MOTO CONTÍNUO
(Edu Lobo - Chico Buarque)
Um homem pode ir ao fundo do fundo do fundo se for por você
Um homem pode tapar os buracos do mundo se for por você
Pode inventar qualquer mundo, como um vagabundo se for por você
Basta sonhar com você
Juntar o suco dos sonhos e encher um açude se for por você
A fonte da juventude correndo nas bicas se for por você
Bocas passando saúde com beijos nas bocas se for por você
Homem também pode amar e abraçar e afagar seu ofício porque
Vai habitar o edifício que faz pra você
E no aconchego da pele na pele, da carne na carne, entender
Que homem foi feito direito, do jeito que é feito o prazer
Homem constrói sete usinas usando a energia que vem de você
Homem conduz a alegria que sai das turbinas de volta a você
E cria o moto-contínuo da noite pro dia se for por você
E quando um homem já está de partida, da curva da vida ele vê
Que o seu caminho não foi um caminho sozinho porque
Sabe que um homem vai fundo e vai fundo e vai fundo se for por você
sexta-feira, 26 de agosto de 2005
meu rosto é essa máscara que ponho para te afligir, para te encantar, para te afastar, para te atrair, para te esquecer. muitas vezes esses sucessos são involuntários, tão involuntários quanto o sentimento que os movem. e me pego dizendo o que não queria expressar, mesmo sem abrir a boca. então, atenha-se ao olhar, ele diz o que os músculos enganam. ao menos, essa é minha verdade.
- Mas nós que vivemos no corpo vemos com a imaginação do corpo as coisas desenhadas a traço. Vejo rochas ao sol claro. Não posso levar esses fatos para dentro de alguma caverna e, tapando os olhos, fundir seus amarelos, azuis e cor de ferrugem em uma só substância. Não posso ficar muito tempo sentada. Preciso levantar-me de um salto e partir... Solto todos esses fatos - diamantes, mãos mirradas, potes de porcelana e o resto - como um macaco solta nozes de suas mãos peladas. Não posso dizer-lhes se a vida é isso ou aquilo. Vou sair para a multidão heterogênea. Serei golpeada; erguida e baixada entre os homens, como um navio no mar.
(As Ondas - Virgina Woolf)
terça-feira, 23 de agosto de 2005

Gordon Warnecke & Daniel Day-Lewis
Ando homem de poucas palavras, ou quase nenhuma. Mas, não poderia deixar de dizer algo sobre esse filme, que de tão simples, é bonito e poderoso. Foi com ele que descobri que amor se pode encontrar em qualquer lugar. E que há sempre alguém a quem se dedicar. Pois é, fica o dito e o redito por não dito...
domingo, 21 de agosto de 2005
IV
Adormece o teu corpo com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo Desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?
IX
Os teus ouvidos estão enganados.
E os teus olhos.
E as tuas mãos.
E a tua boca anda mentindo
Enganada pelos teus sentidos.
Faze silêncio no teu corpo.
E escuta-te.
Há uma verdade silenciosa dentro de ti.
A verdade sem palavras.
Que procuras inutilmente,
Há tanto tempo,
Pelo teu corpo, que enlouqueceu.
(Cânticos - Cecília Meireles)
segunda-feira, 15 de agosto de 2005
ENTRE INFERNO E CÉU
O Belo e o Bem na iconografia européia sobre a América (sécs. XVI-XVII).
Lo que aquí vi fue que vimos una infinitíssima cosa de pájaros de diversas formas y colores, y tantos diversos papagayos, y de tan diversas suertes, que era maravilla: algunos colorados como grana, otros verdes y colorados y limonados, y otros todos verdes, y otros negros y encarnados; y el canto de los otros pájaros que estaban en los árboles, era cosa tan suave y de tanta melodía que nos ocorrió muchas veces quedarnos parados por su dulzura. Los árboles son de tanta belleza y de tanta suavidad que pensábamos estar en el Paraíso Terrenal, y ninguno de aquellos árboles ni sus frutas se parecían a los nuestros de estas partes. Por el río vimos muchas especies de pescados y de diversos aspectos. (Américo Vespúcio)
Condenados a se sentir estrangeiros no mundo físico até a redenção, os cristãos sempre foram marcados por uma melancolia causada pela queda de Adão e Eva do Paraíso, pela perda do espaço ao lado de seu criador, e por um igual desejo do retorno. Entre o inferno e o céu, a teologia cristã encarregou-se de consubstanciar, no mundo físico, uma manifestação deste objeto de desejo cristão, o Paraíso Terrestre. Localizado em um espaço inacessível e proibido ao homem devido a limitações de origem divina e por barreiras naturais – o Paraíso esteve ladeado por muros flamejantes, isolado em desertos ou situados em altas montanhas de ventos fustigantes–, a busca do sítio paradisíaco foi tópico constante dos escritos teológicos, da cartografia e das narrativas de viagem medievais, e de seus correlatos modernos. Desconhecida, a paragem do Paraíso na terra constituiu um fenômeno migratório; um mito geográfico. As pistas que davam as coordenadas do local sagrado, acreditava-se, haviam sido indicadas por Deus nas escrituras. E a partir da leitura destas pistas, os cristãos fizeram o Paraíso existir próximo à Índia cristã, no Ceilão, no extremo Oriente ou ao norte do mundo, para, mais tarde, situá-lo na América do Sul.
Mito geográfico, nos mapas, nas gravuras e pinturas o paraíso foi representado de diversas formas, em distintas localidades. Até o fim da Idade Média, a via preferencial de sua exposição imagética foi, sem dúvida, a figuração do casal primevo, Adão e Eva. O casal era representado, às vezes, de forma descritiva: um homem e uma mulher nus, situados em torno da Árvore do Conhecimento e próximos à serpente. Em outras, "assumiam la secuencia temporal-narrativa típica del gótico tardio, [y] se mostraba la tentación y la expulsión". Contudo, com o aproximar-se da modernidade, a representação do Paraíso planteou novos rumos: a tradição iconográfica começava a se deslocar da visão do casal que o habitou para o ambiente entorno. Transformando-se, a iconografia do Paraíso gerou a imagem que hoje predomina em nossas mentes, o Jardim do Éden. No painel esquerdo do tríptico Jardim das Delícias de Bosch, por exemplo, temos uma das primeiras imagens desta revolução da representação, que podemos considerar uma liberação da paisagem . Nela, o paraíso é, pictoricamente, um arborizado jardim, repleto de pássaros e animais exóticos, como a girafa e o elefante, animais míticos, como os unicórnios, e animais monstruosos, que se dispõem em torno da Fonte da Vida. Um espaço natural, ou melhor, paisagístico, onde a história do pecado original se desenrola. Um ambiente carregado de elementos exóticos que marcam seu caráter extra-europeu, provocando estranhamento. Ao mesmo tempo, uma imagem do espaço original de todas as espécies.
O movimento de transformação da iconografia do Paraíso parece estar intimamente ligado, como se apreende nos textos de Vespúcio, à aventura européia na América. A nova iconografia encontrou um forte paralelo entre as idéias correntes acerca do espaço original e as palavras dos primeiros homens a correr o Novo Mundo com o olhar: a exuberância da natureza americana, com matas tão densas que os pássaros somente podiam penetrá-las sozinhos, não em bando; as árvores que sempre verdes, em eterna primavera, que nunca perdiam as folhas e recendiam perfumes; os peixes magníficos e a fauna que era toda distinta da européia; os pássaros belíssimos e de todas as cores; enchiam os olhos dos aventureiros europeus, recheando-os de maravilhas e estupor. A primeira caracterização edênica deste continente foi feita no relato de Colombo, que acreditou encontrar-se perto do Éden, conforme indicavam os sinais que lera na exuberante natureza. Não por acaso, o deslumbramento dos viajantes com a abundância da natureza americana coincidiu, temporal e imaginariamente, com a mudança na postura do europeu frente ao sítio sagrado.
A natureza edenizada da América facilitaria ao olhar europeu o deslocamento do sítio paradisíaco para a América. A diversidade e exuberância da fauna e flora marcariam seus traços distintivos e estrangeiros com relação à Europa, necessários para o reconhecimento da terra dos pais primeiros: espécimes animais tanto da América, quanto das exóticas África e Ásia, compunham os quadros naturais do Paraíso. Acima de Adão, numa gravura de 1504, Dürer fez pousar na Árvore da Sabedoria um papagaio. Na gravura que abria o primeiro tomo da obra de Theodor de Bry dedicada à narração imagética da conquista da América, atrás do casal primevo e em torno de uma cabana indubitavelmente americana, desenrolam-se cenas da vida dos homens na natureza. Ainda que ambas imagens permaneçam presas ao parâmetro medieval de representação do Paraíso, a presença da natureza americana em suas composições dá ao Paraíso, em face à Europa, feições estrangeiras. Já no painel do Jardim das Delícias de Bosch, a Árvore cujo deleite do fruto foi fatal a Adão e Eva es un agave, una espécie americana .
O Belo e o Bem na iconografia européia sobre a América (sécs. XVI-XVII).
Lo que aquí vi fue que vimos una infinitíssima cosa de pájaros de diversas formas y colores, y tantos diversos papagayos, y de tan diversas suertes, que era maravilla: algunos colorados como grana, otros verdes y colorados y limonados, y otros todos verdes, y otros negros y encarnados; y el canto de los otros pájaros que estaban en los árboles, era cosa tan suave y de tanta melodía que nos ocorrió muchas veces quedarnos parados por su dulzura. Los árboles son de tanta belleza y de tanta suavidad que pensábamos estar en el Paraíso Terrenal, y ninguno de aquellos árboles ni sus frutas se parecían a los nuestros de estas partes. Por el río vimos muchas especies de pescados y de diversos aspectos. (Américo Vespúcio)Condenados a se sentir estrangeiros no mundo físico até a redenção, os cristãos sempre foram marcados por uma melancolia causada pela queda de Adão e Eva do Paraíso, pela perda do espaço ao lado de seu criador, e por um igual desejo do retorno. Entre o inferno e o céu, a teologia cristã encarregou-se de consubstanciar, no mundo físico, uma manifestação deste objeto de desejo cristão, o Paraíso Terrestre. Localizado em um espaço inacessível e proibido ao homem devido a limitações de origem divina e por barreiras naturais – o Paraíso esteve ladeado por muros flamejantes, isolado em desertos ou situados em altas montanhas de ventos fustigantes–, a busca do sítio paradisíaco foi tópico constante dos escritos teológicos, da cartografia e das narrativas de viagem medievais, e de seus correlatos modernos. Desconhecida, a paragem do Paraíso na terra constituiu um fenômeno migratório; um mito geográfico. As pistas que davam as coordenadas do local sagrado, acreditava-se, haviam sido indicadas por Deus nas escrituras. E a partir da leitura destas pistas, os cristãos fizeram o Paraíso existir próximo à Índia cristã, no Ceilão, no extremo Oriente ou ao norte do mundo, para, mais tarde, situá-lo na América do Sul.
Mito geográfico, nos mapas, nas gravuras e pinturas o paraíso foi representado de diversas formas, em distintas localidades. Até o fim da Idade Média, a via preferencial de sua exposição imagética foi, sem dúvida, a figuração do casal primevo, Adão e Eva. O casal era representado, às vezes, de forma descritiva: um homem e uma mulher nus, situados em torno da Árvore do Conhecimento e próximos à serpente. Em outras, "assumiam la secuencia temporal-narrativa típica del gótico tardio, [y] se mostraba la tentación y la expulsión". Contudo, com o aproximar-se da modernidade, a representação do Paraíso planteou novos rumos: a tradição iconográfica começava a se deslocar da visão do casal que o habitou para o ambiente entorno. Transformando-se, a iconografia do Paraíso gerou a imagem que hoje predomina em nossas mentes, o Jardim do Éden. No painel esquerdo do tríptico Jardim das Delícias de Bosch, por exemplo, temos uma das primeiras imagens desta revolução da representação, que podemos considerar uma liberação da paisagem . Nela, o paraíso é, pictoricamente, um arborizado jardim, repleto de pássaros e animais exóticos, como a girafa e o elefante, animais míticos, como os unicórnios, e animais monstruosos, que se dispõem em torno da Fonte da Vida. Um espaço natural, ou melhor, paisagístico, onde a história do pecado original se desenrola. Um ambiente carregado de elementos exóticos que marcam seu caráter extra-europeu, provocando estranhamento. Ao mesmo tempo, uma imagem do espaço original de todas as espécies.
O movimento de transformação da iconografia do Paraíso parece estar intimamente ligado, como se apreende nos textos de Vespúcio, à aventura européia na América. A nova iconografia encontrou um forte paralelo entre as idéias correntes acerca do espaço original e as palavras dos primeiros homens a correr o Novo Mundo com o olhar: a exuberância da natureza americana, com matas tão densas que os pássaros somente podiam penetrá-las sozinhos, não em bando; as árvores que sempre verdes, em eterna primavera, que nunca perdiam as folhas e recendiam perfumes; os peixes magníficos e a fauna que era toda distinta da européia; os pássaros belíssimos e de todas as cores; enchiam os olhos dos aventureiros europeus, recheando-os de maravilhas e estupor. A primeira caracterização edênica deste continente foi feita no relato de Colombo, que acreditou encontrar-se perto do Éden, conforme indicavam os sinais que lera na exuberante natureza. Não por acaso, o deslumbramento dos viajantes com a abundância da natureza americana coincidiu, temporal e imaginariamente, com a mudança na postura do europeu frente ao sítio sagrado.
A natureza edenizada da América facilitaria ao olhar europeu o deslocamento do sítio paradisíaco para a América. A diversidade e exuberância da fauna e flora marcariam seus traços distintivos e estrangeiros com relação à Europa, necessários para o reconhecimento da terra dos pais primeiros: espécimes animais tanto da América, quanto das exóticas África e Ásia, compunham os quadros naturais do Paraíso. Acima de Adão, numa gravura de 1504, Dürer fez pousar na Árvore da Sabedoria um papagaio. Na gravura que abria o primeiro tomo da obra de Theodor de Bry dedicada à narração imagética da conquista da América, atrás do casal primevo e em torno de uma cabana indubitavelmente americana, desenrolam-se cenas da vida dos homens na natureza. Ainda que ambas imagens permaneçam presas ao parâmetro medieval de representação do Paraíso, a presença da natureza americana em suas composições dá ao Paraíso, em face à Europa, feições estrangeiras. Já no painel do Jardim das Delícias de Bosch, a Árvore cujo deleite do fruto foi fatal a Adão e Eva es un agave, una espécie americana .
As horas felizes
1
De suas duas tias Zenóbia sempre recebia dádivas quando menos esperava. Uma, a versada em frases e palavras, doou à sobrinha as metáforas mais divinas. A outra, afeita aos afetos duráveis, deu-lhe uma imagem de Sant Teresa D'Ávila. Com elas, Zenóia sentia-se livre de entraves e aprendeu a criar sozinha suas próprias paisagens. Cada regalo que ganhava despertáva-lhe o apelo da novidade. Ao ponto de chegar à claridade de falar um dia que, ao contrário do que muitos diziam, existir não é um plágio.
(O Livro de Zenóbia - Maria Esther Maciel)
sexta-feira, 12 de agosto de 2005
quinta-feira, 11 de agosto de 2005
Fragmento de conversa
Pois, bem... esse negócio do olhar me é uma coisa tão importante, quanto complicada! Primeiro, pq é um assunto que me intriga, e vira tema de pesquisa. Depois, pq há quem tenha um olhar que que me entra pelos olhos, investiga minha alma, se demora lá dentro, e depois me foge. Em terceiro lugar, por haver esse olhar, que também exploro, confronto e sustento, com meu próprio olhar; mesmo que, às vezes, as pupilas se fechem para mim. Por fim, o que é mais complicado: a vida é o que se vê nos olhos dos outros (Virginia Woolf); seja por reflexo, seja por projeção. Portanto, parte das cores que vemos nos olhares, são imagens do que queremos ver. E ai, onde está a verdade? Em nós mesmos? Quanto as imagens possuem de real, ou de engano?
Pois, bem... esse negócio do olhar me é uma coisa tão importante, quanto complicada! Primeiro, pq é um assunto que me intriga, e vira tema de pesquisa. Depois, pq há quem tenha um olhar que que me entra pelos olhos, investiga minha alma, se demora lá dentro, e depois me foge. Em terceiro lugar, por haver esse olhar, que também exploro, confronto e sustento, com meu próprio olhar; mesmo que, às vezes, as pupilas se fechem para mim. Por fim, o que é mais complicado: a vida é o que se vê nos olhos dos outros (Virginia Woolf); seja por reflexo, seja por projeção. Portanto, parte das cores que vemos nos olhares, são imagens do que queremos ver. E ai, onde está a verdade? Em nós mesmos? Quanto as imagens possuem de real, ou de engano?
quarta-feira, 10 de agosto de 2005
Ver e Traçar
Há uma imensa diferença entre ver uma coisa sem o lápis na mão e vê-la desenhando-a.
Ou melhor, são duas coisas muito diferentes que vemos. Até mesmo o objeto mais familiar a nossos olhos torna-se completamente diferente se procurarmos desenhá-lo: percebemos que o ignorávamos, que nunca o tínhamos visto realmente. O olho até então servira apenas de intermediário. Ele nos fazia falar, pensar; guiava nossos passos, nossos movimentos comuns; despertava algumas vezes nossos sentimentos. Até nos arrebatava, mas sempre por efeitos, conseqüências ou ressonâncias de sua visão, substituindo-a, e portanto abolindo-a no próprio fato de desfrutar dela.
Mas o desenho de observação de um objeto confere ao olho certo comando alimentado por nossa vontade. Neste caso, devemos querer para ver e essa visão deliberada tem o desenho como fim e como meio simultaneamente.
Não posso tornar precisa minha percepção de uma coisa sem desenhá-la virtualmente, e não posso desenhar essa coisa sem uma atenção voluntária que transforme de forma notável o que antes eu acreditava perceber e conhecer bem. Descubro que não conhecia o que conhecia: o nariz de minha melhor amiga...
Ou melhor, são duas coisas muito diferentes que vemos. Até mesmo o objeto mais familiar a nossos olhos torna-se completamente diferente se procurarmos desenhá-lo: percebemos que o ignorávamos, que nunca o tínhamos visto realmente. O olho até então servira apenas de intermediário. Ele nos fazia falar, pensar; guiava nossos passos, nossos movimentos comuns; despertava algumas vezes nossos sentimentos. Até nos arrebatava, mas sempre por efeitos, conseqüências ou ressonâncias de sua visão, substituindo-a, e portanto abolindo-a no próprio fato de desfrutar dela.
Mas o desenho de observação de um objeto confere ao olho certo comando alimentado por nossa vontade. Neste caso, devemos querer para ver e essa visão deliberada tem o desenho como fim e como meio simultaneamente.
Não posso tornar precisa minha percepção de uma coisa sem desenhá-la virtualmente, e não posso desenhar essa coisa sem uma atenção voluntária que transforme de forma notável o que antes eu acreditava perceber e conhecer bem. Descubro que não conhecia o que conhecia: o nariz de minha melhor amiga...
[...]
A vontade continuada é essencial ao desenho, pois o desenho exige a colaboração de aparelhos independentes que estão sempre pedindo para resgatar os automatismos que lhes são próprios. O olho quer vagar; a mão arredondar, tomar a tangente. [...]
Ver linhas e traçá-las. Se nossos olhos comandassem mecanicamente um estilo de traçar, bastaria olhar um objeto, isto é, seguir com o olhar as fronteiras das regiões diversamente coloridas, para desenhá-lo exata e involuntariamente. Desenharíamos, do mesmo modo, o intervalo de dois corpos, que, para a retina, existe tão nitidamente quanto um objeto.
Mas o comando da mão pelo olhar é bastante indireto. Muitas etapas intervêm: entre elas, a memória. Cada relance de olhos para o modelo, cada linha traçada pelo olho torna-se elemento instantâneo de uma lembrança, e é de uma lembrança que a mão sobre o papel vai emprestar sua lei de movimento. Há transformação de um traçado visual em traçado manual. Mas essa operação é suspensa na duração da persistência daquilo que chamei “elemento instantâneo de lembrança”. [...]
O artista avança, recua, debruça-se, franze os olhos, comporta-se com todo o corpo como um acessório de seu olho, torna-se por inteiro órgão de mira, de pontaria, de regulagem, de focalização.
Ver linhas e traçá-las. Se nossos olhos comandassem mecanicamente um estilo de traçar, bastaria olhar um objeto, isto é, seguir com o olhar as fronteiras das regiões diversamente coloridas, para desenhá-lo exata e involuntariamente. Desenharíamos, do mesmo modo, o intervalo de dois corpos, que, para a retina, existe tão nitidamente quanto um objeto.
Mas o comando da mão pelo olhar é bastante indireto. Muitas etapas intervêm: entre elas, a memória. Cada relance de olhos para o modelo, cada linha traçada pelo olho torna-se elemento instantâneo de uma lembrança, e é de uma lembrança que a mão sobre o papel vai emprestar sua lei de movimento. Há transformação de um traçado visual em traçado manual. Mas essa operação é suspensa na duração da persistência daquilo que chamei “elemento instantâneo de lembrança”. [...]
O artista avança, recua, debruça-se, franze os olhos, comporta-se com todo o corpo como um acessório de seu olho, torna-se por inteiro órgão de mira, de pontaria, de regulagem, de focalização.
(Degas Dança Desenho – Paul Valéry)
Até Pensei
(Chico Buarque - 1968)
Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caía
Toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
Do lado de lá tanta ventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade
Morava tão vizinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha
Junto a mim morava minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
E a dona dos olhos nem via
Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a enganar nunca me vinha
Eu andava pobre
Tão pobre de carinho
Que, de tolo
Até pensei que fosses minha
Toda a dor da vida
Me ensinou essa modinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha
terça-feira, 9 de agosto de 2005
domingo, 7 de agosto de 2005
sexta-feira, 5 de agosto de 2005
- Linhas e cores quase me persuadem de que também posso ser heróico, eu, que faço frases com facilidade, e depressa sou seduzido, amo o que vem a seguir, e não posso fechar meu punho, mas vacilo debilmente fazendo frases, conforme minhas circunstâncias. Agora, através da minha própria fragilidade, recupero o que ele foi para mim: o meu oposto.
(As ondas – Virginia Woolf)
quinta-feira, 16 de dezembro de 2004
Lista de Broca Oculta
1 – René: aberto a emoções! Emoções positivas, tipo: bombom de bacuri, doce de cupuaçu, sorvete ou torta de mangaba, um araçá azul. Um beijinho doce, que foi ele quem trouxe, de longe pra mim...
2 – Dani: Coisinhas gostosinhas... Hummm... Doce, né? Chocolates, tipo assim... (risos)
3 – Raquel: Doces suaves (ou seja, não muito “pesados”) – Isso não quer dizer diet
4 – Alice: Opção 1: Torta de maçã que o Zé Antônio faz. (Quem me tirou encomende a ele)
Opção 2: rondelli de ricota com nozes
Opção 3: eu não quero arroz, feijão, jiló, chocolate, panetone
Opção 4: o arroz em pessoa!
5 – Regina: Cesta básica DIET: gelatina (exceto de maracujá); barra de cereais SEM chocolate; frutas: abacaxi, maçã, pêra, pêssego, laranja (exceto serra d’água); capuccino. Clight;
6 – Daniel: Bombons (bacuri, cupuaçu)
Trufas (todas)
Doces (todos)
Sorvetes (todos)
7 – Juliana: Surpreendam-me!
8 – Patrick: Bombons de licor da Lalka
Pote de sorvete de flocos com cobertura
9 – Letícia: Doce, tipo chocolate. Sorvete também pode. Ah!, uma coisa boa, né?
Faltam se manifestar Luana, Patrícia, Cibele, Tatiana, Márcia, Rodrigo, Tiago.
Tiago é um Broca master. Ele gosta de tudo que é ingerível, mesmo que não seja muito digerível.
Patrícia: Osupermercado inteiro, um restaurante inteiro, uma pizzaria só para mim... Aí que fome... A fabrica da Kibon... Aí meu deus!!!! Brincadeira!
Vamos lá:1)Sushis e afins....2)Chocolates, chocolates, chocolates....3)Todas as coisas gostosas... petit gauteauSei lá pessoas vocês me conhecem...
Tatiana: Nuttella toda hora levemente adocicada
Cibele: Balas de licor com chocolate da Lalka. Quadradinhos finos õu trufas de café da Lalka. Doces de Protugal.
1 – René: aberto a emoções! Emoções positivas, tipo: bombom de bacuri, doce de cupuaçu, sorvete ou torta de mangaba, um araçá azul. Um beijinho doce, que foi ele quem trouxe, de longe pra mim...
2 – Dani: Coisinhas gostosinhas... Hummm... Doce, né? Chocolates, tipo assim... (risos)
3 – Raquel: Doces suaves (ou seja, não muito “pesados”) – Isso não quer dizer diet
4 – Alice: Opção 1: Torta de maçã que o Zé Antônio faz. (Quem me tirou encomende a ele)
Opção 2: rondelli de ricota com nozes
Opção 3: eu não quero arroz, feijão, jiló, chocolate, panetone
Opção 4: o arroz em pessoa!
5 – Regina: Cesta básica DIET: gelatina (exceto de maracujá); barra de cereais SEM chocolate; frutas: abacaxi, maçã, pêra, pêssego, laranja (exceto serra d’água); capuccino. Clight;
6 – Daniel: Bombons (bacuri, cupuaçu)
Trufas (todas)
Doces (todos)
Sorvetes (todos)
7 – Juliana: Surpreendam-me!
8 – Patrick: Bombons de licor da Lalka
Pote de sorvete de flocos com cobertura
9 – Letícia: Doce, tipo chocolate. Sorvete também pode. Ah!, uma coisa boa, né?
Faltam se manifestar Luana, Patrícia, Cibele, Tatiana, Márcia, Rodrigo, Tiago.
Tiago é um Broca master. Ele gosta de tudo que é ingerível, mesmo que não seja muito digerível.
Patrícia: Osupermercado inteiro, um restaurante inteiro, uma pizzaria só para mim... Aí que fome... A fabrica da Kibon... Aí meu deus!!!! Brincadeira!
Vamos lá:1)Sushis e afins....2)Chocolates, chocolates, chocolates....3)Todas as coisas gostosas... petit gauteauSei lá pessoas vocês me conhecem...
Tatiana: Nuttella toda hora levemente adocicada
Cibele: Balas de licor com chocolate da Lalka. Quadradinhos finos õu trufas de café da Lalka. Doces de Protugal.
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