quinta-feira, 16 de maio de 2002
quarta-feira, 15 de maio de 2002
para uma garotinha católica, de cabelos devassos:
... tô te dizendo Matias, vi. ele falou alguma coisa? eu ia contar, mas notei que Matias não tinha interesse em ouvir, continuava cavando os buracos rente ao alambrado. e se você falasse com o padre Esteira? e tu achas que posso falar alguma coisa com um padre que se chama Esteira? posso quando muito deitar-me sobre ele. explica-me que o padre é de família quatrocentona, não tem os Prado também? pois Prado não é diferente de Esteira, também podes deitar-te sobre. em cima dos prados. mais confortável. que é humilde o tal Esteira. e que ele, sim, vê deus. e como é o deus dele? é luz, Vitório, é luz. tento explicar a Matias que luz é entropia. andei lendo sobre isso no Lupasco. he, cara complicado.Lupasco, é? antagonismo. é a palavra chave em Lupasco. meus antagônicos. antas e agonias. Jorge de Lima num poema: tu, minha anta. fiquei aparvalhado. mas refletindo, é bonito anta. é majestoso, roliço, palpável. Apalpar uma anta deve ser difícil. Apalpo meu coro cabeludo aquecido de sol. ...
(Hilda Hilst – Estar sendo. Ter sido.)
são antagônicos: antas e agonias.
... tô te dizendo Matias, vi. ele falou alguma coisa? eu ia contar, mas notei que Matias não tinha interesse em ouvir, continuava cavando os buracos rente ao alambrado. e se você falasse com o padre Esteira? e tu achas que posso falar alguma coisa com um padre que se chama Esteira? posso quando muito deitar-me sobre ele. explica-me que o padre é de família quatrocentona, não tem os Prado também? pois Prado não é diferente de Esteira, também podes deitar-te sobre. em cima dos prados. mais confortável. que é humilde o tal Esteira. e que ele, sim, vê deus. e como é o deus dele? é luz, Vitório, é luz. tento explicar a Matias que luz é entropia. andei lendo sobre isso no Lupasco. he, cara complicado.Lupasco, é? antagonismo. é a palavra chave em Lupasco. meus antagônicos. antas e agonias. Jorge de Lima num poema: tu, minha anta. fiquei aparvalhado. mas refletindo, é bonito anta. é majestoso, roliço, palpável. Apalpar uma anta deve ser difícil. Apalpo meu coro cabeludo aquecido de sol. ...
(Hilda Hilst – Estar sendo. Ter sido.)
são antagônicos: antas e agonias.
Ora pois, vejam só. E não é que a G.H., além de divertidíssima, pôs-se de verdadeira mãe? Até bolos de cenouras veio a fazer... pois, de senhoras bastam os bolos. Às queijadas, dão lugar os queixumes.
E, o amor materno que esta garota alta, bonita e séria, tem pelo Linus é um mais que audível chamado das entranhas:
E, o amor materno que esta garota alta, bonita e séria, tem pelo Linus é um mais que audível chamado das entranhas:
segunda-feira, 13 de maio de 2002
Ainda sobre o mesmo tema (o nº 2, o silêncio).
O Silêncio
Há um grande silêncio que está sempre à escuta...
E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa, qualquer coisa, seja o que for,
desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje
até a tua dúvida metafísica, Hamleto!
E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala
o silêncio escuta...
e cala.
(Mario Quintana – Esconderijos do Tempo)
O Silêncio
Há um grande silêncio que está sempre à escuta...
E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa, qualquer coisa, seja o que for,
desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje
até a tua dúvida metafísica, Hamleto!
E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala
o silêncio escuta...
e cala.
(Mario Quintana – Esconderijos do Tempo)
A cada dia descubro que mais pessoas realmente lêem isso aqui. Que coisa, né? Mas, o mais engraçado é que nós, eu e meus sábios amigos, temos mantido conversas através dos blogs. Um manda um recado pelo seu blog, o outro responde no próprio blog. Nada de e-mail ou comunicações mais diretas. Isso é legal! A gente passa a ler uns aos outros cada vez mais. E quem está de fora pode acompanhar os assuntos, passeando pelos blogs.
Isso aqui tem ficado muito íntimo. Mais do que eu esperava. É que estou tomado pelo impulso de pensar a vida e as relações. Pensar como as vidas das pessoas se conectam; as ligações, com seus aspectos mais ou menos interessantes. Talvez isso seja reflexo das mudanças em minha vida; o que contrasta com a permanência das pessoas, e me emociona. Talvez seja pelo surgimento de novos interesses, gerados por uma nova vida, novos amigos, um novo amor. Talvez seja a retomada de interesses meus, já antigos, que renascem, mais velhos, em mim mais velho. Talvez seja só um momento. Só. Mas, penso. E apenas espero não ultrapassar o limite de quem lê.
domingo, 12 de maio de 2002
Já que estou no meio desta enxurrada de dedicatórias – e com Divinópolis na cabeça -, dedico, a todos os visitantes da janela, um poema.
Momento
Enquanto eu fiquei alegre, permaneceram
um bule azul com um descascado no bico,
uma garrafa de pimenta pelo meio,
um latido e um céu limpidíssimo
com recém-feitas estrelas.
Resistiram nos seus lugares, em seus ofícios,
constituindo o mundo para mim, anteparo
para o que foi um acontecimento:
súbito é bom ter um corpo pra rir
e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo
alegre do que triste. Melhor é ser.
(Adélia Prado – Bagagem)
Momento
Enquanto eu fiquei alegre, permaneceram
um bule azul com um descascado no bico,
uma garrafa de pimenta pelo meio,
um latido e um céu limpidíssimo
com recém-feitas estrelas.
Resistiram nos seus lugares, em seus ofícios,
constituindo o mundo para mim, anteparo
para o que foi um acontecimento:
súbito é bom ter um corpo pra rir
e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo
alegre do que triste. Melhor é ser.
(Adélia Prado – Bagagem)
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Só para não deixar passar em branco. No nosso aniversário, o Linus me presenteou com um jantar num restaurante francês. Um restaurante muito agradável, um ótimo atendimento, uma comida excelente; assim começou a noite. Memorável. Animados pelo vinho e empolgados pelas bailarinas de Toulouse-Lautrec, houve espaço até para uns beijinhos. Depois, ... bom, depois passamos para mais uma modalidade de nosso tema nº 2: O Silêncio. Evoco Adélia Prado (Bagagem).
Uma vez visto
Para o homem com a flauta,
sua boca e mãos,
eu fico calada.
Me viro em dócil,
sábia de fazer com veludos
uma caixa.
O homem com a flauta é meu susto pênsil
que nunca vou explicar,
porque flauta é flauta,
boca é boca,
mão é mão.
Como os ratos da fábula eu o sigo
roendo inroível amor.
O homem com a flauta existe?
._____________________________________________________.
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Só para não deixar passar em branco. No nosso aniversário, o Linus me presenteou com um jantar num restaurante francês. Um restaurante muito agradável, um ótimo atendimento, uma comida excelente; assim começou a noite. Memorável. Animados pelo vinho e empolgados pelas bailarinas de Toulouse-Lautrec, houve espaço até para uns beijinhos. Depois, ... bom, depois passamos para mais uma modalidade de nosso tema nº 2: O Silêncio. Evoco Adélia Prado (Bagagem).
Uma vez visto
Para o homem com a flauta,
sua boca e mãos,
eu fico calada.
Me viro em dócil,
sábia de fazer com veludos
uma caixa.
O homem com a flauta é meu susto pênsil
que nunca vou explicar,
porque flauta é flauta,
boca é boca,
mão é mão.
Como os ratos da fábula eu o sigo
roendo inroível amor.
O homem com a flauta existe?
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A Mel andou chorando, de tão feliz-tão triste. Chorar faz bem, e um sorriso bem mais. Descontrole, só como estilo. E eu, retribuo as figuinhas com um poema.
Grande Desejo
Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do estômago humilde
e fortíssima voz para cânticos de festa.
Quando escrever um livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.
(Adélia Prado – Bagagem)
Grande Desejo
Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do estômago humilde
e fortíssima voz para cânticos de festa.
Quando escrever um livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.
(Adélia Prado – Bagagem)
Apesar de hoje ser dia das mães, o presente vai para o irmão distante. Por algum milagre da alta tecnologia, tivemos uma grande conferência familiar pela net; data esta que marcou a iniciação da Mamãe Slu como internauta. Até o Rodd e o Kako apareceram. Bom, como Mamãe Slu sempre diz: É isso aí meu irmão!
Noturno
O gato, que mora no mundo para sempre perdido do cinema silencioso, atravessa o país do tapete, onde se abrem flores falsamente tropicais.
No pé da escada, por força do hábito, a avozinha morta começa a tricotar mais um pulôver.
Por trás de suas barbas, no retrato da parede, o olhar do avô indaga: - Para quê?
De repente, na copa, o refrigerador compõe ruidosamente a garganta, enquanto estremecem de medo os frágeis habitantes do porta-cristais: - Meu Deus, meu Deus, ele agora vai fazer um discurso!
(Mario Quintana – Esconderijos do Tempo)
Essa dona aí é a América (na verdade, ela é um fragmento de uma Alegoria da América realizada por Phillipe Galle e Marcus Gheeraerts, entre 1590 e 1600). A cara dela é a de quem acabou de se levantar da cadeira por conta do impulso de uma grande descoberta. Ela é uma ótima tradução para o que a gente sente quando reconhecemos uma nova idéia, daquelas que podem revolucionar os caminhos da ciência e do mundo. Por isso, resolvi inventar uma sessão para esse blog, que se chamará Descobri a América. Assim, quando essa mocinha aparecer de novo, grite: Eureca!
Nada como um exemplo para deixar as coisas claras:
Para melhor despir os camarões de seu solene fraque, lave-os, mergulhe-os em água e retire-os quando a água ameaçar ferver (ou quando, pressentindo a iminente nudez, eles ficarem rubros de vergonha). Assim, perde-se menos carne do que quando são limpos crus.
Resfrie-os sob a torneira e retire o fraque, a começar pela cabeça. Na cauda, quebre delicadamente a casca firmando as unhas dos polegares, de modo a retira-las sem mutilar o crustáceo.
(Frei Beto - Comer como um Frade)
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E eu, fiquei aqui: sem cobertor de orelhas.Talvez seja bom, e ele esteja descansando de sempre acordar com alguém olhando. Não posso dizer que estou morrendo de saudades; mas tô com um frioziiinnho!!
