sábado, 13 de julho de 2002



Rachel Ramalho


Um Beijo Meu

os dias nunca são iguais
quando a inocência se desfaz
por já não ter mais no que acreditar

se todo amor não foi capaz
se alguém que você tanto quis
já fez a mala, adeus, até nunca mais

quarda um beijo meu
o que for teu ninguém vai nunca mais tirar
quem sabe um dia, tudo vai voltar
mas agora é melhor deixar...


(Herbert Vianna)


En la playa de São Sebastião - Antes y Después
Ontem inventei essa receita. Como ela foi amplamente aprovada, vou divulga-la como marca de meu retorno à cozinha. Dedicado ao Lindus, à Beth e à Dani.


Penne com Tomates e Champignons


Tome três tomates bem maduros. Retire as sementes e corte-os em grandes quadrados. Junte-os em um prato com 250 gramas de champignons grandes picados. Regue tudo com um cálice de saquê e reserve. Numa panela funda, aqueça duas colheres de sopa de azeite bom. No azeite, doure uma colher de café de alho amassado e uma cebola pequena picada. Acrescente uma pitada de pimenta do reino, uma colher de café de tomilho, uma de salvia, e duas colheres de chá de manjericão (todos desidratados). Em seguida, acrescente um cálice e meio de cachaça ou vodka, e um pouco de água. Deixe começar a ferver, então junte a mistura de tomates e champignons. Deixe cozinhando em fogo brando até os tomates ficarem macios e o álcool evaporar. Desligue o fogo e acrescente 150 gramas de creme de leite, e sal. Junte tudo a uma quantidade de penne que dê para 4 pessoas. Por favor, dispense o queijinho ralado. Acompanhamentos: vinho tinto e a trilha sonora do filme The Moderns.



Jules et Jim


Gravado em 1961, Jules et Jim, de François Truffaut, deveria ser considerado como um dos marcos do cinema francês. Como um vento úmido que nos pega de surpresa e segue adiante, Truffaut narra a estória de dois jovens artistas (Jules e Jim), que conhecem a encrenqueira Catherine (Jeanne Moreau) e... juntos compõem uma fábula dos relacionamentos modernos. O ar de transformação do início dos anos 60 é o elemento que nos toma de assalto, fazendo com que sejamos levemente conduzidos pela narrativa. Cuidadosamente trabalhadas, as imagens, a encenação e a maravilhosa trilha de George Delerue dão ao filme o caráter de uma crítica jocosa, nada onisciente, embora aguda, da patética trajetória humana – repleta de curvas, desvios e contra-mãos.

Mas, entre todas, a mais bela seqüência é aquela em que Jeanne Moreau interpreta a canção Le Tourbillon, de Boris Bassiak.


Le Tourbillon

Elle avait des bagues à chaque doigt,
Des tas de bracelets autour des poignets,
Et puis elle chantait avec une voix
Qui sitôt m'enjôla.

Elle avait des yeux, des yeux d'opale,
Qui me fascinaient, qui me fascinaient.
Y avait l'ovale de son visage pâle
De femme fatale qui m'fut fatal (bis).

On s'est connus, on s'est reconnus,
On s'est perdus de vue, on s'est r'perdus d'vue
On s'est retrouvés, on s'est réchauffés,
Puis on s'est séparés.

Chacun pour soi est reparti.
Dans l'tourbillon de la vie
Je l'ai revue un soir, aïe, aïe, aïe
Ça fait déjà un fameux bail (bis).

Au son des banjos je l'ai reconnue.
Ce curieux sourire qui m'avait tant plu.
Sa voix si fatale, son beau visage pâle
M'émurent plus que jamais.

Je me suis soûlé en l'écoutant.
L'alcool fait oublier le temps.
Je me suis réveillé en sentant
Des baisers sur mon front brûlant (bis).

On s'est connus, on s'est reconnus.
On s'est perdus de vue, on s'est r'perdus de vue
On s'est retrouvés, on s'est séparés.
Dans le tourbillon de la vie.

Chacun pour soi est reparti.
Dans l'tourbillon de la vie.
Je l'ai revue un soir ah là là
Elle est retombée dans mes bras.

Quand on s'est connus,
Quand on s'est reconnus,
Pourquoi se perdre de vue,
Se reperdre de vue ?

Quand on s'est retrouvés,
Quand on s'est réchauffés,
Pourquoi se séparer ?

Alors tous deux on est repartis
Dans le tourbillon de la vie
On à continué à tourner
Tous les deux enlacés
Tous les deux enlacés.



Accompagnement à la guitare : pour jouer exactement comme dans le film, faites un arpège en Do et Sol7, capo III. Sinon, si comme moi vous n'avez pas la voix de Jeanne Moreau, vous pouvez aussi la jouer en Sol et Ré7, sans capo.



Henri Serre, Oskar Werner, e Jeanne Moreau
em Jules et Jim

segunda-feira, 8 de julho de 2002

Hoje tenho o prazer de conceder o Troféu Joinha para a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que, além de realizar de forma totalmente desorganizada o 54ª edição de sua Reunião Nacional, me deu o seguinte atestado:

Atestamos que o trabalho A ESPERIÊNCIA ...



Esperiência???? Depois eu é que sou analfa.
Lindusão, tô com saudades!!
Olhem aqui ondé cô tô:



Goiânia

Looooooooonnnnnnge... Mas, valeu!

Só que não encontrei nenhum empadão goiano com guariroba - que eu ADORO. Essa iguaria centro-brasileira, apesar de pesada (linguiça, lombo, frango, guariroba, ervilha e queijo) é uma delícia, e mereceu até ter sua receita, em italiano, em um site de cucina brasiliana. Hummmm!!!!!

Quanto à festa junina da comunidade nipônica... Ghumf!!! Eu tava doido para ir. Tinha até convitinho. Que pena...
Mas, qual foi a fiança???
Eeeeehhhhh!! Recebi com muito gosto a homenagem da G.H..



Retribuirei em breve. Aguarde...

domingo, 7 de julho de 2002



Chagal

Meu Lindus, agora que você já está sonhando, com anjos e um melancólico som de violino, despeço-me. Vou, embora apreensivo. Mas não te deixo. Volto em breve, com mais saudades. Te amo, ainda mais.

Boa noite!


Amiga Puliça e Amiga Melissa em
A noite das meninas superbandeirosas.

sábado, 6 de julho de 2002

Conforme prometido:



Ô, Antaaa!!
Foi aniversário do Rodsch. Tentei cercá-lo de todas as formas possíveis. Não consegui. Mesmo assim, PARABÉNS!!!!



Estamos todos com saudades!! Viu?
A vida anda tão corrida que nem tive tempo de postar tudo o que queria. humff!
Bom, quem sabe quando eu voltar de viagem?
Enquanto isso, mais imagens.



Hilda Hilst - Casa do Sol - 1967

sexta-feira, 28 de junho de 2002



O Novo Baiano
criação coletiva, dos seus irmãos.
O meu irmão, distante e retardatário, descobriu HOJE que a Marcie virou pulissa. Doido...
Mas, tenho que concordar com o Gô: ela bem que poderia fazer um blog para contar suas aventuras de tira. Pois se dependesse de mim e do Gô...

Imaginem



... seria ridículo.
Como sempre, Lady Bug tira as músicas de minha boca! These Foolish Things - por Ella Fitzgerald.

terça-feira, 25 de junho de 2002

cem beijos, cem abraços, cem horas juntos, sem discussões, sem desencontros, sem angústia, sem medo, alguma solidão, algum sossego, alguma palavra, algum silêncio, você... me amando como te amo, entre o desejo de sermos, e a possibilidade de estarmos - um e juntos.

Te amo, meu Lindus, mais que sempre!
A G.H. mudou a cara do blog dela: está mais lindo que nunca. Quanta classe, quanto estilo - quem dera eu! E, ainda por cima, colocou uma imagem bonitinha de uma janela no link do meu blog. Eh, portento!

segunda-feira, 24 de junho de 2002

E esses dois, alguém reconhece?

A pedidos, mais alguns exemplares da turma:



Créia



Juh Lai Lama



E eu!!!

Bom, amanhã tem mais!

sábado, 22 de junho de 2002

Contemplação Distraída à Janela


Que podemos fazer nestes dias de primavera, que já se aproximam rapidamente? Esta manha cedo, o céu estava cinzento, mas se agora a gente se chega à janela, surpreende-se e apóia a face contra o batente.
Embaixo, vê-se a luz do sol que se despede sobre o rosto da jovenzinha que passa olhando em volta; ao mesmo tempo vê-se nele a sombra de um homem que se aproxima rapidamente.
E depois o homem passa, e o rosto da menina está inteiramente iluminado.

(Franz Kafka – Contemplação)
E agora, apresento para vocês:



o Rodsch
Olhem só: o Gô, que estreou seu nariz italiano na teledramaturgia brasileira, teve um tempinho de passar por aqui! Para você, Gô, coloco aqui uma foto da malévola Drª Selma. Cuidado!

quinta-feira, 20 de junho de 2002

Menina,

eu já havia passado por seu espelho, e confesso que gostei. Mas, de seus textos, o que eu poderia dizer? Hiperbreves?, sim. Alguns são densos, e condensam algo em quem os lê: um sentimento, um sentido, uma intenção, uma idéia. Outros, menos: brincam com nossos sentidos, giram pelo corpo e se vão, na brevidade de uma piscadela. Mas, como estou atrevido e muito crente em mim, me permito a duas ousadias.

A primeira: feliz com seus elogios, comento seu Amor de Raposas com um textinho que fiz, de impulso, para quem amo.


Ensine-me coisas.
Não em tom de ensinamento.
Mas soltando os nós que foram amarrando minha alma.



A segunda: tomar emprestado seus Olhos de brinquedo como meu espelho, e minha janela.

Olhos de brinquedo

A menina da janela observa tudo. Está no segundo andar. A rua é calma, margeada de árvores e coberta de folhas. A casa é rosa, tem um gramado ao redor, uma varanda na entrada e nada de portão trancando a menina. Ao alcance dos olhos dela está o sobrado lilás - bem em frente, a escola de inglês - do lado esquerdo do sobrado, e a praça com o gira-gira - do outro lado. Ela não liga pro gira-gira. Gosta mesmo é de ver as pessoas. Tem oito anos e uma população dentro de si. Sabe como a criada da frente varre a calçada, conhece o andar da diretora da escola e imita direitinho a garota manca que brinca na praça todas as tardes. Não erra o barulho do lixeiro, pergunta - e decora - nome e sobrenome de cada entregador que aparece. Já contou os cadernos que o menino do skate leva para a aula de música - três - e está quase certa de que o guarda da noite apita 44 vezes, da hora em que entra no turno até a hora em que ela dorme. A menina da janela tem cachinhos dourados, dentes de leite, e é cega.

(A Menina no Espelho)

terça-feira, 18 de junho de 2002

Através da fresta
no papel da janela,
a via láctea.



(Issa - Livro de Hai-Kais )
flor na lapela
noite de serenata
à janela


(Carlos Seabra)
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

(Fernando Pessoa – fragmento de Liberdade)

segunda-feira, 17 de junho de 2002

Recebi o protesto de Tantri quanto à sua foto que aqui divulguei. Fui obrigado a concordar: esta foto não é sua. Na verdade, a Tantri é a encarnação da Tomoe Hotaru, a versão pessoa-normal da Sailor Saturn.



Tomoe Hotaru


Mas, se a análise física demonstra serem Tantri e Tomoe a mesma pessoa, um estudo de suas personalidades comprova o fato. De início, temos a tendência de Tomoe à manutenção de inúmeras personalidades: além de ser, paralelamente, Tomoe e Sailor Saturn, quando pequena, a garota foi possuída, transformando-se no Mensageiro do Silêncio (e o Silêncio tem lá algo a dizer pela voz de um mensageiro? Pretexto mais cretino para justificar uma possessão...). O mesmo ocorre com Tantri, que muda de nome, e personalidade, ao sabor do vento: já foi Tantrielle, Tatyelly, Insacielly, Votvará, Peytte, e até Acadêmica Sandy (sua personalidade guerreira-samurai).
Além disto, cabe lembrar que Saturno é Chronos, mitológico titã que canibalizava seus rebentos assim que nasciam de sua esposa Cibele. É o rei da melancolia. Senhor do tempo que, a tudo cria, deteriora, destrói. Louco. Reconhecível pelo olhar: estático, robótico, frio. Tão psicopata quanto à legista Tantri. (É... vou reconsiderar minhas intenções reprodutivas.)



(Francisco Goya - Saturno devorando seus filhos)

domingo, 16 de junho de 2002

Poema para uma sacerdotiza celta.


FILÓ, A FADINHA LÉSBICA


- escarafunche a foto -

(Hilda Hilst- Bufólicas)


Frida Kahlo
A Janela para a Rua

Aquele que vive só, e que contudo deseja de vez em quando se vincular a algo; aquele que, considerando as mudanças do dia, do tempo, do estado de seus negócios e outras coisas, deseja de súbito ver um braço ao qual poderia aferrar-se, não está em condições de viver muito tempo sem uma janela que dê para a rua. E se lhe agrada não desejar nada, e apenas se aproxima da janela como um homem cansado cujo olhar oscila entre o público e o céu, e não quer olhar para fora, e deitou a cabeça um pouco para trás, contudo, apesar de tudo isso, os cavalos lá debaixo acabariam por arrastá-lo em sua caravana de carros e seu tumulto, e assim finalmente na harmonia humana.

(Franz Kafka – Contemplação)
Não dormi. Fiquei até as seis horas jogando mahjongg. Logo, não consegui assitir ao show do Antonio no museu. A Anta e a Mel me recriminaram.

Anta, oh, minha antinha – que promete me denunciar frente a meu amado -, digo-te: não o fará. Pois o farei. Não dormi, esqueci-me de dormir. Por que dormir, às vezes, parece sem sentido (há tanto o que fazer...), sobretudo quando não há quem me deite. Quando não há quem me cubra (não como às vacas, pois assim não se dorme) com seu cobertorzinho. Quente e macio.

sábado, 15 de junho de 2002





Estava procurando a imagem de uma garotinha oriental, e acabei encontrando um site de mangás whose works deal with the themes of
MALE/MALE ROMANTIC RELATIONSHIP & FRIENDSHIP


Com destaque especial para o volume Inchallah (que trash).

Hai Kai bobo para um amor


Noite na praça .
De estrelas e jasmim,
nasce um amor.




Hai Kai sério para meu amor


Noite no jasmineiro.
Sobre o muro,
estrelas perfumadas.



(Yeda Prates Bernis - Caixa de HAI KAI)
casa de anjos.
quem borboletas cospe,
hai kai recebe.


Procurando pouso
Na rua movimentada,
Borboleta aflita


(Edson Kenji Iura)
Essa é a Tantri, futura mãe de meus filhos.
No dia do namorados, ganhei uma orquídea. Ela se parece com o Manacá da Tarsila do Amaral. E, da minha sala, saúda a todos.
Mensagem do Scroeder:

Boli,

Eu sei porque você quis um link para Estampes.

E sei porque não conseguiu.

Elas não podiam ser virtuais, tinham que ser as verdadeiras, ao vivo e em timbres:

No domingo, 9/7 (ou 7/9 como dizem os blogs) foram as peças que eu toquei melhor nas margens plácidas do Rive Doux... (?)

Obrigado pela inspiração telepática!


E eu nem sabia que meu amigo estava tocando, naquele dia, em um concurso!! Continuamos paranormais.
Para a nada extinta mulher-vulcão :


Disfarça e chora.

Chora.
Disfarça e chora.
Aproveita a voz do lamento
que já vem a aurora.
A pessoa que tanto querias,
antes mesmo de raiar o dia,
deixou o ensaio por outra.
Oh, triste senhora.

Disfarça e chora.
Todo pranto tem hora.
E eu vejo seu pranto cair
no momento mais certo.
Olhar, gostar só de longe,
não faz ninguém chegar perto
e o seu pranto, oh, triste senhora,
vai molhar o deserto.

(Cartola – Dalmo Casteli)
Fomos a uma feira japonesa na Igrejinha. Entre makis, yakisobas, sushis e sanduiches árabes (com tabule, uma delícia!), vimos uma menininha de negras madeixas e quimono japonês. Linda! Então decidimos, Tantrielle e eu:

- Nossa filha vai usar quimono. Um coque de bolinha em cada lado da cabeça, amarrado com fitas coloridas. Chinelo de palhinha...
- ... e, quando chegarmos em casa, vamos dependurá-la na janela, com um sininho. Que é pra dar sorte.




Quão famosos meus amigos! Depois de Schroeder, Marcie: nem acabou de se formar, já foi condecorada. Haja medalha!

Já o Rodd, agora é, cariocamente, Rodsch. Parabéns!

quarta-feira, 12 de junho de 2002

Para encher os olhos, de perfumes.



Tarsila do Amaral - Manacá



Resumo do dia: Bleeeeeerghhh!!!
Amanhã ficarei melhor.
Eeeeeehhhhh!!!! Mais uma vez premiado, Schroeder?? Assim você acaba se acostumando.

domingo, 9 de junho de 2002

Tentando entender o que é a melancolia, procurei exemplos de compositores melancólicos na MPB. Lembrei-me de Cartola. Ninguém como ele, em suas músicas, conseguiu expressar tão bem este humor, nem triste/nem alegre, que permeia a vida daqueles que, conscientes de sua impotência frente à passagem do tempo, se acham sem lugar, poder ou função no mundo.



Que Sejam Bem-Vindos

Oh, Deus, não posso entender
porque vamos chorando,
se nossos cicerones são aves cantando.

Materialmente as flores,
deitam aroma sorrindo.
E ouço da natureza: 'Que sejam benvindos!'

O vento, de quando em quando,
num sussurro ameno,
obriga a toda floresta a nos fazer aceno.

É um festival de alegrias,
que me ponho a imaginar,
não sei se devemos rir ou chorar.








Autonomia

É impossível, nesta primavera, eu sei.
É impossível pois longe estarei,
mas pensando em nosso amor, amor sincero.

Ai, se eu tivesse autonomia.
Se eu pudesse gritaria:
‘Não vou, não quero.’

Escravizaram assim um pobre coração.
É necessária a nova abolição,
pra trazer de volta a minha liberdade.

Se eu pudesse brigaria, amor.
Se eu pudesse gritaria, amor:
‘Não vou não quero.’





Senhor!!!

Agora é para valer: minha amiga Marcie virou os homi (policial), e terá um bom motivo para responder SENHOR!! a todo instante. Parabéns, Senhora!
Quem quiser ouvir um bom intérprete de Debussy ao piano - e não tem o privilégio de ser amigo do Schroeder, que toca Jimbo's Lullaby como ninguém - pode experimentar ouvir as gravações do pianista Alexis Weissenberg, por exemplo.


Claude Debussy - Estou aqui, faz um bom tempo, tentando escrever uma pequena resenha impessoal sobre a obra de Debussy para este blog... inútil. Tudo o que escrevo me parece artificial, ou pequeno, pobre. Talvez porque sua obra me toque tão intimamente que desfaz o peso do meu corpo, e converte minha existência em som. Talvez porque sua música me soe tão fantástica... Fantástica; excelente palavra para descrever a obra de Debussy, e sua tentativa de ultrapassar o legado do romantismo na tradição musical francesa. Envolvido com as propostas estéticas de artistas como Mallarmé, Baudelaire, Verlaine, Camille Claudel, Poe, Debussy criou imagens sonoras de mundos exóticos e fantásticos, condensando sensações em sons. Afirmando-se veementemente como músico francês (opondo-se à onda wagneriana que inundava as salas de concerto), transformou sua obra numa das mais idílicas expressões do cosmopolitanismo parisiense. Incorporou à escrita musical ocidental sons orientais, como da música japonesa e das ilhas do pacífico. Buscou temas exóticos e sensoriais, como as estórias de ninfas, de faunos gregos e de casais da mitologia indiana. Buscando novas perspectivas musicais, e a criação de uma ambiência sonora encantada mas não sentimentalista ou caricata, Debussy absorveu com seu ouvido francês toda música, literatura, escultura, toda a arte que encontrou em seus colegas, e que viu nas exposições mundiais de Paris; mas não tentou reproduzir tais elementos estéticos, mas sim, utilizar seus recursos na criação de uma arte própria... tão fantástica quanto as viagens sensoriais e imaginárias que experimentamos ao descansar os olhos sobre estampas postais que representam lugares distantes e desconhecidos. Ignotos.

Na falta de um link para Estampes - minha preferida -, ouça o prelúdio A Catedral Submersa

sexta-feira, 7 de junho de 2002

INCRÍVEL




I am linus

Which Peanuts Character Are You Quiz


Anti-tabagista

Estava só. No apartamento do primeiro andar. Lia - sobre Kafka. A dada altura, quando seu pensamento já se descolava das páginas e, em pensamento, travava grandes diálogos teóricos, por hábito (pois tinha o hábito este de, quando pensava, andar pelo apartamento, sem rumo ), chegou-se à janela. Viu. Não pretendia. Mas viu. Apenas. O vizinho – que ele sempre recriminava por insistir em fumar na janela, na vã esperança de que os pais nada desconfiassem – comprava maconha. Sentou-se. Voltou a ler.

Mas, a cabeça ainda lhe doía. Já havia lhe doido o dia todo como prenúncio de uma nascente enxaqueca, ou como resultado de sua ansiedade – ele detestava essa ansiedade de causa desconhecida que lhe assaltara parte do humor. Ou por ambos.

Lembrou-se. No armário. Uma caixa de cigarrilhas. Sem maiores moralismos, acendeu uma. Fumou.

Pensava – agora já reclinado em sua cadeira, com o livro e seus assuntos já esquecidos. Como era possível alguém aliviar a tensão fumando? Coisa horrível aquela! Ardeu-lhe a boca. Fedeu-lhe o cabelo.

Com ares de autonomia, soltava baforadas pela boca – mesmo porque, havia engolido fumaça em suas tentativas de tragar.Desistiu. Apagou a cigarrilha. Jogou-a fora.

A casa toda já cheirava mal. Ele cheirava mal. Mas, pelo menos era cigarrilha, que não lhe dava alergia, e ainda tinha uma leve nota agradável no cheiro.

Seus irmãos estavam por chegar. A casa fedia. Acendeu um incenso – artifício inútil que criticava em todo maconheiro (com o perdão da palavra). Novamente andando pela casa, como se estivesse a filosofar, pensou justificativas para aquele fedor.

- Fumei mesmo, e o que tem isso? – assim teria que arcar com as repreensões.

- Esse cheiro? Foi a simpatia que fiz (simpatia de segurar namorado) – mas ali não havia sapos... e muito menos se usa costurar uma cigarrilha na boca de um sapo! Quanto mais numa casa de ecologistas e anti-tabagistas.

- Colocaram fogo no lote! – talvez a alternativa mais verossímil para seus irmãos.

Para o amargo da boca, tomou xarope de mel, guaco e própolis.Tomou de novo – esse xarope é gostoso mesmo, né? Tomou mais ainda. Não adiantou. A boca amargava. O cabelo fedia. Sua roupa cheirava mal. O estômago cheio de fumaça.

Sentou-se. Pôs-se a escrever. Pensou: como alguém pode relaxar fumando?

Misteriosamente, sua cabeça parou de doer.


E nem é preciso dizer que esse escrito idiota – sem estilo, sem porquê e sem noção – foi nascido da incapacidade da confissão direta e objetiva dos fatos. É autobiográfico. E o autor continua anti-tabagista.