O Abraço - Alfredo Ceschiatti
quinta-feira, 17 de abril de 2003
durante um ano, inteiro, comemoramos o espanto: estamos juntos. juntos e sentindo que nada poderia ser tão bom, tão acertado, tão necessário. e eu não esperava... de onde vem tanto amor, tanta alegria? como podem se casar tão bem dois corpos e duas vontades? de onde vem tudo isso? é absurdo, é incomensurável, é real. um ano de namoro, e queremos ainda mais...
... e eu, particularmente, quero sempre a emoção de viver do deslumbre e desta perfeita espiral
na curva do umbigo seu
um meu desejo
se escondeu.
hoje me descobro parco e tosco; sua resposta é certeira, me desarma
Película
Você entrou
Pediu licença
E agora é parte.
Usamos os mesmos óculos
e não digo que enxergamos
da mesma forma.
Suas lentes são mais limpas,
mais claras.
Mas você entrou,
e agora já não precisa pedir licença.
Meu coração é aberto.
Minha poesia tenta ser.
E as chaves lá de casa você já tem.
Você agora é parte
de coisas que eu não imaginava.
Como estar com sua blusa,
dividir os copos,
a escova de dentes
e um chuveiro feliz.
Como cantar juntos
músicas de amor
de vozes primorosas.
Desde a sua entrada,
minha vida é duas
e sua.
Dividimos os anjos,
as estrelas e as angústias.
Antes de deitarmos,
olhamos para o céu
da janela grande
e rezamos.
E você entra.
Faz parte.
E eu,
feliz como se entendesse a vida,
a poesia e o amor,
definitivamente
não quero mais licenças.
(poema do meu Lindus)
domingo, 6 de abril de 2003
E agora, um bolino especial para um ser de cuja pele se fazem as adargas; parece-se com vacas e muito mais com mulas, o rabo é de um dedo, não tem cornos, tem uma tromba de comprimento de um palmo que encolhe e estende. Nada e mergulha muito, mas em mergulhando logo toma fundo, e andando por ele sae em outra parte (segundo o padre Fernão Cardim, lá pelos 1600), a nossa querida
Escultora e educadora, Jeanne Louise Milde nasceu em Bruxelas (Bélgica), em 1900. Em 1929, veio para o Brasil como membro da Missão Pedagógica Européia. Esta Missão, constituída por ilustres educadores europeus como
Canto de Oxum
Nhem-nhem-nhem
Nhem-nhem-nhem-xorodô
Nhem-nhem-nhem-xorodô
É o mar, é o mar
Fé-fé xorodô...
Xangô andava em guerra,
Vencia toda a terra,
Tinha ao seu lado Inhansã
Pra lhe ajudar.
Oxum era rainha,
Na mão direita tinha
O seu espelho onde vivia
A se mirar.
Quando Xangô voltou,
O povo celebrou.
Teve uma festa que
Ninguém mais esqueceu.
Tão linda Oxum entrou,
Que veio o rei Xangô
E a colocou no trono
Esquerdo ao lado seu.
Inhansã apaixonada
Cravou a sua espada
No lugar vago que era
O trono da traição.
Chamou um temporal
E no pavor geral
Correu dali gritando
A sua maldição.
(Toquinho/Vinícius)
Quando o crime acontece
como a chuva que cai
Como alguém que chega ao balcão com uma carta importante após o
horário de atendimento: o balcão está fechado. Como alguém que quer
prevenir a cidade contra uma inundação, mas fala uma outra língua: ele
não é compreendido. Como um mendigo que bate pela quinta vez numa
porta onde já recebeu algo quatro vezes: pela quinta vez tem fome.
Como alguém cujo sangue flui de uma ferida e que espera pelo médico:
seu sangue continua caindo.
Assim chegamos e relatamos que se cometem crimes contra nós.
Quando pela primeira vez foi relatado que nossos amigos estavam sendo
mortos, houve um grito de horror. Centenas foram mortos então. Mas
quando milhares foram mortos e a matança era sem fim, o silêncio tomou
conta de tudo.
Quando o crime acontece como a chuva que cai, ninguém mais grita
“alto!”.
Quando as maldades se multiplicam, tornam-se invisíveis.
Quando os sofrimentos se tornam insuportáveis, não se ouvem mais os
gritos.
Também os gritos caem como a chuva de verão.
(Bertolt Brecht)
segunda-feira, 10 de março de 2003
Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo - é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?
(Carlos Drummond de Andrade - O amor natural)
Confesso o desprezível ciúme que me abraçou estes dias, apertando o peito ao ver o nome do meu mais secreto prazer na boca de todos. Virginia Woolf. Mais desprezível me sinto quando percebo que a culpa desse renascimento da minha autora predileta se deve ao mais belo filme que assisti recentemente: As Horas. Se este filme foi capaz de nos trazer
E assim é a obra de Virginia Woolf. O tempo que narra não é o tempo do mundo, nem mesmo o da história. É o tempo que transcorre no interior que cada um de seus personagens; tempos íntimos e pessoais que, às vezes, se interceptam ou se chocam. Os acontecimentos que dão andamento ao que se conta não são palpáveis ou visíveis ao observador comum. São as pequenas transformações que cada um sofre com o passar do tempo. Não do tempo que nos marca a carne e nos deteriora exteriormente. Mas aquele que altera pouco a pouco os ânimos e paixões dos personagens, mudando-os em consonância ou dissonância com a forma como são vistos, de fora, pelos outros; com as posições e os códigos de um mundo que, em vão, tenta controlá-los. Resulta disto um tipo inusitado de narração, que é antes uma grande cadeia de descrições. Para contar uma estória, Woolf apresenta-nos uma bolha de sabão. Na superfície da bolha, nos faz ver um reflexo, uma imagem de uma pequena parcela do mundo que logo se explode dando lugar a outra bolha, e outra imagem. E desta, faz brotar outra, e mais outra, numa infinita e encantadora sucessão.
Agora, porém, era verão. Os pássaros haviam-na despertado. Como cantavam! – atacando a madrugada assim como uma porção de meninos-cantores atacam uma trota gelada. Obrigada a escutar, estendera a mão para sua leitura favorita – um compêndio de História – e gastara as horas, entre as três e as cinco, pensando nos bosques de rododendros em Picadilly, quando o continente inteiro, conforme ela entendia, ainda não dividido por um canal, era um só, habitado por monstros com corpo de elefante, pescoço de foca, erguendo-se lentamente e, supunha ela, latindo; o iguanodonte, o mamute e o mastodonte, dos quais, presumivelmente, descendemos, refletia, abrindo bruscamente a janela.
Levou cinco segundos no tempo real, mas muito mais no tempo imaginário, para distinguir Grace, que chegava com a louça azul sobre uma bandeja, do monstro grunhidor coberto de couro, que, quando a porta se abriu, se achava na iminência de derrubar uma árvore na penumbra verde, cheia de vapor. Naturalmente, sobressaltou-se quando Grace depôs a bandeja e disse: - Bom dia, madame. – E pensou: “Ela é doida”, ao sentir pousar em seu rosto aquele olhar vago, dirigido em parte à fera no charco, em parte à criada de vestido estampado e avental branco.(Virginia Woolf - Entre os Atos)
quinta-feira, 6 de março de 2003
sábado, 1 de março de 2003
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2003
G.H., isso vai em cheio no meu espanto...
De uma vez por todas
1º eu tenho o ar terrivelmente preocupado de demonstrar que eu não penso e que me dou conta disto, que tenho o cérebro fraco, mas eu penso que todos os homens têm primeiro o cérebro fraco - e em seguida que mais vale ser fraco, que mais vale estar em um estado de abdicação perpétua em face do espírito da gente. É um melhor estado para o homem, é um estado mais normal, mais adaptado a nosso sinistro estado de homens, a esta sinistra pretensão dos homens de querer.
Eu tenho a imaginação estupefata.
(Antonin Artaud, Linguagem e vida)
Vou escrever aberto
Sem papas na linguagem
Sem receios esferográficos
e gana de reconhecimento
Vou ver se sento
Olho pro vento
E enxergo o mosquito
adestrado
Que voou daqui pra aí
Para dizer:
Fica comigo
Sonhe com os anjos, pois daqui, mesmo de longe, te amo muito. E, em pensamento, visito seus sonhos para abraçar-lhe o coração.
Beijos.
domingo, 23 de fevereiro de 2003
.............................. e aquele homem lhe fugia, impossível, para o corpo de uma mulher.
