domingo, 29 de dezembro de 2002

Não sei porque... mas essa canção me lembra o Schroeder.

O que você achar Marcie?


A MULHER BARBADA


Com o que será que sonha
A mulher barbada?
Será que no sonho ela salta
Como a trapezista?
Será que sonhando se arrisca
Como o domador?
Vai ver ela só tira a máscara
Como o palhaço

O que será que tem
O que será que hein?
O que será que tem a perder
A mulher barbada?

(Adriana Calcanhotto - interpretada com Los Hermanos)



Schroeder
recebendo aplausos

Se não levado à sério, este psicossodomita até que tem uma tiradas legais.
Juro que tive a idéia antes!



Mas eles têm o crédito de executar primeiro, e melhor:

DANCEMOS
UM TANGO FELIZ

O que deu em mim??

Deixemos espírito de Papai Noel entrar em nós,

e mudemos de assunto:

Meus amigos

e demais desconhecidos



Feliz Natal e um Ótimo 2003!!


(voz em off) - Melhorou?


ELEGIA 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, e concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar a tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.


(Carlos Drummond de Andrade - Sentimento do mundo)
A liberdade do diálogo está-se perdendo. [...] ela é agora substituída pela pergunta sobre o preço dos sapatos ou de seu guarda-chuva. [...] É como se se estivesse aprisionado em um teatro e se fosse obrigado a seguir peça que está no palco, queira-se ou não, obrigado a fazer dela sempre de novo, queira-se ou não, objeto do pensamento e da fala”: (Walter Benjamin)


É isto o que me espanta! Perdemos a capacidade de nos comunicar. É isto que faz das filas costumazes do fim-de-ano insuportáveis. Ficamos lá, parados, humanos atrás de humanos, à espera, como bois, do fim registrado no nosso abate pela moça do caixa. E, como bois, ruminamos o capim de nossas próprias cismas. Ficamos ali, alheios, a cismar. E, se a alguém escapa uma palavra, e esta palavra a nós se dirige, pensamos: Que saco!; ou Humm! Pois consideramos, e muitas das vezes constatamos, que tal palavra ou era da raça inquieta das ponderações mau-humoradas e das reclamações pontuadas, ou era da estirpe de um flerte. Estranhamos mesmo é quando a dita palavra assume a forma de um comentário, casual, que se esboça para dar início a uma amistosa conversa. Jogar conversa fora! ... para passar o tempo. – diria-se antigamente. Perda de tempo! – bufamos hoje. Ser amistoso, companheiro, simpático, é vergonhoso. Já foi condição de vida, quando a vida ainda se prendia e se fazia ao largo da convivência e interdependência comunitária. Já foi vergonhoso, quando os malandros de outrora diziam ser independentes e astutos o suficiente para viver sem depender de ninguém, mesmo quando viviam às custas daquele bom e velho amigo, ou de um desavisado “cliente”. Mas nunca tanto desprezo foi destinado a estas palavras como hoje - a era da comunicação. Acostumamo-nos a este ritual cênico da mínima palavra, a esta etiqueta social (a etiqueta do preço), sem a questionar. O rádio e a televisão já uniram pessoas – mesmo que tal união resultasse apenas em comentários – e que entusiásticos e plenos de vida e certezas eram – sobre a novela e o jogo de futebol. E, mesmo assim, a tv e o rádio continuam alvo da crítica apocalíptica que neles vê apenas a desagregação dos valores e das famílias. E a internet, essa grande praia onde muitos se banham e surfam sem nunca se ver? Esta pretendia aproximar as pessoas, educá-las, informá-las: a maior, mais rápida e mais eficaz rede de comunicações. O resultado: o nascimento da era da maior solidão, do mais profundo isolamento, da tele-pizza e do amor eletrônico. O problema, dizem, é que tal comunicação não é interpessoal, mas somente entre máquinas se faz. Balela! O problema não está nos meios de comunicação – embora muitas de suas empresas nos alimentem do desejo de jogar tal boliche solitário -, ou nos aparatos eletrônicos que des-facilitam a vida moderna. O problema, e a solução, somos nós! Nós é que escolhemos como agir; se nos deixamos levar o não. Nós é que decidimos se, por virtude ou ideologia, podemos ou não mudar nossos atos. Foi pensando nisso que comecei a escrever este blog, tentando alcançar um misto da expressão de minhas mais pessoais angústias com divagações sobre assuntos de interesse coletivo. E, para minha surpresa, eu não era um único ser que, perdido na rede, lançava sinais ao espaço em busca de vida. Neste fim de ano, quando o trabalho me esgotava, e as festas pouco me reconfortavam com a esperança de renovação, fui resgatado por mensagens de saudades, apoio e consideração enviadas por aqueles virtuosos amigos – alguns virtuais até – que criei e que mantive através desta página. Obrigado! E feliz ano novo...

PS: Este texto baixou em mim hoje e, mesmo que a isto não visasse, tem o sabor piegas das mensagens de fim de ano. Desculpem-me, mas foi inevitável...

quarta-feira, 11 de dezembro de 2002

Lista de AMIGO OCULTO


. Schroeder (Rodrigo MQ) - Cd Paratodos ou Quando o carnaval chegar, ou aquele que tem Pelas Tabelas, ou o Volume 4 do Chico.

. Roddsch - Palhetas do vidro dianteiro do Corsa 2000. Obs: se estiver dentro do preço estipulado.

. Ptk - CD-Pirata (Camelô do Centro) - FIFA 2000 (computador). Livro de bolso de poesias (M. Bandeira, Quintana, Drummond...) Livro de poesias do Arnaldo Antunes.

. Créia - Cd dos Tribalistas ou Arnaldo Antunes (mais antigo).

. Juh-Lai Lama - O que meu amigo oculto achar que eu vou gostar.

. René Boli - Sou a favor da lista; porque, com ela, podemos saber o que quer quem a gente pouco conhece. Pois bem. O problema é que a gente nunca sabe o que quer, ou melhor, o que pode colocar na lista. Eu, por exemplo, gostaria imensamente de ganhar uma viagem para a Espanha (acompanhado, é claro! - da Regina, diz a própria)... mas como não dá, fico mesmo com o catálogo da exposição de Eckhout (que só está à venda em Brasilia). Mas, algo factível, não sei... talvez o Chico, que é sempre bom. O problema é que tenho quase tudo. Só não tenho o Francisco (que tem Sambando no Toró), ou o Chico Buarque Volume I, ou ainda Quando o Carnaval Chegar - que a gente sempre encomenda, e nunca chega, nem no carnaval. Pode ser ainda os Saltimbancos (mesmo os trapalhões), ou a Arca de Noé (um ou doi, tanto faz). Um bom lugar para pesquisa é na Discomania, R. Paraiba 1378 ou R. Sergipe Tem também a Cecília, de Meireles, aquele livro de tradução de poemas chineses, que é lindo. No mais, não sei. Gosto de poetas. Drummond, Ana Cristina César, editado pela FUNARTE, que tá R$ 5,00 na Travessa, também vale. Bom, pra me dar presente basta ter bom senso e sensibilidade, um pouco de amizade também. Feliz Natal!

. Regina - Primeiramente, quero concordar com René pois considero fundamental o esclarecimento, por mais reduzido que seja - do tipo apenas uma dica - do que querem nossos amigos. Em segundo lugar, gostaria de sugerir a quem saiu comigo que gostaria de ganhar uma camiseta indiana de malha de algodão, que vende na Feira de Artesanato da Av. Afonso Pena. Meu tamanho é MÉDIO e o motivo que eu prefiro é o de estamparia miudinha.

. Marcie, vulgo Puliça - Livros e Cds sao sempre bons presentes, se for o Cd Tribalistas ou um livro da Fernanda Young são mais bons ainda!

. Carol - Calcinha M. Pra ficar mais folgadinha, que as minhas apertam. Tiara, arco, coisas de cabelo. Brinco dependurado. Literatura.
Juli, Lindus, Marcie, Mannu, e todos que reclamam por atualizações no meu blog, muito obrigado pelo incentivo! Apenas não tenho postado nada porque com o volume de trabalho que estou tendo não me sobra muito ânimo. Logo logo postarei. Beijos.

quarta-feira, 30 de outubro de 2002


O BRINQUEDO DO POBRE


Quero dar a idéia de uma distração inocente. Há tão poucos divertimentos que não sejam criminosos!

Quando sairdes, de manhã, com a firme intenção de vagabundear pelas estradas, enchei os bolsos de pequeninas invenções de um soldo e, pelas tavernas, ao pé das árvores, presenteai os meninos desconhecidos e pobres que fordes encontrando. Então vereis como lhes crescem desmesuradamente os olhos. A princípio, não ousarão tocar no presente; duvidarão da própria felicidade. Depois, suas mãos agarrarão vivamente o brinquedo e eles fugirão, como fazem os gatos, que, tendo aprendido a desconfiar do homem, vão comer longe de nós o bocado que lhes damos.

Numa estrada, por trás das grades de um vasto jardim, ao fundo do qual surgia a brancura de um lindo castelo batido de sol, via-se uma criança fresca e bela, vestida de uma dessas roupas de campo, tão garridas.

O luxo, a ociosidade e o espetáculo habitual da riqueza tornam esses meninos tão belos que nos parece terem sido feitos de outra massa que não a dos filhos da mediania ou da pobreza.

Ao lado dela, jazia sobre a relva um brinquedo esplêndido, tão novo quanto o seu dono, envernizado, dourado, com um traje cor de púrpura, e coberto com plumas e vidrilhos. O pequeno, porém, não se ocupava com o seu brinco favorito, e eis o que ele observava:

Do outro lado da grade, na estrada, entre os cardos e as urtigas, havia outro menino, sujo, raquítico, tisnado, um desses garotos-párias em quem um olho imparcial descobriria a beleza, se o limpasse da repugnante pátina da miséria.

Através daquelas vergas simbólicas que separavam dois mundos, a estrada real e o castelo, o menino pobre mostrava o seu brinquedo ao menino rico, e este que o pequeno porcalhão atraía com afagos, agitava e sacudia, numa espécie de gaiola, era um rato vivo! Os pais, decerto por economia, haviam tirado o brinquedo da própria vida. E as duas crianças riam uma para a outra, fraternalmente, com dentes de uma brancura igual.

(Charles Baudelaire - O spleen de Paris)
Essa imagem me lembra a Maria Luiza...



... e o tanto feliz que estou,

pareço até menino pequeno!



(Milton Nascimento - retrato por Juan Esteves)


Quando adolescente, tinha para mim que Milton Nascimento era um dos maiores intérpretes da música brasileira, e uma das mais belas e bem trabalhadas vozes que existiam. Contudo, eu não o ouvia – não aceitava seu repertório. Na verdade, eu me esforçava em não gostar de suas músicas, ou de qualquer música de seus companheiros de esquina: adolescente que era , achava importante afastar-me do gosto musical da geração anterior à minha. Por vezes, a recusa a músicas como Caçador de Mim, Coração de Estudante e Nos Bailes da Vida (para ater-me às mais conhecidas) decorria de uma avaliação errônea de meus sentimentos. Soavam-me, aquelas músicas, como frutos que tendiam à mobilização demasiado fácil e imediata das emoções dos ouvintes. E que, para tanto, empregavam símbolos de uma forjada mineiridade. Mas, na verdade, aquelas músicas me emocionavam – e viriam, hoje, a me emocionar mais ainda –; e isso não era aceitável. O problema não estava nas músicas, mas em minha sensibilidade ainda frágil, ainda não impregnada da atmosfera das cidades históricas abarrotadas de estudantes e de sua cultura, dos ares montanhosos, dos festivais de inverno, do barroco. E do gosto por um determinado tipo de música e de teatro que se faz na rua, em meio a pessoas que, de desconhecidas, tornam-se amigos e companheiros, mesmo que por alguns instantes. Um tipo de cultura e um tipo de sentimento e postura que ainda marcam a arte mineira, como a do Grupo Galpão. Amizade e fraternidade (formas distintas de se expressar ao tratamento cordial entre pessoas), sopraram-me, são as chaves para o entendimento da obra do Clube da Esquina. Atuando num momento em que os artistas brasileiros buscavam alternativas para lidar com a censura ou enfrentar o regime militar – a exemplo das canções de protesto –, o Clube, assim como a Bossa Nova, parecia-me um movimento desprovido de conteúdo contestatório, a despeito de sua imensa força de mobilização e encantamento. No entanto, a aparente frugalidade das músicas do Clube era, na verdade, um refinado meio de mobilizar valores sociais importantíssimos para a construção de uma vida pública sadia no Brasil. Amizade e fraternidade, antes que um apelo fácil aos nossos sentidos e sentimentos, eram poderosos instrumentos de mobilização das pessoas em prol da construção de bens comuns. Não por acaso, são estas as forças mobilizadoras que se detona para a construção do cooperativismo e, em escala menor, dos mutirões e campanhas de solidariedade. O Brasil é um país no qual a esfera pública encontra-se sempre por instaurar ou, quando se forma, não se perpetua. Problema este que foi, repetidas vezes, atribuído a uma infiltração desvirtuadora de valores privados na esfera pública. Mas, há que se notar que a construção do público no Brasil, quando ocorre, vem quase sempre impulsionada por valores privados. Fato este que talvez indique não um problema, mas uma especificidade da formação da política e do bem público no Brasil: a sua não independência da esfera privada que, através dos valores e sentimentos que gera, dá forma e vigor à esfera pública . Milton Nascimento e seus companheiros pareciam pressentir aquilo que os cientistas sociais estão a descobrir: ao se chamar à cena a amizade e a fraternidade, mesmo que através da música, é possível mobilizar forças de transformação e gerar um clima de cooperativismo e de ação conjunta. Um clima de irmandade que reapareceu no Brasil quando as pessoas se uniram em torno de um projeto de nação, de um sentimento de esperança e, principalmente, de um ideal, mesmo que inconfesso, de companheirismo. Quem nos últimos dias não recebeu nas ruas um sorriso, um aceno, uma buzinada simpática de um total desconhecido apenas pelo fato de estar usando um broche em forma de estrela? O princípio é o mesmo, mas os meios de sua manifestação são diferentes: antes foi a música, hoje, as urnas. Os tempos não mudaram, foram mudados. E agora podemos expressar, diretamente e sem medo, o que, individualmente e em conjunto, desejamos; ainda que a voz de Milton Nascimento continue sendo a mais bela.

sábado, 26 de outubro de 2002



e do mundo cuidaremos, como cuidamos de nós; pois se o telefone tocar, a boca sorrir, o carro buzinar, o cachorro latir e o beijo estalar, todo som será o eco de um violino azul tocando alegrias



aquí, encontrei esta saída

no meu aniversário, troco dissertações, monstros, selvagens e imagens por muito sushi e saquê
meus amigos, meus parentes, e meu amor
Da ociosidade nasceu o sentido de se contar uma história. Quando o tempo transcorre devagar e o tédio do nada fazer, ou da repetição monótona de um trabalho (que nos ocupa as mãos mas não a mente), faz com que nos esqueçamos de nós mesmos, abrimos nossos sentidos em receptiva atenção. Nesses momentos de distensão , entregamo-nos ao ato de contar e ouvir reais ou fictícias histórias, notícias memoráveis de terras distantes, de feitos únicos, de saberes tradicionais ou de novos conhecimentos. Com tais narrativas nos entretemos; e do prazer de as ouvir, e contar, retemos sua memória, criando uma rede de narradores e ouvintes que as perpetuam pela sua constante transmissão e conservação. Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas. Para garantir o conhecimento de suas histórias por aqueles que não conheceram as maravilhas de mundos distantes, e logo impedir que desaparecem, Marco Pólo, e outros ilustres viajantes, colocaram no papel, em forma de texto, a matéria de suas memórias. Perpetuou-se, pode-se dizer, uma tradição dos relatos de viagem...

Disso venho me ocupando. Mestrado, mestrado, monstrado... bicho feio, louco para engolir minha cabeça. E cuido de meu Lindus também - o que é muito bom. Por isso faltam-me tempo e criatividade para escrever neste blog. Que puxa... Além do mais, pasmem!, estou no meu inferno astral.

E meu inferno astral é assim: como não dou muita bola pra ele, o pobre ataca quem está à minha volta, criando problemas. E haja bom humor para tratar dos pepinos que se espalham na minha horta. Mas, às vezes, ele me pega na curva, e me joga no chão. Fico chato, e triste. Deprimido mesmo. Sem saber porque.
G.H., Lindus e Ana H. ... cliquem aqui .



linda e competente

sábado, 5 de outubro de 2002

Frida pacifista: com a cabeça em meu mouse, dormiu.
bh, sempre moderna...




(trolleybus, 1902)


...e de memória sem lastro.