segunda-feira, 10 de março de 2003



E feliz aniversário atrasado para a Carol, a Ana H. e para a Marcie!!!!!!
SOB O CHUVEIRO AMAR


Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo - é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?


(Carlos Drummond de Andrade - O amor natural)

vento frio


este vento,
de úmido e frio, me traz
a melancolia
a e ausência,
de outra vida
e de outro lugar

com este vazio,
me faço completo.





... estou apaixonado pela Julianne Moore...
Para a direita e para a esquerda, tufos de plantas, dourados e rubros, resplandeciam, ígneos, parecendo mesmo queimados pelo calor. Na margem oposta, os salgueiros choravam o lamento eterno, os cabelos a envolver-lhes os ombros. O rio refletia o que bem quisesse de céu e ponte e árvore flamejante, e, quando o universitário atravessou, remando, os reflexos, eles se extinguiram novamente, como se ele jamais tivesse existido. Qualquer um podia sentar-se ali horas a fio, imerso em pensamentos. O pensamento – para chamá-lo por nome mais imponente que o merecido – havia lançado sua linha na correnteza. Minuto após minuto, ela oscilou aqui e ali entre os reflexos e as ervas silvestres, ao sabor da água, que a erguia e a afundava, até (vocês conhecem bem aquele puxãozinho) sentir a súbita consolidação de uma idéia na ponta da linha: então, foi só puxá-la com cautela e expô-la cuidadosamente. Estendida na grama, quão insignificante pareceu esse meu pensamento, o tipo de peixe que o bom pescador devolve à água para que possa engordar e merecer, um dia, ser preparado e comido. (Virginia Woolf - Um teto todo seu)

Confesso o desprezível ciúme que me abraçou estes dias, apertando o peito ao ver o nome do meu mais secreto prazer na boca de todos. Virginia Woolf. Mais desprezível me sinto quando percebo que a culpa desse renascimento da minha autora predileta se deve ao mais belo filme que assisti recentemente: As Horas. Se este filme foi capaz de nos trazer novamente a vontade de ler Virginia Woolf isto se deve, acredito, menos por haver sido construído a partir de referências à vida e obra desta escritora, que por uma característica que os une. O filme, como a escrita de Virginia Woolf, envolve-nos como o som que vem de uma bem conduzida orquestra. Uma melodia que nos capta o pensamento, que nos retira do transcorrer do tempo que é comum a todos e nos lança em seu próprio tempo, em seu próprio andamento, para nos conduzir através de uma seqüência imagens que cria. Imagens habituais e cotidianas mas que, não esperávamos!, são pegas em flagrantes de íntima beleza. No filme, tudo é consonância - fotografia, texto, atuações e trilha. Mais que grandes nomes, temos ali unidade e equilíbrio; ou seja, beleza. Uma beleza à altura da obra de Virgínia Woolf. Uma beleza que nos pega pela mão, e nos conduz suavemente por onde ela deseja que passemos. Uma beleza de suavidade e tensão que faz dos minutos, que faria das horas, um instante apenas de total contemplação.

E assim é a obra de Virginia Woolf. O tempo que narra não é o tempo do mundo, nem mesmo o da história. É o tempo que transcorre no interior que cada um de seus personagens; tempos íntimos e pessoais que, às vezes, se interceptam ou se chocam. Os acontecimentos que dão andamento ao que se conta não são palpáveis ou visíveis ao observador comum. São as pequenas transformações que cada um sofre com o passar do tempo. Não do tempo que nos marca a carne e nos deteriora exteriormente. Mas aquele que altera pouco a pouco os ânimos e paixões dos personagens, mudando-os em consonância ou dissonância com a forma como são vistos, de fora, pelos outros; com as posições e os códigos de um mundo que, em vão, tenta controlá-los. Resulta disto um tipo inusitado de narração, que é antes uma grande cadeia de descrições. Para contar uma estória, Woolf apresenta-nos uma bolha de sabão. Na superfície da bolha, nos faz ver um reflexo, uma imagem de uma pequena parcela do mundo que logo se explode dando lugar a outra bolha, e outra imagem. E desta, faz brotar outra, e mais outra, numa infinita e encantadora sucessão.





Agora, porém, era verão. Os pássaros haviam-na despertado. Como cantavam! – atacando a madrugada assim como uma porção de meninos-cantores atacam uma trota gelada. Obrigada a escutar, estendera a mão para sua leitura favorita – um compêndio de História – e gastara as horas, entre as três e as cinco, pensando nos bosques de rododendros em Picadilly, quando o continente inteiro, conforme ela entendia, ainda não dividido por um canal, era um só, habitado por monstros com corpo de elefante, pescoço de foca, erguendo-se lentamente e, supunha ela, latindo; o iguanodonte, o mamute e o mastodonte, dos quais, presumivelmente, descendemos, refletia, abrindo bruscamente a janela.

Levou cinco segundos no tempo real, mas muito mais no tempo imaginário, para distinguir Grace, que chegava com a louça azul sobre uma bandeja, do monstro grunhidor coberto de couro, que, quando a porta se abriu, se achava na iminência de derrubar uma árvore na penumbra verde, cheia de vapor. Naturalmente, sobressaltou-se quando Grace depôs a bandeja e disse: - Bom dia, madame. – E pensou: “Ela é doida”, ao sentir pousar em seu rosto aquele olhar vago, dirigido em parte à fera no charco, em parte à criada de vestido estampado e avental branco.
(Virginia Woolf - Entre os Atos)

quinta-feira, 6 de março de 2003

À luz clara da manhã, postava-se diante do espelho e via-se. Via a si mesmo e à nudez de seu corpo, inerte por dentre as vestes, como quem via um ponto negro no papel. Diante do espelho, era outro. Era apenas a imagem-miragem de um ser, corpóreo e visível. Mas não sentia o corpo. Por alguns instantes a materialidade de sua vida parecia se dissolver no desejo de ser ninguém. Ou concentrar-se no centro mudo de sua ausência de dor e entusiasmo, no seu ponto negro. Não tinha vontade além da vontade de não ser, de não ter, e, principalmente, de não haver sido. Tanto tempo empregado em vão. Tudo passado. E nada podia ressuscitar-lhe do momento morto do agora. Da sensação de haver falhado. E da obrigação de seguir em frente, mesmo sem vontade, em um caminho que não era o seu. Havia se perdido em algum ponto, em algum momento, como ali sentia perderem-se as formas de seu corpo na luz que explodia do espelho. Estava mudo, sem ter o que contar. Não queria mais ser.

sábado, 1 de março de 2003

Ziriguidum.... o coração ainda bate
apertado
Tenho o dom de combinar fragmentos de qualquer coisa para formar outras, que por sua vez formam outras e outras. Nesse trabalho gasto o tempo com gosto.

(Adélia Prado - Os componentes da banda)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2003

Dia do Plágio

G.H., isso vai em cheio no meu espanto...

De uma vez por todas
1º eu tenho o ar terrivelmente preocupado de demonstrar que eu não penso e que me dou conta disto, que tenho o cérebro fraco, mas eu penso que todos os homens têm primeiro o cérebro fraco - e em seguida que mais vale ser fraco, que mais vale estar em um estado de abdicação perpétua em face do espírito da gente. É um melhor estado para o homem, é um estado mais normal, mais adaptado a nosso sinistro estado de homens, a esta sinistra pretensão dos homens de querer.
Eu tenho a imaginação estupefata.



(Antonin Artaud, Linguagem e vida)
Lindus, só me cabe copiá-lo:

Vou escrever aberto
Sem papas na linguagem
Sem receios esferográficos
e gana de reconhecimento

Vou ver se sento
Olho pro vento
E enxergo o mosquito
adestrado
Que voou daqui pra aí
Para dizer:


Fica comigo


Sonhe com os anjos, pois daqui, mesmo de longe, te amo muito. E, em pensamento, visito seus sonhos para abraçar-lhe o coração.
Beijos.

domingo, 23 de fevereiro de 2003

Lentamente volto. Com muita falta de todos, muita vontade de viver de novo, mas muito ainda que fazer.
queria ser outro ...... outro corpo ...... outra.força ...... outra.beleza ...... queira.ser.melhor ...... melhor.dizendo,.irresistível ...... queria.seduzir ....... queria.em.si.aquela.beleza ...... aquele.sorriso.que.aquece ...... queria.aquele.corpo ...... queria melhor dito é todo aquele corpo ...... queria.aquilo ...... menos em si, que para si ...... queria.conquistar, ...... arrebatar.a.perfeição ...... daquele.corpo ...... daquela.voz ...... daqueles.olhos ...... que.deslocam.a.alma ...... que trituram o corpo ...... que.dele.escarnecem. ...... queria ter ...... e era impossível. ...... impossível mesmo era não ter ...... mas não tinha. ...... então lhe doía ...... aguda solidão ...... e fria impotência. ...... era.pequeno ...... errado ...... torto ...... desviante. ...... não.tinha.aquela.perfeição ...... aquele.corpo ...... aquele.sorriso ...... aquele.momento ...... aquele.ar. ...... não.era.perfeito ...... não.era.capaz ...... não.era.visto ...... não.era.querido. ...... impossível.era ...... de.ser.amado ...... de.ter ...... aquele.braço ...... aquele.abraço ...... aquele.sorriso. ...... não.podia.viver.assim ...... não.se.ama.assim ...... não.há.amor.assim ...... tanta.escuridão.assim ...... tanta dor assim ...... tanta impossibilidade assim ...... não.há.perfeição.

.............................. e aquele homem lhe fugia, impossível, para o corpo de uma mulher.

sábado, 4 de janeiro de 2003



Parabéns para a Ciba, a Tantri e para a Mel também!!

Sejam felizes!

domingo, 29 de dezembro de 2002

Artes Liberais


não sou prático,
canudo tenho.
acadêmico,
meu bisturi
exato não mostra
o pulso do
vivo
coração.



Já que o assunto me cerca, e inútil é tentar fugir, vamos direto a ele... É fim de ano. Época de saldos e balanços. Até aí, tudo bem. Pois, e o ditado como é? Festa acabada músicos a pé.


Feliz Natal e

que em 2003 o sucesso te acompanhe

em todas

as seleções, pesquisas, qualificações, dissertações, teses, bancas, defesas,

e em todos

os trabalhos, papers, contatos, congressos, seminários, etc.


Este foi uma muito simpático e sarcástico e-mail que recebi. Neurei. Será que a vida vai acabar em mestrado. Pizza seria melhor. Monstrei. O pior é o sentimento de que todo este trabalho talvez seja vão. Alguém pode fazê-lo melhor. Ou não fazê-lo. Afinal, a quem isso interessa? A mim. E isto só já basta como justificativa... mas eu quero mais. Quero (e me esforço para) que outros também se interessem. Há quem tenha gostado do meu trabalho. Ou de fragmentos dele. E isto me ajuda prosseguir. Que tudo dê certo, e a dissertação seja um tesão. Quanto ao monstrado, fica o protesto - sob a forma do texto abaixo, que a Miriam me mandou. As coisas não precisam ser assim... vivas à dissertação-tesão, e à minha próxima libertação!


UMA TESE É UMA TESE


Sabe tese, de faculdade? Aquela que defendem? Com unhas e dentes? É dessa tese que eu estou falando. Você deve conhecer pelo menos uma pessoa que já defendeu uma tese. Ou esteja defendendo. Sim, uma tese é defendida. Ela é feita para ser atacada pela banca, que são aquelas pessoas que gostam de botar banca.
As teses são todas maravilhosas. Em tese. Você acompanha uma pessoa meses, anos, séculos, defendendo uma tese. Palpitantes assuntos. Tem tese que não acaba nunca, que acompanha o elemento para a velhice. Tem até teses pós-morte. O mais interessante na tese é que, quando nos contam, são maravilhosas, intrigantes. A gente fica curiosa, acompanha o sofrimento do autor, anos a fio. Aí ele publica, te dá uma cópia e é sempre – sempre – uma decepção.
Em tese. Impossível ler uma tese de cabo a rabo. São chatíssimas. É uma pena que as teses sejam escritas apenas para o julgamento da banca circunspecta, sisuda e compenetrada em si mesma. E nós? Sim, porque os assuntos, já disse, são maravilhosos, cativantes, as pessoas são inteligentíssimas. Temas do arco-da-velha. Mas toda tese fica no rodapé da história. Pra que tanto sic e tanto apud? Sic me lembra o Pasquim e apud não parece candidato do PFL para vereador? Apud Neto. Escrever uma tese é quase um voto de pobreza que a pessoa se autodecreta. O mundo pára, o dinheiro entra apertado, os filhos são abandonados, o marido que se vire. Estou acabando a tese. Essa frase significa que a pessoa vai sair do mundo. Não por alguns dias, mas anos. Tem gente que nunca mais volta.
E, depois de terminada a tese, tem a revisão da tese, depois tem a defesa da tese. E, depois da defesa, tem a publicação. E, é claro, intelectual que se preze, logo em seguida embarca noutra tese. São os profissionais, em tese. O pior é quando convidam a gente para assistir à defesa. Meu Deus, que sono.
Não em tese, na prática mesmo. Orientados e orientandos (que nomes atuais!) são unânimes em afirmar que toda tese tem de ser - tem de ser! - daquele jeito. É pra não entender, mesmo. Tem de ser formatada assim. Que na Sorbonne é assim, que em Coimbra também. Na Sorbonne, desde 1257. Em Coimbra, mais moderna, desde 1290.
Em tese (e na prática) são 700 anos de muita tese e pouca prática. Acho que, nas teses, tinha de ter uma norma em que, além da tese, o elemento teria de fazer também uma tesão (tese grande). Ou seja, uma versão para nós, pobres teóricos ignorantes que não votamos no Apud Neto. Ou seja, o elemento (ou a elementa) passa a vida a estudar um assunto que nos interessa e nada. Pra quê? Pra virar mestre, doutor? E daí? Se ele estudou tanto aquilo, acho impossível que ele não queira que a gente saiba a que conclusões chegou. Mas jamais saberemos onde fica o bicho da goiaba quando não é tempo de goiaba. No bolso do Apud Neto? Tem gente que vai para os Estados Unidos, para a Europa, para terminar a tese. Vão lá nas fontes. Descobrem maravilhas. E a gente não fica sabendo de nada. Só aqueles sisudos da banca. E o cara dá logo um dez com louvor.
Louvor para quem? Que exaltação, que encômio é isso? E tem mais: as bolsas para os que defendem as teses são uma pobreza. Tem viagens, compra de livros caros, horas na Internet da vida, separações, pensão para os filhos que a mulher levou embora. É, defender uma tese é mesmo um voto de pobreza, já diria São Francisco de Assis. Em tese.
Tenho um casal de amigos que há uns dez anos prepara suas teses. Cada um, uma. Dia desses a filha, de 10 anos, no café da manhã, ameaçou: – Não vou mais estudar! Não vou mais na escola. Os dois pararam – momentaneamente – de pensar nas teses. – O quê? Pirou?
– Quero estudar mais, não. Olha vocês dois. Não fazem mais nada na vida. É só a tese, a tese, a tese. Não pode comprar bicicleta por causa da tese. A gente não pode ir para a praia por causa da tese. Tudo é pra quando acabar a tese. Até trocar o pano do sofá. Se eu estudar vou acabar numa tese. Quero estudar mais, não. Não me deixam nem mexer mais no computador. Vocês acham mesmo que eu vou deletar a tese de vocês? Pensando bem, até que não é uma má idéia!
Quando é que alguém vai ter a prática idéia de escrever uma tese sobre a tese? Ou uma outra sobre a vida nos rodapés da história? Acho que seria um tesão.

(Mario Prata - crônica publicada no jornal O Estado de São Paulo, 7 de outubro de 1998)


No mais, estou



Exausto

Eu quero uma licença de dormir,
perdão para descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

(Adélia Prado - Bagagem)


Muito antes de Sérgio Buarque,
muito além da Holanda...

Até mais!

Não sei porque... mas essa canção me lembra o Schroeder.

O que você achar Marcie?


A MULHER BARBADA


Com o que será que sonha
A mulher barbada?
Será que no sonho ela salta
Como a trapezista?
Será que sonhando se arrisca
Como o domador?
Vai ver ela só tira a máscara
Como o palhaço

O que será que tem
O que será que hein?
O que será que tem a perder
A mulher barbada?

(Adriana Calcanhotto - interpretada com Los Hermanos)



Schroeder
recebendo aplausos

Se não levado à sério, este psicossodomita até que tem uma tiradas legais.
Juro que tive a idéia antes!



Mas eles têm o crédito de executar primeiro, e melhor:

DANCEMOS
UM TANGO FELIZ

O que deu em mim??

Deixemos espírito de Papai Noel entrar em nós,

e mudemos de assunto:

Meus amigos

e demais desconhecidos



Feliz Natal e um Ótimo 2003!!


(voz em off) - Melhorou?


ELEGIA 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, e concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar a tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.


(Carlos Drummond de Andrade - Sentimento do mundo)