pescados y de diversos aspectos. (Américo Vespúcio)

Condenados a se sentir estrangeiros no mundo físico até a redenção, os cristãos sempre foram marcados por uma melancolia causada pela queda de Adão e Eva do Paraíso, pela perda do espaço ao lado de seu criador, e por um igual desejo do retorno. Entre o inferno e o céu, a teologia cristã encarregou-se de consubstanciar, no mundo físico, uma manifestação deste objeto de desejo cristão, o Paraíso Terrestre. Localizado em um espaço inacessível e proibido ao homem devido a limitações de origem divina e por barreiras naturais – o Paraíso esteve ladeado por muros flamejantes, isolado em desertos ou situados em altas montanhas de ventos fustigantes–, a busca do sítio paradisíaco foi tópico constante dos escritos teológicos, da cartografia e das narrativas de viagem medievais, e de seus correlatos modernos. Desconhecida, a paragem do Paraíso na terra constituiu um fenômeno migratório; um mito geográfico. As pistas que davam as coordenadas do local sagrado, acreditava-se, haviam sido indicadas por Deus nas escrituras. E a partir da leitura destas pistas, os cristãos fizeram o Paraíso existir próximo à Índia cristã, no Ceilão, no extremo Oriente ou ao norte do mundo, para, mais tarde, situá-lo na América do Sul.
Mito geográfico, nos mapas, nas gravuras e pinturas o paraíso foi representado de diversas formas, em distintas localidades. Até o fim da Idade Média, a via preferencial de sua exposição imagética foi, sem dúvida, a figuração do casal primevo, Adão e Eva. O casal era representado, às vezes, de forma descritiva: um homem e uma mulher nus, situados em torno da Árvore do Conhecimento e próximos à serpente. Em outras, "assumiam la secuencia temporal-narrativa típica del gótico tardio, [y] se mostraba la tentación y la expulsión". Contudo, com o aproximar-se da modernidade, a representação do Paraíso planteou novos rumos: a tradição iconográfica começava a se deslocar da visão do casal que o habitou para o ambiente entorno. Transformando-se, a iconografia do Paraíso gerou a imagem que hoje predomina em nossas mentes, o Jardim do Éden. No painel esquerdo do tríptico Jardim das Delícias de Bosch, por exemplo, temos uma das primeiras imagens desta revolução da representação, que podemos considerar uma liberação da paisagem . Nela, o paraíso é, pictoricamente, um arborizado jardim, repleto de pássaros e animais exóticos, como a girafa e o elefante, animais míticos, como os unicórnios, e animais monstruosos, que se dispõem em torno da Fonte da Vida. Um espaço natural, ou melhor, paisagístico, onde a história do pecado original se desenrola. Um ambiente carregado de elementos exóticos que marcam seu caráter extra-europeu, provocando estranhamento. Ao mesmo tempo, uma imagem do espaço original de todas as espécies.
O movimento de transformação da iconografia do Paraíso parece estar intimamente ligado, como se apreende nos textos de Vespúcio, à aventura européia na América. A nova iconografia encontrou um forte paralelo entre as idéias correntes acerca do espaço original e as palavras dos primeiros homens a correr o Novo Mundo com o olhar: a exuberância da natureza americana, com matas tão densas que os pássaros somente podiam penetrá-las sozinhos, não em bando; as árvores que sempre verdes, em eterna primavera, que nunca perdiam as folhas e recendiam perfumes; os peixes magníficos e a fauna que era toda distinta da européia; os pássaros belíssimos e de todas as cores; enchiam os olhos dos aventureiros europeus, recheando-os de maravilhas e estupor. A primeira caracterização edênica deste continente foi feita no relato de Colombo, que acreditou encontrar-se perto do Éden, conforme indicavam os sinais que lera na exuberante natureza. Não por acaso, o deslumbramento dos viajantes com a abundância da natureza americana coincidiu, temporal e imaginariamente, com a mudança na postura do europeu frente ao sítio sagrado.
A natureza edenizada da América facilitaria ao olhar europeu o deslocamento do sítio paradisíaco para a América. A diversidade e exuberância da fauna e flora marcariam seus traços distintivos e estrangeiros com relação à Europa, necessários para o reconhecimento da terra dos pais primeiros: espécimes animais tanto da América, quanto das exóticas África e Ásia, compunham os quadros naturais do Paraíso. Acima de Adão, numa gravura de 1504, Dürer fez pousar na Árvore da Sabedoria um papagaio. Na gravura que abria o primeiro tomo da obra de Theodor de Bry dedicada à narração imagética da conquista da América, atrás do casal primevo e em torno de uma cabana indubitavelmente americana, desenrolam-se cenas da vida dos homens na natureza. Ainda que ambas imagens permaneçam presas ao parâmetro medieval de representação do Paraíso, a presença da natureza americana em suas composições dá ao Paraíso, em face à Europa, feições estrangeiras. Já no painel do Jardim das Delícias de Bosch, a Árvore cujo deleite do fruto foi fatal a Adão e Eva es un agave, una espécie americana .


Vem dançar, Kabiyesi. Vem dançar.
Que a vida é contenda. Contenda das boas.
Deite o pano branco sobre minha casa,
e vem dançar.

me ensina a lutar
me ensina a bater
me ensina a paz
me ensina a dançar

Vem dançar, Kabiyesi. Vem dançar.
As horas felizes
1
De suas duas tias Zenóbia sempre recebia dádivas quando menos esperava. Uma, a versada em frases e palavras, doou à sobrinha as metáforas mais divinas. A outra, afeita aos afetos duráveis, deu-lhe uma imagem de Sant Teresa D'Ávila. Com elas, Zenóia sentia-se livre de entraves e aprendeu a criar sozinha suas próprias paisagens. Cada regalo que ganhava despertáva-lhe o apelo da novidade. Ao ponto de chegar à claridade de falar um dia que, ao contrário do que muitos diziam, existir não é um plágio.
(O Livro de Zenóbia - Maria Esther Maciel)

sexta-feira, 12 de agosto de 2005



Em noites de lua cheia
havemos nossos encantos.
(Cavaleiros das Sete Luas - Bartolomeu Campos de Queirós)

quinta-feira, 11 de agosto de 2005

Fragmento de conversa

Pois, bem... esse negócio do olhar me é uma coisa tão importante, quanto complicada! Primeiro, pq é um assunto que me intriga, e vira tema de pesquisa. Depois, pq há quem tenha um olhar que que me entra pelos olhos, investiga minha alma, se demora lá dentro, e depois me foge. Em terceiro lugar, por haver esse olhar, que também exploro, confronto e sustento, com meu próprio olhar; mesmo que, às vezes, as pupilas se fechem para mim. Por fim, o que é mais complicado: a vida é o que se vê nos olhos dos outros (Virginia Woolf); seja por reflexo, seja por projeção. Portanto, parte das cores que vemos nos olhares, são imagens do que queremos ver. E ai, onde está a verdade? Em nós mesmos? Quanto as imagens possuem de real, ou de engano?
me queimo em sonhos, tocando estrelas
(Hilda Hilst)
AS VACAS MAGRAS

é porque entrei demais na sua intimidade que
estou fora dela agora

o excesso de amor nos separou

(Beijo na Boca - Cacaso)

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

Ver e Traçar


Há uma imensa diferença entre ver uma coisa sem o lápis na mão e vê-la desenhando-a.

Ou melhor, são duas coisas muito diferentes que vemos. Até mesmo o objeto mais familiar a nossos olhos torna-se completamente diferente se procurarmos desenhá-lo: percebemos que o ignorávamos, que nunca o tínhamos visto realmente. O olho até então servira apenas de intermediário. Ele nos fazia falar, pensar; guiava nossos passos, nossos movimentos comuns; despertava algumas vezes nossos sentimentos. Até nos arrebatava, mas sempre por efeitos, conseqüências ou ressonâncias de sua visão, substituindo-a, e portanto abolindo-a no próprio fato de desfrutar dela.

Mas o desenho de observação de um objeto confere ao olho certo comando alimentado por nossa vontade. Neste caso, devemos querer para ver e essa visão deliberada tem o desenho como fim e como meio simultaneamente.

Não posso tornar precisa minha percepção de uma coisa sem desenhá-la virtualmente, e não posso desenhar essa coisa sem uma atenção voluntária que transforme de forma notável o que antes eu acreditava perceber e conhecer bem. Descubro que não conhecia o que conhecia: o nariz de minha melhor amiga...

[...]

A vontade continuada é essencial ao desenho, pois o desenho exige a colaboração de aparelhos independentes que estão sempre pedindo para resgatar os automatismos que lhes são próprios. O olho quer vagar; a mão arredondar, tomar a tangente. [...]

Ver linhas e traçá-las. Se nossos olhos comandassem mecanicamente um estilo de traçar, bastaria olhar um objeto, isto é, seguir com o olhar as fronteiras das regiões diversamente coloridas, para desenhá-lo exata e involuntariamente. Desenharíamos, do mesmo modo, o intervalo de dois corpos, que, para a retina, existe tão nitidamente quanto um objeto.

Mas o comando da mão pelo olhar é bastante indireto. Muitas etapas intervêm: entre elas, a memória. Cada relance de olhos para o modelo, cada linha traçada pelo olho torna-se elemento instantâneo de uma lembrança, e é de uma lembrança que a mão sobre o papel vai emprestar sua lei de movimento. Há transformação de um traçado visual em traçado manual. Mas essa operação é suspensa na duração da persistência daquilo que chamei “elemento instantâneo de lembrança”. [...]

O artista avança, recua, debruça-se, franze os olhos, comporta-se com todo o corpo como um acessório de seu olho, torna-se por inteiro órgão de mira, de pontaria, de regulagem, de focalização.


(Degas Dança Desenho – Paul Valéry)

Até Pensei
(Chico Buarque - 1968)


Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caía
Toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
Do lado de lá tanta ventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade
Morava tão vizinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha

Junto a mim morava minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
E a dona dos olhos nem via
Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a enganar nunca me vinha
Eu andava pobre
Tão pobre de carinho
Que, de tolo
Até pensei que fosses minha

Toda a dor da vida
Me ensinou essa modinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha


terça-feira, 9 de agosto de 2005

(A Estrada - Cézanne - 1871)


É possível imaginar alguém escrevendo uma monografia do azul, desde o azul denso, de cera, das pinturas murais de Pompéia, até Chardin, e, mais longe, até Cézanne: que biografia!

(Cartas sobre Cézanne - Rainer Maria Rilke)

domingo, 7 de agosto de 2005



A vida é o que você vê nos olhos dos outros; a vida é o que as pessoas aprendem e, tendo aprendido, nunca, embora o tentem esconder, deixam de estar conscientes de - do quê? De que a vida é assim, ao que parece.

(Um romance não escrito - Virginia Woolf)

sexta-feira, 5 de agosto de 2005



- Linhas e cores quase me persuadem de que também posso ser heróico, eu, que faço frases com facilidade, e depressa sou seduzido, amo o que vem a seguir, e não posso fechar meu punho, mas vacilo debilmente fazendo frases, conforme minhas circunstâncias. Agora, através da minha própria fragilidade, recupero o que ele foi para mim: o meu oposto.

(As ondas – Virginia Woolf)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

Lista de Broca Oculta



1 – René: aberto a emoções! Emoções positivas, tipo: bombom de bacuri, doce de cupuaçu, sorvete ou torta de mangaba, um araçá azul. Um beijinho doce, que foi ele quem trouxe, de longe pra mim...
2 – Dani: Coisinhas gostosinhas... Hummm... Doce, né? Chocolates, tipo assim... (risos)
3 – Raquel: Doces suaves (ou seja, não muito “pesados”) – Isso não quer dizer diet
4 – Alice: Opção 1: Torta de maçã que o Zé Antônio faz. (Quem me tirou encomende a ele)
Opção 2: rondelli de ricota com nozes
Opção 3: eu não quero arroz, feijão, jiló, chocolate, panetone
Opção 4: o arroz em pessoa!
5 – Regina: Cesta básica DIET: gelatina (exceto de maracujá); barra de cereais SEM chocolate; frutas: abacaxi, maçã, pêra, pêssego, laranja (exceto serra d’água); capuccino. Clight;
6 – Daniel: Bombons (bacuri, cupuaçu)
Trufas (todas)
Doces (todos)
Sorvetes (todos)
7 – Juliana: Surpreendam-me!
8 – Patrick: Bombons de licor da Lalka
Pote de sorvete de flocos com cobertura
9 – Letícia: Doce, tipo chocolate. Sorvete também pode. Ah!, uma coisa boa, né?


Faltam se manifestar Luana, Patrícia, Cibele, Tatiana, Márcia, Rodrigo, Tiago.

Tiago é um Broca master. Ele gosta de tudo que é ingerível, mesmo que não seja muito digerível.
Patrícia: Osupermercado inteiro, um restaurante inteiro, uma pizzaria só para mim... Aí que fome... A fabrica da Kibon... Aí meu deus!!!! Brincadeira!
Vamos lá:1)Sushis e afins....2)Chocolates, chocolates, chocolates....3)Todas as coisas gostosas... petit gauteauSei lá pessoas vocês me conhecem...

Tatiana: Nuttella toda hora levemente adocicada
Cibele: Balas de licor com chocolate da Lalka. Quadradinhos finos õu trufas de café da Lalka. Doces de Protugal.

domingo, 25 de julho de 2004

O autor desse blog se auto-destruirá em alguns minutos. O estômago roda o drink de ontem, e a cabeça, turva do coração inquieto, aguarda. Tudo tem fim.

quinta-feira, 10 de junho de 2004



(A boa fortuna - Caravaggio)


- Cadê o toicinho que tava aqui??
Sabendo cantar Palavras você poderá, ao menos, se fazer de besta quando um cabeludo gritar no meio do show:

- Toca Raúúúúúúúúl...





Nesse dia dos namorados, seja Raúl
seja Cortez




Aprenda com o mestre da sedução 101 frases de amor.

- Você é uma frase de amor começada...
- Sua voz é como violinos e rosas...
- Se você não existisse, teria que ser inventada...

Escute

Palavras, palavras, palavras


(Cupido - Caravagio)

quinta-feira, 3 de junho de 2004



(A difícil partida - Cícero Dias)


Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores

Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.

(Árias Pequenas. Para Bandolim. - Hilda Hilst)

domingo, 7 de março de 2004

Alguém já viu a Mariana Álcoolcanforado esperando e-mail? Eu já.

Certas pessoas canforadas tinham me prometido um reveillon em fevereiro, para comemorar o real início do ano (pois no Brasil o ano só começa depois do Carnaval), mas acabaram por dar no pé. Tratantes. Eu queria ver a Mariana Álcoolcanforado ébria e dançando...




Aêêêhhh!! Olhem só que vou me gabar, e muito. Pois agora é minha hora e minha vez. Passei, acabou, terminou, desmonstrei... defendi. Nada mais de mestrado na minha vida, que maraviha!!!! Foram 22 meses de sufoco, mas deu tudo certo. Teve até público... a Regina e o meu Lindus foram, e cada um teve uma impressão diferente acerca das reações da banca - uma achou tudo um terrorismo intelectual, o outro viu cenas de Super-Mães com tintas de mulheres apaixonadas. Já eu, nem sei - também, depois da tensão de quatro horas e meia de defesa, a gente acaba perdendo o rumo. Só sei que deu certo, e tirei FÉRIAS - por tempo limitado, é verdade, já que o doutorado começou em março. Mas valeram as rezas, prantos, e tudo mais.

Agora, tanto em casa, como no trabalho, já estão me chamando de mestre dos magros... tsc, tsc, tsc. Será que gostei dessa nova identidade??


terça-feira, 20 de janeiro de 2004



pois bem... estou de férias do bloguiu. de férias. numa praia de nudismo onde mãos ávidas acariciam mouses repetindo intensamente: sou bloguento mas sou limpinho. arre, quantos ciúmes nos corações alheios. saibam que por aqui está tudo bem, com meu bem também. mas de férias, nécas. labuta, labuta, labuta - e quase mudo de profissão; já que a confissão em nada mudaria.

e se tudo anda bem, ainda que devagarinho, devo umas pras rezadeiras e benzedeiras internáuticas, amigos e muito mais... que continuem puxando o terço, que o bonde tá difícil de empurrar! e como diz o dito:

falei???? (bashô zé pequeno, mutações malacas)

no mais, é feliz ano novo pra todo mundo...

... e até mais.

quinta-feira, 20 de novembro de 2003

estava chovendo, quando chegamos ao cinema. o dia havia sido tranquilo - muita leitura e um cochilo no sofá. pouco sabia sobre o que viria a assistir. havia somente a expectativa de uma tarde linda, fria e chuvosa, com quem mais amo...

...comecei a postar esse comentário há alguns dias, quando previa uma melhora na qualidade da minha vida recente. o que eu não poderia jamais imaginar era que aquele momento de felicidade seria apenas o prenúncio de mais uma onda de escuridão completa. as janelas se fecharam novamente, e eu fiquei preso aqui, tentando decidir a vida. ainda tenho muito pelo que lutar: amigos, amor, família, e um resto de apreço por meu trabalho. ficarei mais um tempo longe - uma semana, duas, não sei -, mas voltarei com uma solução para mais esse problema. uma solução definitiva, pelo menos até a próxima mudança dos ventos. rezem por mim!

quinta-feira, 6 de novembro de 2003

acho que vi a linda Jônia...
e não é que estou trabalhando, e vou continuar até às 7:00? eu te disse, eu te disse, eu te disse...

terça-feira, 28 de outubro de 2003

conheci um poeta, com versando com um poeta – e um figurinista acompanhando. fiquei ali, olhando como se ali não estivesse. quase não falando. não era minha vez – mas a felicidade, essa sim era minha. eu vi um poeta falando com um ator, outro poeta, e um figurinista. e me escondi na casa que o álcool fez pra mim. eu vi, fui visto - mas era dispensável. o que queria, mesmo, era não estar ali. mas ficar totalmente recolhido no invisível. e melhor me deleitar com a felicidade do poeta e do ator, que conversavam com o poeta e o figurinista.

indispensável era estar – ou ser – felicidade para alguém.
de repente, descobri que as pessoas se querem escritoras ou poetas. querem jorrar textos não por ofício, ou amor à forma, à letra, à arte, à vida, ou ao que seja. escrevem por amor a si mesmas. e por desejar, do mundo, que mais amor recaia sobre si. então, me deixem – que não sou nada disso não. não sou poeta, não sou escritor, não sou gente que quer o amor do mundo. não escrevo por amor – às palavras, às coisas, à vida. mesmo que escrever faça parte de meu ofício, não o faço por arte ou atenção, mas pela necessidade. necessidade de sobreviver. necessidade de ser alguém, que faz alguma coisa, qualquer. por isso, nem sequer escrevo. só faço o que me dá um pouco de prazer, o que me faz ser alguém. mesmo que sem certeza alguma.

sexta-feira, 24 de outubro de 2003

PS: tenho deixado de fazer meus pequenos relatos de viagem - que tanto gosto. Estive no Rio, Belém do Pará, Catas Altas, mas não registrei nada... Pura falta de tempo. Mas, só pra constar, estou do Rio, de novo!!! Meu fim de semana promete: Antônio Cícero, Ana Cristina C., arte africana, um possível concerto no Municipal, muitos amigos, e meu lindin...
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

(Alberto Caeiro)



De repente, minha janela fechou... e assim ficou por muito tempo. Ausente estive de mim, de minha casa, do mundo. Há tempos, não tenho tempo de parar, abrir a janela, e observar a vida. Trabalho, trabalho muito. 9 horas, 18 horas, 24 horas, até uma da manhã... e sombra pouco tempo para fazer, e falar. Desculpem-me se a janela está fechada - entendam como alguém que saiu de férias, mas volta já.

terça-feira, 23 de setembro de 2003

a fulô tá fula com os fulanos que fizeram feio fugiram e ela ficou




é uma barbaridade o que se anda fazendo

com essa nêga fulô!

nem que ela gritasse

esperneasse

chorasse

alguém escutaria

de tão sozinha

essa nêga fulô

sexta-feira, 19 de setembro de 2003



esse mês, temos uns bolinhos especiais - um certo Lindus fez aniversário junto com uma Fulô muito das GH

a festa foi ótima... basta olhar lá no blog deles pra saber

e agora, vai ser a vez da Jhu-Lai Lama se atolar em Macacos

V.I.V.A.S
Outro dia, recebi um recado: - esse René não atualiza mais o blog... ficou preguiçoso!!!
Éeeeh... tinha que ser uma certa Mel-issa prá falar uma coisas dessas prum pobre blogueiro que anda trabalhando mais que jumento saltimbanco!!

Bom, para que eu não continuasse tão em dívida com essa menina, postei meu texto sobre o Cassino, que, na verdade, faz parte do trabalhão que anda me ocupando muito, e muito.

Ando com saudades de ler os blogs amigos, de encontrar os amigos, e escrever...



Visto de longe, parecia flutuar... Erguido sobre o promontório, era uma enorme caixa retangular acoplada a uma caixa oval. Ao seu redor, um jardim colorido havia sido recortado pelas bifurcações de um caminho tão sinuoso quanto um pensamento distraído. Mais de perto, podia-se ver, através da fachada de vidro, os movimentos no seu interior. À porta, sob uma marquise de inesperado recorte, havia uma imensa escultura, um corpo nu de mulher. Depois dela, um amplo salão – recheado com colunas de alumínio, mesas de jogo, roletas, fichas, taças e muita gente – confirmava as expectativas: era o edifício sonhado por JK, projetado por Niemeyer, decorado pelo paisagismo de Burle Marx e pela escultura de Zamoyski. Era o Cassino da Pampulha, que, nos três anos que separaram sua criação da proibição do jogo no Brasil, em 1946, revolucionou os hábitos belorizontinos quase tanto quanto modernizou a arte de construir.
Dentre aquela gente eufórica que circulava pelo salão, uns se distraiam contemplando a face esquerda do edifício (aquela película de vidro) a se abrir em uma ampla vista para o lago; amplidão que se refletia na parede oposta, coberta de espelhos rosados. Outros, subindo ou descendo as rampas de alabastro que ligavam o salão ao mezanino, repetiam o espanto do prefeito da cidade: Nunca havia visto um edifício com rampa, em lugar de uma escada.
Seguindo pela rampa que ladeava os espelhos, o som da música aumentava, ecoando instrumentos de orquestra, vozes de renomados cantores e passos double de vedetes. Ali em frente, o corredor se abria numa sala oval: o grill-room, todo transparente, todo de vidro. Inclusive o chão, que brilhava luzes coloridas sob os pés de quem dançava. Acima da pista de dança, o estratégico recorte do teto produzia um impressionante efeito acústico: os sons da música executada no palco, ao passar por ali, tornava-se mais potente, sendo novamente reduzido ao atingir as mesas, do outro lado do salão. Nas mesas, outras inovações da época eram servidas: o filet tournedor e a maionese, preparados pelo chef Lucas. Já o palco, em forma de feijão, tinha o moderno requinte de ser, também, um elevador capaz de conduzir os artistas do grill-room ao bar do primeiro piso, ou aos camarins subterrâneos.
Além da festa, além do luxo, esse cenário da modernidade tinha, para JK, um sentido político: o de ligar a utopia dos novos tempos à visão daqueles que, há menos de 50 anos, haviam criado Belo Horizonte. O Cassino da Pampulha seria, então, a versão concreta e renovada de um projeto nunca realizado pela Comissão Construtora da Nova Capital: o Cassino do Parque Municipal.


terça-feira, 9 de setembro de 2003

VOZ

Orelha, ouvido, labirinto:
perdida em mim a voz de outro ecoa.
Minto:
perversamente sou-a.


(Antônio Cícero - Guardar)

sexta-feira, 5 de setembro de 2003

Pois passara noites e noites a sonhar
que não se conseguia acabar de vestir
nunca

(Adília Lopes - Maria Cristina Martins)



E passei dias e dias esperando
todo trabalho findar
para as tardes e tardes seguintes
ir ao cinema tomar sorvete namorar

Quem me quer disse
bem
Meu querer disse
sim
Minha vida arrematou
não

que a história não é bem assim


quinta-feira, 14 de agosto de 2003

E tem mais: pau-no-cu de professores universitários que retiram seus textos do xerox às vesperas das provas, quando a biblioteca está em greve.

Fédapuuuta.

- hoje, a minha pessoa se dá ao direito de perder a
classe nossa de todo dia -
Só para cons(ta)tar:

De repente, uma vontade louca: não entregar o trabalho final, e viver, como artista ou viajante, de paisagens tropicais e dinheiro público.

Quem sabe, depois disso, eu volto?

Té mais.

segunda-feira, 21 de abril de 2003

II

E circulando lenta, a idéia, Túlio,
Foi se fazendo matéria no meu sangue.
A obsessão do tempo, o sedimento
Palpável, teu rosto sobre a idéia

Foi nascendo

E te sonhei na imensidão da noite
Como os irmãos no sonho se imaginam:
Jungidos, permanentes, necessários
E amantes, se assim for preciso.

Tocar em ti. Recriar castidade
Não me sabendo casta, ser voragem
Ser tua, e conhecendo

Ser extensão do mar na tua viagem.


(Hilda Hilst - Moderato Cantabile, em Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)

quinta-feira, 17 de abril de 2003

Homenagem
aos homens que agem


Tarsila não pinta mais
Com verde Paris
Pinta com Verde
Cataguases

Os Andrades
Não escrevem mais
Com terra roxa
NÃO!
Escrevem com tinta Verde
Cataguases

Brecheret
Não esculpe mais
Complastilhina
Modela o Brasil
Com barro Verde
Cataguases

Villa Lobos
Não compõe mais
Com dissonâncias
De estravisnqui
Nunca!
Ele é a mina Verde
Cataguases

Todos nós
Somos rapazes
Muito capazes
De ir ver de
Forde Verde
Os azes
De Cataguases

(Marioswald - Oswaldario dos Andrades)
Nascido


Fez-me calmo minha mãe
meu pai, um filho seu
o tempo me fez chuvoso
– novembro –,
e aguardo
ser


O Abraço - Alfredo Ceschiatti


durante um ano, inteiro, comemoramos o espanto: estamos juntos. juntos e sentindo que nada poderia ser tão bom, tão acertado, tão necessário. e eu não esperava... de onde vem tanto amor, tanta alegria? como podem se casar tão bem dois corpos e duas vontades? de onde vem tudo isso? é absurdo, é incomensurável, é real. um ano de namoro, e queremos ainda mais...

... e eu, particularmente, quero sempre a emoção de viver do deslumbre e desta perfeita espiral


na curva do umbigo seu
um meu desejo
se escondeu.


hoje me descobro parco e tosco; sua resposta é certeira, me desarma


Película


Você entrou
Pediu licença
E agora é parte.
Usamos os mesmos óculos
e não digo que enxergamos
da mesma forma.
Suas lentes são mais limpas,
mais claras.
Mas você entrou,
e agora já não precisa pedir licença.
Meu coração é aberto.
Minha poesia tenta ser.
E as chaves lá de casa você já tem.
Você agora é parte
de coisas que eu não imaginava.
Como estar com sua blusa,
dividir os copos,
a escova de dentes
e um chuveiro feliz.
Como cantar juntos
músicas de amor
de vozes primorosas.
Desde a sua entrada,
minha vida é duas
e sua.
Dividimos os anjos,
as estrelas e as angústias.
Antes de deitarmos,
olhamos para o céu
da janela grande
e rezamos.
E você entra.
Faz parte.
E eu,
feliz como se entendesse a vida,
a poesia e o amor,
definitivamente
não quero mais licenças.

(poema do meu Lindus)


domingo, 6 de abril de 2003




E agora, um bolino especial para um ser de cuja pele se fazem as adargas; parece-se com vacas e muito mais com mulas, o rabo é de um dedo, não tem cornos, tem uma tromba de comprimento de um palmo que encolhe e estende. Nada e mergulha muito, mas em mergulhando logo toma fundo, e andando por ele sae em outra parte (segundo o padre Fernão Cardim, lá pelos 1600), a nossa querida


Jeanne Milde


Escultora e educadora, Jeanne Louise Milde nasceu em Bruxelas (Bélgica), em 1900. Em 1929, veio para o Brasil como membro da Missão Pedagógica Européia. Esta Missão, constituída por ilustres educadores europeus como a psicóloga Helena Antipoff, foi convidada pelo presidente de Minas Gerais, Antônio Carlos de Andrada, com o objetivo de impulsionar a Reforma do Ensino Primário e Normal do estado. Em Belo Horizonte, Milde lecionou na Escola de Aperfeiçoamento de professoras primárias, ensinando modelagem, pintura e história da arte na disciplina de Trabalhos Manuais. Parte das esculturas que ali criou foi destinada a ornamentar espaços públicos das cidades mineiras, como parques e praças. Produziu também obras para uso privado, como peças para cemitérios, jardins e residências. Entre suas obras mais conhecidas estão as “Adolecentes” (1937), esta modelagem em gesso que a artista desejava fundir em bronze. Nesta obra percebe-se a inserção de Milde em uma tradição escultórica que une aspectos acadêmicos e modernos. Milde foi a primeira artista atuante em Belo Horizonte a ter uma formação acadêmica, o que se evidencia na forma clássica que confere ao corpo humano. Por outro lado, sua escultura também foi influenciada por estilos artísticos de caráter moderno (a exemplo do simbolismo), o que resultou na sua busca de simplificação das formas e de uma liberdade expressiva. Note-se que, como os escultores simbolistas da Europa, Milde dá à base desta escultura um aspecto inacabado. Este recurso aumenta a expressividade da obra, além de significar uma subversão da estética acadêmica (que buscava a construção de esculturas com acabamento refinado). No conjunto de sua obra, esta modelagem é representante do interesse da artista em produzir temas e figuras femininos. A partir da renovação modernista dos anos 40, com a chegada em Belo Horizonte de Alberto da Veiga Guignard e a construção do complexo da Pampulha, Milde diminuiu sua participação na cultura mineira, pois passou a ser considerada tradicionalista devido à sua ligação com artistas acadêmicos. Ainda assim, a artista ficou conhecida por esculpir obras com temática feminina, e em suportes variados, como bronze, gesso e madeira. Faleceu em Belo Horizonte (MG), em 1997.


Canto de Oxum


Nhem-nhem-nhem
Nhem-nhem-nhem-xorodô
Nhem-nhem-nhem-xorodô
É o mar, é o mar
Fé-fé xorodô...


Xangô andava em guerra,
Vencia toda a terra,
Tinha ao seu lado Inhansã
Pra lhe ajudar.


Oxum era rainha,
Na mão direita tinha
O seu espelho onde vivia
A se mirar.


Quando Xangô voltou,
O povo celebrou.
Teve uma festa que
Ninguém mais esqueceu.


Tão linda Oxum entrou,
Que veio o rei Xangô
E a colocou no trono
Esquerdo ao lado seu.


Inhansã apaixonada
Cravou a sua espada
No lugar vago que era
O trono da traição.


Chamou um temporal
E no pavor geral
Correu dali gritando
A sua maldição.


(Toquinho/Vinícius)



Quando fico assim limitado
Sem poder fazer
Mas querer
Fico doido
Preso
Quero sair
Quero poder sair
E ser somente ser quem sou




Quando o crime acontece
como a chuva que cai



Como alguém que chega ao balcão com uma carta importante após o
horário de atendimento: o balcão está fechado. Como alguém que quer
prevenir a cidade contra uma inundação, mas fala uma outra língua: ele
não é compreendido. Como um mendigo que bate pela quinta vez numa
porta onde já recebeu algo quatro vezes: pela quinta vez tem fome.
Como alguém cujo sangue flui de uma ferida e que espera pelo médico:
seu sangue continua caindo.


Assim chegamos e relatamos que se cometem crimes contra nós.


Quando pela primeira vez foi relatado que nossos amigos estavam sendo
mortos, houve um grito de horror. Centenas foram mortos então. Mas
quando milhares foram mortos e a matança era sem fim, o silêncio tomou
conta de tudo.


Quando o crime acontece como a chuva que cai, ninguém mais grita
“alto!”.


Quando as maldades se multiplicam, tornam-se invisíveis.
Quando os sofrimentos se tornam insuportáveis, não se ouvem mais os
gritos.
Também os gritos caem como a chuva de verão.


(Bertolt Brecht)

segunda-feira, 10 de março de 2003



E feliz aniversário atrasado para a Carol, a Ana H. e para a Marcie!!!!!!
SOB O CHUVEIRO AMAR


Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo - é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?


(Carlos Drummond de Andrade - O amor natural)

vento frio


este vento,
de úmido e frio, me traz
a melancolia
a e ausência,
de outra vida
e de outro lugar

com este vazio,
me faço completo.





... estou apaixonado pela Julianne Moore...
Para a direita e para a esquerda, tufos de plantas, dourados e rubros, resplandeciam, ígneos, parecendo mesmo queimados pelo calor. Na margem oposta, os salgueiros choravam o lamento eterno, os cabelos a envolver-lhes os ombros. O rio refletia o que bem quisesse de céu e ponte e árvore flamejante, e, quando o universitário atravessou, remando, os reflexos, eles se extinguiram novamente, como se ele jamais tivesse existido. Qualquer um podia sentar-se ali horas a fio, imerso em pensamentos. O pensamento – para chamá-lo por nome mais imponente que o merecido – havia lançado sua linha na correnteza. Minuto após minuto, ela oscilou aqui e ali entre os reflexos e as ervas silvestres, ao sabor da água, que a erguia e a afundava, até (vocês conhecem bem aquele puxãozinho) sentir a súbita consolidação de uma idéia na ponta da linha: então, foi só puxá-la com cautela e expô-la cuidadosamente. Estendida na grama, quão insignificante pareceu esse meu pensamento, o tipo de peixe que o bom pescador devolve à água para que possa engordar e merecer, um dia, ser preparado e comido. (Virginia Woolf - Um teto todo seu)

Confesso o desprezível ciúme que me abraçou estes dias, apertando o peito ao ver o nome do meu mais secreto prazer na boca de todos. Virginia Woolf. Mais desprezível me sinto quando percebo que a culpa desse renascimento da minha autora predileta se deve ao mais belo filme que assisti recentemente: As Horas. Se este filme foi capaz de nos trazer novamente a vontade de ler Virginia Woolf isto se deve, acredito, menos por haver sido construído a partir de referências à vida e obra desta escritora, que por uma característica que os une. O filme, como a escrita de Virginia Woolf, envolve-nos como o som que vem de uma bem conduzida orquestra. Uma melodia que nos capta o pensamento, que nos retira do transcorrer do tempo que é comum a todos e nos lança em seu próprio tempo, em seu próprio andamento, para nos conduzir através de uma seqüência imagens que cria. Imagens habituais e cotidianas mas que, não esperávamos!, são pegas em flagrantes de íntima beleza. No filme, tudo é consonância - fotografia, texto, atuações e trilha. Mais que grandes nomes, temos ali unidade e equilíbrio; ou seja, beleza. Uma beleza à altura da obra de Virgínia Woolf. Uma beleza que nos pega pela mão, e nos conduz suavemente por onde ela deseja que passemos. Uma beleza de suavidade e tensão que faz dos minutos, que faria das horas, um instante apenas de total contemplação.

E assim é a obra de Virginia Woolf. O tempo que narra não é o tempo do mundo, nem mesmo o da história. É o tempo que transcorre no interior que cada um de seus personagens; tempos íntimos e pessoais que, às vezes, se interceptam ou se chocam. Os acontecimentos que dão andamento ao que se conta não são palpáveis ou visíveis ao observador comum. São as pequenas transformações que cada um sofre com o passar do tempo. Não do tempo que nos marca a carne e nos deteriora exteriormente. Mas aquele que altera pouco a pouco os ânimos e paixões dos personagens, mudando-os em consonância ou dissonância com a forma como são vistos, de fora, pelos outros; com as posições e os códigos de um mundo que, em vão, tenta controlá-los. Resulta disto um tipo inusitado de narração, que é antes uma grande cadeia de descrições. Para contar uma estória, Woolf apresenta-nos uma bolha de sabão. Na superfície da bolha, nos faz ver um reflexo, uma imagem de uma pequena parcela do mundo que logo se explode dando lugar a outra bolha, e outra imagem. E desta, faz brotar outra, e mais outra, numa infinita e encantadora sucessão.





Agora, porém, era verão. Os pássaros haviam-na despertado. Como cantavam! – atacando a madrugada assim como uma porção de meninos-cantores atacam uma trota gelada. Obrigada a escutar, estendera a mão para sua leitura favorita – um compêndio de História – e gastara as horas, entre as três e as cinco, pensando nos bosques de rododendros em Picadilly, quando o continente inteiro, conforme ela entendia, ainda não dividido por um canal, era um só, habitado por monstros com corpo de elefante, pescoço de foca, erguendo-se lentamente e, supunha ela, latindo; o iguanodonte, o mamute e o mastodonte, dos quais, presumivelmente, descendemos, refletia, abrindo bruscamente a janela.

Levou cinco segundos no tempo real, mas muito mais no tempo imaginário, para distinguir Grace, que chegava com a louça azul sobre uma bandeja, do monstro grunhidor coberto de couro, que, quando a porta se abriu, se achava na iminência de derrubar uma árvore na penumbra verde, cheia de vapor. Naturalmente, sobressaltou-se quando Grace depôs a bandeja e disse: - Bom dia, madame. – E pensou: “Ela é doida”, ao sentir pousar em seu rosto aquele olhar vago, dirigido em parte à fera no charco, em parte à criada de vestido estampado e avental branco.
(Virginia Woolf - Entre os Atos)

quinta-feira, 6 de março de 2003

À luz clara da manhã, postava-se diante do espelho e via-se. Via a si mesmo e à nudez de seu corpo, inerte por dentre as vestes, como quem via um ponto negro no papel. Diante do espelho, era outro. Era apenas a imagem-miragem de um ser, corpóreo e visível. Mas não sentia o corpo. Por alguns instantes a materialidade de sua vida parecia se dissolver no desejo de ser ninguém. Ou concentrar-se no centro mudo de sua ausência de dor e entusiasmo, no seu ponto negro. Não tinha vontade além da vontade de não ser, de não ter, e, principalmente, de não haver sido. Tanto tempo empregado em vão. Tudo passado. E nada podia ressuscitar-lhe do momento morto do agora. Da sensação de haver falhado. E da obrigação de seguir em frente, mesmo sem vontade, em um caminho que não era o seu. Havia se perdido em algum ponto, em algum momento, como ali sentia perderem-se as formas de seu corpo na luz que explodia do espelho. Estava mudo, sem ter o que contar. Não queria mais ser.