terça-feira, 9 de agosto de 2005

(A Estrada - Cézanne - 1871)


É possível imaginar alguém escrevendo uma monografia do azul, desde o azul denso, de cera, das pinturas murais de Pompéia, até Chardin, e, mais longe, até Cézanne: que biografia!

(Cartas sobre Cézanne - Rainer Maria Rilke)

domingo, 7 de agosto de 2005



A vida é o que você vê nos olhos dos outros; a vida é o que as pessoas aprendem e, tendo aprendido, nunca, embora o tentem esconder, deixam de estar conscientes de - do quê? De que a vida é assim, ao que parece.

(Um romance não escrito - Virginia Woolf)

sexta-feira, 5 de agosto de 2005



- Linhas e cores quase me persuadem de que também posso ser heróico, eu, que faço frases com facilidade, e depressa sou seduzido, amo o que vem a seguir, e não posso fechar meu punho, mas vacilo debilmente fazendo frases, conforme minhas circunstâncias. Agora, através da minha própria fragilidade, recupero o que ele foi para mim: o meu oposto.

(As ondas – Virginia Woolf)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

Lista de Broca Oculta



1 – René: aberto a emoções! Emoções positivas, tipo: bombom de bacuri, doce de cupuaçu, sorvete ou torta de mangaba, um araçá azul. Um beijinho doce, que foi ele quem trouxe, de longe pra mim...
2 – Dani: Coisinhas gostosinhas... Hummm... Doce, né? Chocolates, tipo assim... (risos)
3 – Raquel: Doces suaves (ou seja, não muito “pesados”) – Isso não quer dizer diet
4 – Alice: Opção 1: Torta de maçã que o Zé Antônio faz. (Quem me tirou encomende a ele)
Opção 2: rondelli de ricota com nozes
Opção 3: eu não quero arroz, feijão, jiló, chocolate, panetone
Opção 4: o arroz em pessoa!
5 – Regina: Cesta básica DIET: gelatina (exceto de maracujá); barra de cereais SEM chocolate; frutas: abacaxi, maçã, pêra, pêssego, laranja (exceto serra d’água); capuccino. Clight;
6 – Daniel: Bombons (bacuri, cupuaçu)
Trufas (todas)
Doces (todos)
Sorvetes (todos)
7 – Juliana: Surpreendam-me!
8 – Patrick: Bombons de licor da Lalka
Pote de sorvete de flocos com cobertura
9 – Letícia: Doce, tipo chocolate. Sorvete também pode. Ah!, uma coisa boa, né?


Faltam se manifestar Luana, Patrícia, Cibele, Tatiana, Márcia, Rodrigo, Tiago.

Tiago é um Broca master. Ele gosta de tudo que é ingerível, mesmo que não seja muito digerível.
Patrícia: Osupermercado inteiro, um restaurante inteiro, uma pizzaria só para mim... Aí que fome... A fabrica da Kibon... Aí meu deus!!!! Brincadeira!
Vamos lá:1)Sushis e afins....2)Chocolates, chocolates, chocolates....3)Todas as coisas gostosas... petit gauteauSei lá pessoas vocês me conhecem...

Tatiana: Nuttella toda hora levemente adocicada
Cibele: Balas de licor com chocolate da Lalka. Quadradinhos finos õu trufas de café da Lalka. Doces de Protugal.

domingo, 25 de julho de 2004

O autor desse blog se auto-destruirá em alguns minutos. O estômago roda o drink de ontem, e a cabeça, turva do coração inquieto, aguarda. Tudo tem fim.

quinta-feira, 10 de junho de 2004



(A boa fortuna - Caravaggio)


- Cadê o toicinho que tava aqui??
Sabendo cantar Palavras você poderá, ao menos, se fazer de besta quando um cabeludo gritar no meio do show:

- Toca Raúúúúúúúúl...





Nesse dia dos namorados, seja Raúl
seja Cortez




Aprenda com o mestre da sedução 101 frases de amor.

- Você é uma frase de amor começada...
- Sua voz é como violinos e rosas...
- Se você não existisse, teria que ser inventada...

Escute

Palavras, palavras, palavras


(Cupido - Caravagio)

quinta-feira, 3 de junho de 2004



(A difícil partida - Cícero Dias)


Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores

Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.

(Árias Pequenas. Para Bandolim. - Hilda Hilst)

domingo, 7 de março de 2004

Alguém já viu a Mariana Álcoolcanforado esperando e-mail? Eu já.

Certas pessoas canforadas tinham me prometido um reveillon em fevereiro, para comemorar o real início do ano (pois no Brasil o ano só começa depois do Carnaval), mas acabaram por dar no pé. Tratantes. Eu queria ver a Mariana Álcoolcanforado ébria e dançando...




Aêêêhhh!! Olhem só que vou me gabar, e muito. Pois agora é minha hora e minha vez. Passei, acabou, terminou, desmonstrei... defendi. Nada mais de mestrado na minha vida, que maraviha!!!! Foram 22 meses de sufoco, mas deu tudo certo. Teve até público... a Regina e o meu Lindus foram, e cada um teve uma impressão diferente acerca das reações da banca - uma achou tudo um terrorismo intelectual, o outro viu cenas de Super-Mães com tintas de mulheres apaixonadas. Já eu, nem sei - também, depois da tensão de quatro horas e meia de defesa, a gente acaba perdendo o rumo. Só sei que deu certo, e tirei FÉRIAS - por tempo limitado, é verdade, já que o doutorado começou em março. Mas valeram as rezas, prantos, e tudo mais.

Agora, tanto em casa, como no trabalho, já estão me chamando de mestre dos magros... tsc, tsc, tsc. Será que gostei dessa nova identidade??


terça-feira, 20 de janeiro de 2004



pois bem... estou de férias do bloguiu. de férias. numa praia de nudismo onde mãos ávidas acariciam mouses repetindo intensamente: sou bloguento mas sou limpinho. arre, quantos ciúmes nos corações alheios. saibam que por aqui está tudo bem, com meu bem também. mas de férias, nécas. labuta, labuta, labuta - e quase mudo de profissão; já que a confissão em nada mudaria.

e se tudo anda bem, ainda que devagarinho, devo umas pras rezadeiras e benzedeiras internáuticas, amigos e muito mais... que continuem puxando o terço, que o bonde tá difícil de empurrar! e como diz o dito:

falei???? (bashô zé pequeno, mutações malacas)

no mais, é feliz ano novo pra todo mundo...

... e até mais.

quinta-feira, 20 de novembro de 2003

estava chovendo, quando chegamos ao cinema. o dia havia sido tranquilo - muita leitura e um cochilo no sofá. pouco sabia sobre o que viria a assistir. havia somente a expectativa de uma tarde linda, fria e chuvosa, com quem mais amo...

...comecei a postar esse comentário há alguns dias, quando previa uma melhora na qualidade da minha vida recente. o que eu não poderia jamais imaginar era que aquele momento de felicidade seria apenas o prenúncio de mais uma onda de escuridão completa. as janelas se fecharam novamente, e eu fiquei preso aqui, tentando decidir a vida. ainda tenho muito pelo que lutar: amigos, amor, família, e um resto de apreço por meu trabalho. ficarei mais um tempo longe - uma semana, duas, não sei -, mas voltarei com uma solução para mais esse problema. uma solução definitiva, pelo menos até a próxima mudança dos ventos. rezem por mim!

quinta-feira, 6 de novembro de 2003

acho que vi a linda Jônia...
e não é que estou trabalhando, e vou continuar até às 7:00? eu te disse, eu te disse, eu te disse...

terça-feira, 28 de outubro de 2003

conheci um poeta, com versando com um poeta – e um figurinista acompanhando. fiquei ali, olhando como se ali não estivesse. quase não falando. não era minha vez – mas a felicidade, essa sim era minha. eu vi um poeta falando com um ator, outro poeta, e um figurinista. e me escondi na casa que o álcool fez pra mim. eu vi, fui visto - mas era dispensável. o que queria, mesmo, era não estar ali. mas ficar totalmente recolhido no invisível. e melhor me deleitar com a felicidade do poeta e do ator, que conversavam com o poeta e o figurinista.

indispensável era estar – ou ser – felicidade para alguém.
de repente, descobri que as pessoas se querem escritoras ou poetas. querem jorrar textos não por ofício, ou amor à forma, à letra, à arte, à vida, ou ao que seja. escrevem por amor a si mesmas. e por desejar, do mundo, que mais amor recaia sobre si. então, me deixem – que não sou nada disso não. não sou poeta, não sou escritor, não sou gente que quer o amor do mundo. não escrevo por amor – às palavras, às coisas, à vida. mesmo que escrever faça parte de meu ofício, não o faço por arte ou atenção, mas pela necessidade. necessidade de sobreviver. necessidade de ser alguém, que faz alguma coisa, qualquer. por isso, nem sequer escrevo. só faço o que me dá um pouco de prazer, o que me faz ser alguém. mesmo que sem certeza alguma.

sexta-feira, 24 de outubro de 2003

PS: tenho deixado de fazer meus pequenos relatos de viagem - que tanto gosto. Estive no Rio, Belém do Pará, Catas Altas, mas não registrei nada... Pura falta de tempo. Mas, só pra constar, estou do Rio, de novo!!! Meu fim de semana promete: Antônio Cícero, Ana Cristina C., arte africana, um possível concerto no Municipal, muitos amigos, e meu lindin...
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

(Alberto Caeiro)



De repente, minha janela fechou... e assim ficou por muito tempo. Ausente estive de mim, de minha casa, do mundo. Há tempos, não tenho tempo de parar, abrir a janela, e observar a vida. Trabalho, trabalho muito. 9 horas, 18 horas, 24 horas, até uma da manhã... e sombra pouco tempo para fazer, e falar. Desculpem-me se a janela está fechada - entendam como alguém que saiu de férias, mas volta já.

terça-feira, 23 de setembro de 2003

a fulô tá fula com os fulanos que fizeram feio fugiram e ela ficou




é uma barbaridade o que se anda fazendo

com essa nêga fulô!

nem que ela gritasse

esperneasse

chorasse

alguém escutaria

de tão sozinha

essa nêga fulô

sexta-feira, 19 de setembro de 2003



esse mês, temos uns bolinhos especiais - um certo Lindus fez aniversário junto com uma Fulô muito das GH

a festa foi ótima... basta olhar lá no blog deles pra saber

e agora, vai ser a vez da Jhu-Lai Lama se atolar em Macacos

V.I.V.A.S
Outro dia, recebi um recado: - esse René não atualiza mais o blog... ficou preguiçoso!!!
Éeeeh... tinha que ser uma certa Mel-issa prá falar uma coisas dessas prum pobre blogueiro que anda trabalhando mais que jumento saltimbanco!!

Bom, para que eu não continuasse tão em dívida com essa menina, postei meu texto sobre o Cassino, que, na verdade, faz parte do trabalhão que anda me ocupando muito, e muito.

Ando com saudades de ler os blogs amigos, de encontrar os amigos, e escrever...



Visto de longe, parecia flutuar... Erguido sobre o promontório, era uma enorme caixa retangular acoplada a uma caixa oval. Ao seu redor, um jardim colorido havia sido recortado pelas bifurcações de um caminho tão sinuoso quanto um pensamento distraído. Mais de perto, podia-se ver, através da fachada de vidro, os movimentos no seu interior. À porta, sob uma marquise de inesperado recorte, havia uma imensa escultura, um corpo nu de mulher. Depois dela, um amplo salão – recheado com colunas de alumínio, mesas de jogo, roletas, fichas, taças e muita gente – confirmava as expectativas: era o edifício sonhado por JK, projetado por Niemeyer, decorado pelo paisagismo de Burle Marx e pela escultura de Zamoyski. Era o Cassino da Pampulha, que, nos três anos que separaram sua criação da proibição do jogo no Brasil, em 1946, revolucionou os hábitos belorizontinos quase tanto quanto modernizou a arte de construir.
Dentre aquela gente eufórica que circulava pelo salão, uns se distraiam contemplando a face esquerda do edifício (aquela película de vidro) a se abrir em uma ampla vista para o lago; amplidão que se refletia na parede oposta, coberta de espelhos rosados. Outros, subindo ou descendo as rampas de alabastro que ligavam o salão ao mezanino, repetiam o espanto do prefeito da cidade: Nunca havia visto um edifício com rampa, em lugar de uma escada.
Seguindo pela rampa que ladeava os espelhos, o som da música aumentava, ecoando instrumentos de orquestra, vozes de renomados cantores e passos double de vedetes. Ali em frente, o corredor se abria numa sala oval: o grill-room, todo transparente, todo de vidro. Inclusive o chão, que brilhava luzes coloridas sob os pés de quem dançava. Acima da pista de dança, o estratégico recorte do teto produzia um impressionante efeito acústico: os sons da música executada no palco, ao passar por ali, tornava-se mais potente, sendo novamente reduzido ao atingir as mesas, do outro lado do salão. Nas mesas, outras inovações da época eram servidas: o filet tournedor e a maionese, preparados pelo chef Lucas. Já o palco, em forma de feijão, tinha o moderno requinte de ser, também, um elevador capaz de conduzir os artistas do grill-room ao bar do primeiro piso, ou aos camarins subterrâneos.
Além da festa, além do luxo, esse cenário da modernidade tinha, para JK, um sentido político: o de ligar a utopia dos novos tempos à visão daqueles que, há menos de 50 anos, haviam criado Belo Horizonte. O Cassino da Pampulha seria, então, a versão concreta e renovada de um projeto nunca realizado pela Comissão Construtora da Nova Capital: o Cassino do Parque Municipal.


terça-feira, 9 de setembro de 2003

VOZ

Orelha, ouvido, labirinto:
perdida em mim a voz de outro ecoa.
Minto:
perversamente sou-a.


(Antônio Cícero - Guardar)

sexta-feira, 5 de setembro de 2003

Pois passara noites e noites a sonhar
que não se conseguia acabar de vestir
nunca

(Adília Lopes - Maria Cristina Martins)



E passei dias e dias esperando
todo trabalho findar
para as tardes e tardes seguintes
ir ao cinema tomar sorvete namorar

Quem me quer disse
bem
Meu querer disse
sim
Minha vida arrematou
não

que a história não é bem assim


quinta-feira, 14 de agosto de 2003

E tem mais: pau-no-cu de professores universitários que retiram seus textos do xerox às vesperas das provas, quando a biblioteca está em greve.

Fédapuuuta.

- hoje, a minha pessoa se dá ao direito de perder a
classe nossa de todo dia -
Só para cons(ta)tar:

De repente, uma vontade louca: não entregar o trabalho final, e viver, como artista ou viajante, de paisagens tropicais e dinheiro público.

Quem sabe, depois disso, eu volto?

Té mais.

segunda-feira, 21 de abril de 2003

II

E circulando lenta, a idéia, Túlio,
Foi se fazendo matéria no meu sangue.
A obsessão do tempo, o sedimento
Palpável, teu rosto sobre a idéia

Foi nascendo

E te sonhei na imensidão da noite
Como os irmãos no sonho se imaginam:
Jungidos, permanentes, necessários
E amantes, se assim for preciso.

Tocar em ti. Recriar castidade
Não me sabendo casta, ser voragem
Ser tua, e conhecendo

Ser extensão do mar na tua viagem.


(Hilda Hilst - Moderato Cantabile, em Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)

quinta-feira, 17 de abril de 2003

Homenagem
aos homens que agem


Tarsila não pinta mais
Com verde Paris
Pinta com Verde
Cataguases

Os Andrades
Não escrevem mais
Com terra roxa
NÃO!
Escrevem com tinta Verde
Cataguases

Brecheret
Não esculpe mais
Complastilhina
Modela o Brasil
Com barro Verde
Cataguases

Villa Lobos
Não compõe mais
Com dissonâncias
De estravisnqui
Nunca!
Ele é a mina Verde
Cataguases

Todos nós
Somos rapazes
Muito capazes
De ir ver de
Forde Verde
Os azes
De Cataguases

(Marioswald - Oswaldario dos Andrades)
Nascido


Fez-me calmo minha mãe
meu pai, um filho seu
o tempo me fez chuvoso
– novembro –,
e aguardo
ser


O Abraço - Alfredo Ceschiatti


durante um ano, inteiro, comemoramos o espanto: estamos juntos. juntos e sentindo que nada poderia ser tão bom, tão acertado, tão necessário. e eu não esperava... de onde vem tanto amor, tanta alegria? como podem se casar tão bem dois corpos e duas vontades? de onde vem tudo isso? é absurdo, é incomensurável, é real. um ano de namoro, e queremos ainda mais...

... e eu, particularmente, quero sempre a emoção de viver do deslumbre e desta perfeita espiral


na curva do umbigo seu
um meu desejo
se escondeu.


hoje me descobro parco e tosco; sua resposta é certeira, me desarma


Película


Você entrou
Pediu licença
E agora é parte.
Usamos os mesmos óculos
e não digo que enxergamos
da mesma forma.
Suas lentes são mais limpas,
mais claras.
Mas você entrou,
e agora já não precisa pedir licença.
Meu coração é aberto.
Minha poesia tenta ser.
E as chaves lá de casa você já tem.
Você agora é parte
de coisas que eu não imaginava.
Como estar com sua blusa,
dividir os copos,
a escova de dentes
e um chuveiro feliz.
Como cantar juntos
músicas de amor
de vozes primorosas.
Desde a sua entrada,
minha vida é duas
e sua.
Dividimos os anjos,
as estrelas e as angústias.
Antes de deitarmos,
olhamos para o céu
da janela grande
e rezamos.
E você entra.
Faz parte.
E eu,
feliz como se entendesse a vida,
a poesia e o amor,
definitivamente
não quero mais licenças.

(poema do meu Lindus)


domingo, 6 de abril de 2003




E agora, um bolino especial para um ser de cuja pele se fazem as adargas; parece-se com vacas e muito mais com mulas, o rabo é de um dedo, não tem cornos, tem uma tromba de comprimento de um palmo que encolhe e estende. Nada e mergulha muito, mas em mergulhando logo toma fundo, e andando por ele sae em outra parte (segundo o padre Fernão Cardim, lá pelos 1600), a nossa querida


Jeanne Milde


Escultora e educadora, Jeanne Louise Milde nasceu em Bruxelas (Bélgica), em 1900. Em 1929, veio para o Brasil como membro da Missão Pedagógica Européia. Esta Missão, constituída por ilustres educadores europeus como a psicóloga Helena Antipoff, foi convidada pelo presidente de Minas Gerais, Antônio Carlos de Andrada, com o objetivo de impulsionar a Reforma do Ensino Primário e Normal do estado. Em Belo Horizonte, Milde lecionou na Escola de Aperfeiçoamento de professoras primárias, ensinando modelagem, pintura e história da arte na disciplina de Trabalhos Manuais. Parte das esculturas que ali criou foi destinada a ornamentar espaços públicos das cidades mineiras, como parques e praças. Produziu também obras para uso privado, como peças para cemitérios, jardins e residências. Entre suas obras mais conhecidas estão as “Adolecentes” (1937), esta modelagem em gesso que a artista desejava fundir em bronze. Nesta obra percebe-se a inserção de Milde em uma tradição escultórica que une aspectos acadêmicos e modernos. Milde foi a primeira artista atuante em Belo Horizonte a ter uma formação acadêmica, o que se evidencia na forma clássica que confere ao corpo humano. Por outro lado, sua escultura também foi influenciada por estilos artísticos de caráter moderno (a exemplo do simbolismo), o que resultou na sua busca de simplificação das formas e de uma liberdade expressiva. Note-se que, como os escultores simbolistas da Europa, Milde dá à base desta escultura um aspecto inacabado. Este recurso aumenta a expressividade da obra, além de significar uma subversão da estética acadêmica (que buscava a construção de esculturas com acabamento refinado). No conjunto de sua obra, esta modelagem é representante do interesse da artista em produzir temas e figuras femininos. A partir da renovação modernista dos anos 40, com a chegada em Belo Horizonte de Alberto da Veiga Guignard e a construção do complexo da Pampulha, Milde diminuiu sua participação na cultura mineira, pois passou a ser considerada tradicionalista devido à sua ligação com artistas acadêmicos. Ainda assim, a artista ficou conhecida por esculpir obras com temática feminina, e em suportes variados, como bronze, gesso e madeira. Faleceu em Belo Horizonte (MG), em 1997.


Canto de Oxum


Nhem-nhem-nhem
Nhem-nhem-nhem-xorodô
Nhem-nhem-nhem-xorodô
É o mar, é o mar
Fé-fé xorodô...


Xangô andava em guerra,
Vencia toda a terra,
Tinha ao seu lado Inhansã
Pra lhe ajudar.


Oxum era rainha,
Na mão direita tinha
O seu espelho onde vivia
A se mirar.


Quando Xangô voltou,
O povo celebrou.
Teve uma festa que
Ninguém mais esqueceu.


Tão linda Oxum entrou,
Que veio o rei Xangô
E a colocou no trono
Esquerdo ao lado seu.


Inhansã apaixonada
Cravou a sua espada
No lugar vago que era
O trono da traição.


Chamou um temporal
E no pavor geral
Correu dali gritando
A sua maldição.


(Toquinho/Vinícius)



Quando fico assim limitado
Sem poder fazer
Mas querer
Fico doido
Preso
Quero sair
Quero poder sair
E ser somente ser quem sou




Quando o crime acontece
como a chuva que cai



Como alguém que chega ao balcão com uma carta importante após o
horário de atendimento: o balcão está fechado. Como alguém que quer
prevenir a cidade contra uma inundação, mas fala uma outra língua: ele
não é compreendido. Como um mendigo que bate pela quinta vez numa
porta onde já recebeu algo quatro vezes: pela quinta vez tem fome.
Como alguém cujo sangue flui de uma ferida e que espera pelo médico:
seu sangue continua caindo.


Assim chegamos e relatamos que se cometem crimes contra nós.


Quando pela primeira vez foi relatado que nossos amigos estavam sendo
mortos, houve um grito de horror. Centenas foram mortos então. Mas
quando milhares foram mortos e a matança era sem fim, o silêncio tomou
conta de tudo.


Quando o crime acontece como a chuva que cai, ninguém mais grita
“alto!”.


Quando as maldades se multiplicam, tornam-se invisíveis.
Quando os sofrimentos se tornam insuportáveis, não se ouvem mais os
gritos.
Também os gritos caem como a chuva de verão.


(Bertolt Brecht)

segunda-feira, 10 de março de 2003



E feliz aniversário atrasado para a Carol, a Ana H. e para a Marcie!!!!!!
SOB O CHUVEIRO AMAR


Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo - é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?


(Carlos Drummond de Andrade - O amor natural)

vento frio


este vento,
de úmido e frio, me traz
a melancolia
a e ausência,
de outra vida
e de outro lugar

com este vazio,
me faço completo.





... estou apaixonado pela Julianne Moore...
Para a direita e para a esquerda, tufos de plantas, dourados e rubros, resplandeciam, ígneos, parecendo mesmo queimados pelo calor. Na margem oposta, os salgueiros choravam o lamento eterno, os cabelos a envolver-lhes os ombros. O rio refletia o que bem quisesse de céu e ponte e árvore flamejante, e, quando o universitário atravessou, remando, os reflexos, eles se extinguiram novamente, como se ele jamais tivesse existido. Qualquer um podia sentar-se ali horas a fio, imerso em pensamentos. O pensamento – para chamá-lo por nome mais imponente que o merecido – havia lançado sua linha na correnteza. Minuto após minuto, ela oscilou aqui e ali entre os reflexos e as ervas silvestres, ao sabor da água, que a erguia e a afundava, até (vocês conhecem bem aquele puxãozinho) sentir a súbita consolidação de uma idéia na ponta da linha: então, foi só puxá-la com cautela e expô-la cuidadosamente. Estendida na grama, quão insignificante pareceu esse meu pensamento, o tipo de peixe que o bom pescador devolve à água para que possa engordar e merecer, um dia, ser preparado e comido. (Virginia Woolf - Um teto todo seu)

Confesso o desprezível ciúme que me abraçou estes dias, apertando o peito ao ver o nome do meu mais secreto prazer na boca de todos. Virginia Woolf. Mais desprezível me sinto quando percebo que a culpa desse renascimento da minha autora predileta se deve ao mais belo filme que assisti recentemente: As Horas. Se este filme foi capaz de nos trazer novamente a vontade de ler Virginia Woolf isto se deve, acredito, menos por haver sido construído a partir de referências à vida e obra desta escritora, que por uma característica que os une. O filme, como a escrita de Virginia Woolf, envolve-nos como o som que vem de uma bem conduzida orquestra. Uma melodia que nos capta o pensamento, que nos retira do transcorrer do tempo que é comum a todos e nos lança em seu próprio tempo, em seu próprio andamento, para nos conduzir através de uma seqüência imagens que cria. Imagens habituais e cotidianas mas que, não esperávamos!, são pegas em flagrantes de íntima beleza. No filme, tudo é consonância - fotografia, texto, atuações e trilha. Mais que grandes nomes, temos ali unidade e equilíbrio; ou seja, beleza. Uma beleza à altura da obra de Virgínia Woolf. Uma beleza que nos pega pela mão, e nos conduz suavemente por onde ela deseja que passemos. Uma beleza de suavidade e tensão que faz dos minutos, que faria das horas, um instante apenas de total contemplação.

E assim é a obra de Virginia Woolf. O tempo que narra não é o tempo do mundo, nem mesmo o da história. É o tempo que transcorre no interior que cada um de seus personagens; tempos íntimos e pessoais que, às vezes, se interceptam ou se chocam. Os acontecimentos que dão andamento ao que se conta não são palpáveis ou visíveis ao observador comum. São as pequenas transformações que cada um sofre com o passar do tempo. Não do tempo que nos marca a carne e nos deteriora exteriormente. Mas aquele que altera pouco a pouco os ânimos e paixões dos personagens, mudando-os em consonância ou dissonância com a forma como são vistos, de fora, pelos outros; com as posições e os códigos de um mundo que, em vão, tenta controlá-los. Resulta disto um tipo inusitado de narração, que é antes uma grande cadeia de descrições. Para contar uma estória, Woolf apresenta-nos uma bolha de sabão. Na superfície da bolha, nos faz ver um reflexo, uma imagem de uma pequena parcela do mundo que logo se explode dando lugar a outra bolha, e outra imagem. E desta, faz brotar outra, e mais outra, numa infinita e encantadora sucessão.





Agora, porém, era verão. Os pássaros haviam-na despertado. Como cantavam! – atacando a madrugada assim como uma porção de meninos-cantores atacam uma trota gelada. Obrigada a escutar, estendera a mão para sua leitura favorita – um compêndio de História – e gastara as horas, entre as três e as cinco, pensando nos bosques de rododendros em Picadilly, quando o continente inteiro, conforme ela entendia, ainda não dividido por um canal, era um só, habitado por monstros com corpo de elefante, pescoço de foca, erguendo-se lentamente e, supunha ela, latindo; o iguanodonte, o mamute e o mastodonte, dos quais, presumivelmente, descendemos, refletia, abrindo bruscamente a janela.

Levou cinco segundos no tempo real, mas muito mais no tempo imaginário, para distinguir Grace, que chegava com a louça azul sobre uma bandeja, do monstro grunhidor coberto de couro, que, quando a porta se abriu, se achava na iminência de derrubar uma árvore na penumbra verde, cheia de vapor. Naturalmente, sobressaltou-se quando Grace depôs a bandeja e disse: - Bom dia, madame. – E pensou: “Ela é doida”, ao sentir pousar em seu rosto aquele olhar vago, dirigido em parte à fera no charco, em parte à criada de vestido estampado e avental branco.
(Virginia Woolf - Entre os Atos)

quinta-feira, 6 de março de 2003

À luz clara da manhã, postava-se diante do espelho e via-se. Via a si mesmo e à nudez de seu corpo, inerte por dentre as vestes, como quem via um ponto negro no papel. Diante do espelho, era outro. Era apenas a imagem-miragem de um ser, corpóreo e visível. Mas não sentia o corpo. Por alguns instantes a materialidade de sua vida parecia se dissolver no desejo de ser ninguém. Ou concentrar-se no centro mudo de sua ausência de dor e entusiasmo, no seu ponto negro. Não tinha vontade além da vontade de não ser, de não ter, e, principalmente, de não haver sido. Tanto tempo empregado em vão. Tudo passado. E nada podia ressuscitar-lhe do momento morto do agora. Da sensação de haver falhado. E da obrigação de seguir em frente, mesmo sem vontade, em um caminho que não era o seu. Havia se perdido em algum ponto, em algum momento, como ali sentia perderem-se as formas de seu corpo na luz que explodia do espelho. Estava mudo, sem ter o que contar. Não queria mais ser.

sábado, 1 de março de 2003

Ziriguidum.... o coração ainda bate
apertado
Tenho o dom de combinar fragmentos de qualquer coisa para formar outras, que por sua vez formam outras e outras. Nesse trabalho gasto o tempo com gosto.

(Adélia Prado - Os componentes da banda)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2003

Dia do Plágio

G.H., isso vai em cheio no meu espanto...

De uma vez por todas
1º eu tenho o ar terrivelmente preocupado de demonstrar que eu não penso e que me dou conta disto, que tenho o cérebro fraco, mas eu penso que todos os homens têm primeiro o cérebro fraco - e em seguida que mais vale ser fraco, que mais vale estar em um estado de abdicação perpétua em face do espírito da gente. É um melhor estado para o homem, é um estado mais normal, mais adaptado a nosso sinistro estado de homens, a esta sinistra pretensão dos homens de querer.
Eu tenho a imaginação estupefata.



(Antonin Artaud, Linguagem e vida)
Lindus, só me cabe copiá-lo:

Vou escrever aberto
Sem papas na linguagem
Sem receios esferográficos
e gana de reconhecimento

Vou ver se sento
Olho pro vento
E enxergo o mosquito
adestrado
Que voou daqui pra aí
Para dizer:


Fica comigo


Sonhe com os anjos, pois daqui, mesmo de longe, te amo muito. E, em pensamento, visito seus sonhos para abraçar-lhe o coração.
Beijos.

domingo, 23 de fevereiro de 2003

Lentamente volto. Com muita falta de todos, muita vontade de viver de novo, mas muito ainda que fazer.
queria ser outro ...... outro corpo ...... outra.força ...... outra.beleza ...... queira.ser.melhor ...... melhor.dizendo,.irresistível ...... queria.seduzir ....... queria.em.si.aquela.beleza ...... aquele.sorriso.que.aquece ...... queria.aquele.corpo ...... queria melhor dito é todo aquele corpo ...... queria.aquilo ...... menos em si, que para si ...... queria.conquistar, ...... arrebatar.a.perfeição ...... daquele.corpo ...... daquela.voz ...... daqueles.olhos ...... que.deslocam.a.alma ...... que trituram o corpo ...... que.dele.escarnecem. ...... queria ter ...... e era impossível. ...... impossível mesmo era não ter ...... mas não tinha. ...... então lhe doía ...... aguda solidão ...... e fria impotência. ...... era.pequeno ...... errado ...... torto ...... desviante. ...... não.tinha.aquela.perfeição ...... aquele.corpo ...... aquele.sorriso ...... aquele.momento ...... aquele.ar. ...... não.era.perfeito ...... não.era.capaz ...... não.era.visto ...... não.era.querido. ...... impossível.era ...... de.ser.amado ...... de.ter ...... aquele.braço ...... aquele.abraço ...... aquele.sorriso. ...... não.podia.viver.assim ...... não.se.ama.assim ...... não.há.amor.assim ...... tanta.escuridão.assim ...... tanta dor assim ...... tanta impossibilidade assim ...... não.há.perfeição.

.............................. e aquele homem lhe fugia, impossível, para o corpo de uma mulher.

sábado, 4 de janeiro de 2003



Parabéns para a Ciba, a Tantri e para a Mel também!!

Sejam felizes!

domingo, 29 de dezembro de 2002

Artes Liberais


não sou prático,
canudo tenho.
acadêmico,
meu bisturi
exato não mostra
o pulso do
vivo
coração.



Já que o assunto me cerca, e inútil é tentar fugir, vamos direto a ele... É fim de ano. Época de saldos e balanços. Até aí, tudo bem. Pois, e o ditado como é? Festa acabada músicos a pé.


Feliz Natal e

que em 2003 o sucesso te acompanhe

em todas

as seleções, pesquisas, qualificações, dissertações, teses, bancas, defesas,

e em todos

os trabalhos, papers, contatos, congressos, seminários, etc.


Este foi uma muito simpático e sarcástico e-mail que recebi. Neurei. Será que a vida vai acabar em mestrado. Pizza seria melhor. Monstrei. O pior é o sentimento de que todo este trabalho talvez seja vão. Alguém pode fazê-lo melhor. Ou não fazê-lo. Afinal, a quem isso interessa? A mim. E isto só já basta como justificativa... mas eu quero mais. Quero (e me esforço para) que outros também se interessem. Há quem tenha gostado do meu trabalho. Ou de fragmentos dele. E isto me ajuda prosseguir. Que tudo dê certo, e a dissertação seja um tesão. Quanto ao monstrado, fica o protesto - sob a forma do texto abaixo, que a Miriam me mandou. As coisas não precisam ser assim... vivas à dissertação-tesão, e à minha próxima libertação!


UMA TESE É UMA TESE


Sabe tese, de faculdade? Aquela que defendem? Com unhas e dentes? É dessa tese que eu estou falando. Você deve conhecer pelo menos uma pessoa que já defendeu uma tese. Ou esteja defendendo. Sim, uma tese é defendida. Ela é feita para ser atacada pela banca, que são aquelas pessoas que gostam de botar banca.
As teses são todas maravilhosas. Em tese. Você acompanha uma pessoa meses, anos, séculos, defendendo uma tese. Palpitantes assuntos. Tem tese que não acaba nunca, que acompanha o elemento para a velhice. Tem até teses pós-morte. O mais interessante na tese é que, quando nos contam, são maravilhosas, intrigantes. A gente fica curiosa, acompanha o sofrimento do autor, anos a fio. Aí ele publica, te dá uma cópia e é sempre – sempre – uma decepção.
Em tese. Impossível ler uma tese de cabo a rabo. São chatíssimas. É uma pena que as teses sejam escritas apenas para o julgamento da banca circunspecta, sisuda e compenetrada em si mesma. E nós? Sim, porque os assuntos, já disse, são maravilhosos, cativantes, as pessoas são inteligentíssimas. Temas do arco-da-velha. Mas toda tese fica no rodapé da história. Pra que tanto sic e tanto apud? Sic me lembra o Pasquim e apud não parece candidato do PFL para vereador? Apud Neto. Escrever uma tese é quase um voto de pobreza que a pessoa se autodecreta. O mundo pára, o dinheiro entra apertado, os filhos são abandonados, o marido que se vire. Estou acabando a tese. Essa frase significa que a pessoa vai sair do mundo. Não por alguns dias, mas anos. Tem gente que nunca mais volta.
E, depois de terminada a tese, tem a revisão da tese, depois tem a defesa da tese. E, depois da defesa, tem a publicação. E, é claro, intelectual que se preze, logo em seguida embarca noutra tese. São os profissionais, em tese. O pior é quando convidam a gente para assistir à defesa. Meu Deus, que sono.
Não em tese, na prática mesmo. Orientados e orientandos (que nomes atuais!) são unânimes em afirmar que toda tese tem de ser - tem de ser! - daquele jeito. É pra não entender, mesmo. Tem de ser formatada assim. Que na Sorbonne é assim, que em Coimbra também. Na Sorbonne, desde 1257. Em Coimbra, mais moderna, desde 1290.
Em tese (e na prática) são 700 anos de muita tese e pouca prática. Acho que, nas teses, tinha de ter uma norma em que, além da tese, o elemento teria de fazer também uma tesão (tese grande). Ou seja, uma versão para nós, pobres teóricos ignorantes que não votamos no Apud Neto. Ou seja, o elemento (ou a elementa) passa a vida a estudar um assunto que nos interessa e nada. Pra quê? Pra virar mestre, doutor? E daí? Se ele estudou tanto aquilo, acho impossível que ele não queira que a gente saiba a que conclusões chegou. Mas jamais saberemos onde fica o bicho da goiaba quando não é tempo de goiaba. No bolso do Apud Neto? Tem gente que vai para os Estados Unidos, para a Europa, para terminar a tese. Vão lá nas fontes. Descobrem maravilhas. E a gente não fica sabendo de nada. Só aqueles sisudos da banca. E o cara dá logo um dez com louvor.
Louvor para quem? Que exaltação, que encômio é isso? E tem mais: as bolsas para os que defendem as teses são uma pobreza. Tem viagens, compra de livros caros, horas na Internet da vida, separações, pensão para os filhos que a mulher levou embora. É, defender uma tese é mesmo um voto de pobreza, já diria São Francisco de Assis. Em tese.
Tenho um casal de amigos que há uns dez anos prepara suas teses. Cada um, uma. Dia desses a filha, de 10 anos, no café da manhã, ameaçou: – Não vou mais estudar! Não vou mais na escola. Os dois pararam – momentaneamente – de pensar nas teses. – O quê? Pirou?
– Quero estudar mais, não. Olha vocês dois. Não fazem mais nada na vida. É só a tese, a tese, a tese. Não pode comprar bicicleta por causa da tese. A gente não pode ir para a praia por causa da tese. Tudo é pra quando acabar a tese. Até trocar o pano do sofá. Se eu estudar vou acabar numa tese. Quero estudar mais, não. Não me deixam nem mexer mais no computador. Vocês acham mesmo que eu vou deletar a tese de vocês? Pensando bem, até que não é uma má idéia!
Quando é que alguém vai ter a prática idéia de escrever uma tese sobre a tese? Ou uma outra sobre a vida nos rodapés da história? Acho que seria um tesão.

(Mario Prata - crônica publicada no jornal O Estado de São Paulo, 7 de outubro de 1998)


No mais, estou



Exausto

Eu quero uma licença de dormir,
perdão para descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

(Adélia Prado - Bagagem)


Muito antes de Sérgio Buarque,
muito além da Holanda...

Até mais!

Não sei porque... mas essa canção me lembra o Schroeder.

O que você achar Marcie?


A MULHER BARBADA


Com o que será que sonha
A mulher barbada?
Será que no sonho ela salta
Como a trapezista?
Será que sonhando se arrisca
Como o domador?
Vai ver ela só tira a máscara
Como o palhaço

O que será que tem
O que será que hein?
O que será que tem a perder
A mulher barbada?

(Adriana Calcanhotto - interpretada com Los Hermanos)



Schroeder
recebendo aplausos

Se não levado à sério, este psicossodomita até que tem uma tiradas legais.
Juro que tive a idéia antes!



Mas eles têm o crédito de executar primeiro, e melhor:

DANCEMOS
UM TANGO FELIZ

O que deu em mim??

Deixemos espírito de Papai Noel entrar em nós,

e mudemos de assunto:

Meus amigos

e demais desconhecidos



Feliz Natal e um Ótimo 2003!!


(voz em off) - Melhorou?


ELEGIA 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, e concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar a tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.


(Carlos Drummond de Andrade - Sentimento do mundo)
A liberdade do diálogo está-se perdendo. [...] ela é agora substituída pela pergunta sobre o preço dos sapatos ou de seu guarda-chuva. [...] É como se se estivesse aprisionado em um teatro e se fosse obrigado a seguir peça que está no palco, queira-se ou não, obrigado a fazer dela sempre de novo, queira-se ou não, objeto do pensamento e da fala”: (Walter Benjamin)


É isto o que me espanta! Perdemos a capacidade de nos comunicar. É isto que faz das filas costumazes do fim-de-ano insuportáveis. Ficamos lá, parados, humanos atrás de humanos, à espera, como bois, do fim registrado no nosso abate pela moça do caixa. E, como bois, ruminamos o capim de nossas próprias cismas. Ficamos ali, alheios, a cismar. E, se a alguém escapa uma palavra, e esta palavra a nós se dirige, pensamos: Que saco!; ou Humm! Pois consideramos, e muitas das vezes constatamos, que tal palavra ou era da raça inquieta das ponderações mau-humoradas e das reclamações pontuadas, ou era da estirpe de um flerte. Estranhamos mesmo é quando a dita palavra assume a forma de um comentário, casual, que se esboça para dar início a uma amistosa conversa. Jogar conversa fora! ... para passar o tempo. – diria-se antigamente. Perda de tempo! – bufamos hoje. Ser amistoso, companheiro, simpático, é vergonhoso. Já foi condição de vida, quando a vida ainda se prendia e se fazia ao largo da convivência e interdependência comunitária. Já foi vergonhoso, quando os malandros de outrora diziam ser independentes e astutos o suficiente para viver sem depender de ninguém, mesmo quando viviam às custas daquele bom e velho amigo, ou de um desavisado “cliente”. Mas nunca tanto desprezo foi destinado a estas palavras como hoje - a era da comunicação. Acostumamo-nos a este ritual cênico da mínima palavra, a esta etiqueta social (a etiqueta do preço), sem a questionar. O rádio e a televisão já uniram pessoas – mesmo que tal união resultasse apenas em comentários – e que entusiásticos e plenos de vida e certezas eram – sobre a novela e o jogo de futebol. E, mesmo assim, a tv e o rádio continuam alvo da crítica apocalíptica que neles vê apenas a desagregação dos valores e das famílias. E a internet, essa grande praia onde muitos se banham e surfam sem nunca se ver? Esta pretendia aproximar as pessoas, educá-las, informá-las: a maior, mais rápida e mais eficaz rede de comunicações. O resultado: o nascimento da era da maior solidão, do mais profundo isolamento, da tele-pizza e do amor eletrônico. O problema, dizem, é que tal comunicação não é interpessoal, mas somente entre máquinas se faz. Balela! O problema não está nos meios de comunicação – embora muitas de suas empresas nos alimentem do desejo de jogar tal boliche solitário -, ou nos aparatos eletrônicos que des-facilitam a vida moderna. O problema, e a solução, somos nós! Nós é que escolhemos como agir; se nos deixamos levar o não. Nós é que decidimos se, por virtude ou ideologia, podemos ou não mudar nossos atos. Foi pensando nisso que comecei a escrever este blog, tentando alcançar um misto da expressão de minhas mais pessoais angústias com divagações sobre assuntos de interesse coletivo. E, para minha surpresa, eu não era um único ser que, perdido na rede, lançava sinais ao espaço em busca de vida. Neste fim de ano, quando o trabalho me esgotava, e as festas pouco me reconfortavam com a esperança de renovação, fui resgatado por mensagens de saudades, apoio e consideração enviadas por aqueles virtuosos amigos – alguns virtuais até – que criei e que mantive através desta página. Obrigado! E feliz ano novo...

PS: Este texto baixou em mim hoje e, mesmo que a isto não visasse, tem o sabor piegas das mensagens de fim de ano. Desculpem-me, mas foi inevitável...

quarta-feira, 11 de dezembro de 2002

Lista de AMIGO OCULTO


. Schroeder (Rodrigo MQ) - Cd Paratodos ou Quando o carnaval chegar, ou aquele que tem Pelas Tabelas, ou o Volume 4 do Chico.

. Roddsch - Palhetas do vidro dianteiro do Corsa 2000. Obs: se estiver dentro do preço estipulado.

. Ptk - CD-Pirata (Camelô do Centro) - FIFA 2000 (computador). Livro de bolso de poesias (M. Bandeira, Quintana, Drummond...) Livro de poesias do Arnaldo Antunes.

. Créia - Cd dos Tribalistas ou Arnaldo Antunes (mais antigo).

. Juh-Lai Lama - O que meu amigo oculto achar que eu vou gostar.

. René Boli - Sou a favor da lista; porque, com ela, podemos saber o que quer quem a gente pouco conhece. Pois bem. O problema é que a gente nunca sabe o que quer, ou melhor, o que pode colocar na lista. Eu, por exemplo, gostaria imensamente de ganhar uma viagem para a Espanha (acompanhado, é claro! - da Regina, diz a própria)... mas como não dá, fico mesmo com o catálogo da exposição de Eckhout (que só está à venda em Brasilia). Mas, algo factível, não sei... talvez o Chico, que é sempre bom. O problema é que tenho quase tudo. Só não tenho o Francisco (que tem Sambando no Toró), ou o Chico Buarque Volume I, ou ainda Quando o Carnaval Chegar - que a gente sempre encomenda, e nunca chega, nem no carnaval. Pode ser ainda os Saltimbancos (mesmo os trapalhões), ou a Arca de Noé (um ou doi, tanto faz). Um bom lugar para pesquisa é na Discomania, R. Paraiba 1378 ou R. Sergipe Tem também a Cecília, de Meireles, aquele livro de tradução de poemas chineses, que é lindo. No mais, não sei. Gosto de poetas. Drummond, Ana Cristina César, editado pela FUNARTE, que tá R$ 5,00 na Travessa, também vale. Bom, pra me dar presente basta ter bom senso e sensibilidade, um pouco de amizade também. Feliz Natal!

. Regina - Primeiramente, quero concordar com René pois considero fundamental o esclarecimento, por mais reduzido que seja - do tipo apenas uma dica - do que querem nossos amigos. Em segundo lugar, gostaria de sugerir a quem saiu comigo que gostaria de ganhar uma camiseta indiana de malha de algodão, que vende na Feira de Artesanato da Av. Afonso Pena. Meu tamanho é MÉDIO e o motivo que eu prefiro é o de estamparia miudinha.

. Marcie, vulgo Puliça - Livros e Cds sao sempre bons presentes, se for o Cd Tribalistas ou um livro da Fernanda Young são mais bons ainda!

. Carol - Calcinha M. Pra ficar mais folgadinha, que as minhas apertam. Tiara, arco, coisas de cabelo. Brinco dependurado. Literatura.
Juli, Lindus, Marcie, Mannu, e todos que reclamam por atualizações no meu blog, muito obrigado pelo incentivo! Apenas não tenho postado nada porque com o volume de trabalho que estou tendo não me sobra muito ânimo. Logo logo postarei. Beijos.

quarta-feira, 30 de outubro de 2002


O BRINQUEDO DO POBRE


Quero dar a idéia de uma distração inocente. Há tão poucos divertimentos que não sejam criminosos!

Quando sairdes, de manhã, com a firme intenção de vagabundear pelas estradas, enchei os bolsos de pequeninas invenções de um soldo e, pelas tavernas, ao pé das árvores, presenteai os meninos desconhecidos e pobres que fordes encontrando. Então vereis como lhes crescem desmesuradamente os olhos. A princípio, não ousarão tocar no presente; duvidarão da própria felicidade. Depois, suas mãos agarrarão vivamente o brinquedo e eles fugirão, como fazem os gatos, que, tendo aprendido a desconfiar do homem, vão comer longe de nós o bocado que lhes damos.

Numa estrada, por trás das grades de um vasto jardim, ao fundo do qual surgia a brancura de um lindo castelo batido de sol, via-se uma criança fresca e bela, vestida de uma dessas roupas de campo, tão garridas.

O luxo, a ociosidade e o espetáculo habitual da riqueza tornam esses meninos tão belos que nos parece terem sido feitos de outra massa que não a dos filhos da mediania ou da pobreza.

Ao lado dela, jazia sobre a relva um brinquedo esplêndido, tão novo quanto o seu dono, envernizado, dourado, com um traje cor de púrpura, e coberto com plumas e vidrilhos. O pequeno, porém, não se ocupava com o seu brinco favorito, e eis o que ele observava:

Do outro lado da grade, na estrada, entre os cardos e as urtigas, havia outro menino, sujo, raquítico, tisnado, um desses garotos-párias em quem um olho imparcial descobriria a beleza, se o limpasse da repugnante pátina da miséria.

Através daquelas vergas simbólicas que separavam dois mundos, a estrada real e o castelo, o menino pobre mostrava o seu brinquedo ao menino rico, e este que o pequeno porcalhão atraía com afagos, agitava e sacudia, numa espécie de gaiola, era um rato vivo! Os pais, decerto por economia, haviam tirado o brinquedo da própria vida. E as duas crianças riam uma para a outra, fraternalmente, com dentes de uma brancura igual.

(Charles Baudelaire - O spleen de Paris)
Essa imagem me lembra a Maria Luiza...



... e o tanto feliz que estou,

pareço até menino pequeno!



(Milton Nascimento - retrato por Juan Esteves)


Quando adolescente, tinha para mim que Milton Nascimento era um dos maiores intérpretes da música brasileira, e uma das mais belas e bem trabalhadas vozes que existiam. Contudo, eu não o ouvia – não aceitava seu repertório. Na verdade, eu me esforçava em não gostar de suas músicas, ou de qualquer música de seus companheiros de esquina: adolescente que era , achava importante afastar-me do gosto musical da geração anterior à minha. Por vezes, a recusa a músicas como Caçador de Mim, Coração de Estudante e Nos Bailes da Vida (para ater-me às mais conhecidas) decorria de uma avaliação errônea de meus sentimentos. Soavam-me, aquelas músicas, como frutos que tendiam à mobilização demasiado fácil e imediata das emoções dos ouvintes. E que, para tanto, empregavam símbolos de uma forjada mineiridade. Mas, na verdade, aquelas músicas me emocionavam – e viriam, hoje, a me emocionar mais ainda –; e isso não era aceitável. O problema não estava nas músicas, mas em minha sensibilidade ainda frágil, ainda não impregnada da atmosfera das cidades históricas abarrotadas de estudantes e de sua cultura, dos ares montanhosos, dos festivais de inverno, do barroco. E do gosto por um determinado tipo de música e de teatro que se faz na rua, em meio a pessoas que, de desconhecidas, tornam-se amigos e companheiros, mesmo que por alguns instantes. Um tipo de cultura e um tipo de sentimento e postura que ainda marcam a arte mineira, como a do Grupo Galpão. Amizade e fraternidade (formas distintas de se expressar ao tratamento cordial entre pessoas), sopraram-me, são as chaves para o entendimento da obra do Clube da Esquina. Atuando num momento em que os artistas brasileiros buscavam alternativas para lidar com a censura ou enfrentar o regime militar – a exemplo das canções de protesto –, o Clube, assim como a Bossa Nova, parecia-me um movimento desprovido de conteúdo contestatório, a despeito de sua imensa força de mobilização e encantamento. No entanto, a aparente frugalidade das músicas do Clube era, na verdade, um refinado meio de mobilizar valores sociais importantíssimos para a construção de uma vida pública sadia no Brasil. Amizade e fraternidade, antes que um apelo fácil aos nossos sentidos e sentimentos, eram poderosos instrumentos de mobilização das pessoas em prol da construção de bens comuns. Não por acaso, são estas as forças mobilizadoras que se detona para a construção do cooperativismo e, em escala menor, dos mutirões e campanhas de solidariedade. O Brasil é um país no qual a esfera pública encontra-se sempre por instaurar ou, quando se forma, não se perpetua. Problema este que foi, repetidas vezes, atribuído a uma infiltração desvirtuadora de valores privados na esfera pública. Mas, há que se notar que a construção do público no Brasil, quando ocorre, vem quase sempre impulsionada por valores privados. Fato este que talvez indique não um problema, mas uma especificidade da formação da política e do bem público no Brasil: a sua não independência da esfera privada que, através dos valores e sentimentos que gera, dá forma e vigor à esfera pública . Milton Nascimento e seus companheiros pareciam pressentir aquilo que os cientistas sociais estão a descobrir: ao se chamar à cena a amizade e a fraternidade, mesmo que através da música, é possível mobilizar forças de transformação e gerar um clima de cooperativismo e de ação conjunta. Um clima de irmandade que reapareceu no Brasil quando as pessoas se uniram em torno de um projeto de nação, de um sentimento de esperança e, principalmente, de um ideal, mesmo que inconfesso, de companheirismo. Quem nos últimos dias não recebeu nas ruas um sorriso, um aceno, uma buzinada simpática de um total desconhecido apenas pelo fato de estar usando um broche em forma de estrela? O princípio é o mesmo, mas os meios de sua manifestação são diferentes: antes foi a música, hoje, as urnas. Os tempos não mudaram, foram mudados. E agora podemos expressar, diretamente e sem medo, o que, individualmente e em conjunto, desejamos; ainda que a voz de Milton Nascimento continue sendo a mais bela.

sábado, 26 de outubro de 2002



e do mundo cuidaremos, como cuidamos de nós; pois se o telefone tocar, a boca sorrir, o carro buzinar, o cachorro latir e o beijo estalar, todo som será o eco de um violino azul tocando alegrias



aquí, encontrei esta saída

no meu aniversário, troco dissertações, monstros, selvagens e imagens por muito sushi e saquê
meus amigos, meus parentes, e meu amor
Da ociosidade nasceu o sentido de se contar uma história. Quando o tempo transcorre devagar e o tédio do nada fazer, ou da repetição monótona de um trabalho (que nos ocupa as mãos mas não a mente), faz com que nos esqueçamos de nós mesmos, abrimos nossos sentidos em receptiva atenção. Nesses momentos de distensão , entregamo-nos ao ato de contar e ouvir reais ou fictícias histórias, notícias memoráveis de terras distantes, de feitos únicos, de saberes tradicionais ou de novos conhecimentos. Com tais narrativas nos entretemos; e do prazer de as ouvir, e contar, retemos sua memória, criando uma rede de narradores e ouvintes que as perpetuam pela sua constante transmissão e conservação. Contar histórias sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas. Para garantir o conhecimento de suas histórias por aqueles que não conheceram as maravilhas de mundos distantes, e logo impedir que desaparecem, Marco Pólo, e outros ilustres viajantes, colocaram no papel, em forma de texto, a matéria de suas memórias. Perpetuou-se, pode-se dizer, uma tradição dos relatos de viagem...

Disso venho me ocupando. Mestrado, mestrado, monstrado... bicho feio, louco para engolir minha cabeça. E cuido de meu Lindus também - o que é muito bom. Por isso faltam-me tempo e criatividade para escrever neste blog. Que puxa... Além do mais, pasmem!, estou no meu inferno astral.

E meu inferno astral é assim: como não dou muita bola pra ele, o pobre ataca quem está à minha volta, criando problemas. E haja bom humor para tratar dos pepinos que se espalham na minha horta. Mas, às vezes, ele me pega na curva, e me joga no chão. Fico chato, e triste. Deprimido mesmo. Sem saber porque.
G.H., Lindus e Ana H. ... cliquem aqui .



linda e competente

sábado, 5 de outubro de 2002

Frida pacifista: com a cabeça em meu mouse, dormiu.
bh, sempre moderna...




(trolleybus, 1902)


...e de memória sem lastro.



(conjunto arquitetônico da pampulha - oscar niemeyer)

só para dizer que o show do gilberto gil, em comemoração ao dia da ecologia (de são francisco, na verdade) e ao projeto de recuperação da lagoa da pampulha, foi emocionante. não só pelo moço, e sua música, mas pelo lugar: a praça são francisco, onde cresci, é um cenário lindo! além disso, belo horizonte é uma das poucas cidades onde podemos ir para a multidão sem receio. foi ótimo, pena que eu estava sem certa companhia.
para frida e lóri:


meia-noite e um


não se preocupe
gatinha borralheira


aquela estória
da carruagem de Cinderela
é uma grande abobrinha



(Romeu Montecchio)


(Cena de Rua - Emiliano Di Cavalcanti - 1931)
Neste momento, está a Frida no meu colo, a ronronar. De tamborim que mia a geladeira velha, quanta manha...

Frida



(Madame Riviere, sobre Ingrés - Melinda Copper)


Lóri



(La Velata, sobre Raphael - Melinda Copper)
É amanhã... eleições e aniversário de namoro!

A gente nem sabe que males se apronta
Fazendo de conta, fingindo esquecer
Que nada renasce antes que se acabe
E o sol que desponta tem que adormecer
De nada adianta ficar-se de fora
A hora do sim é o descuido do não
Sei lá,
Sei lá
Só sei que é preciso paixão
... já diriam Toquinho e Vinicius. E eu aqui, estetizando a política, politizando a estética, para viver um grande amor, em paz!

quarta-feira, 2 de outubro de 2002

HISTÓRIA

Nossa história é assim:
Vamos pras Índias!

Dias e dias os horizontes se repetem
- Olha! Melhor mesmo é buscar vento mais pro fundo

Uma tarde um marujo disse:
- Ué! Que terra é essa?

Velas baixaram E desembarcaram

- Terra como é teu nome?
Cortaram pau Saiu sangue
- Isso é Brasil!

No outro dia
o sol do lado de fora assistiu missa
Terra em que Deus anda de pés no chão!

Outros chegaram depois Outros Mais outros
- Queremos ouro!
A floresta não respondeu

Então
eles marcharam por uma geografia-do-sem-lhe-achar-fim

Rios enigmáticos apontavam o Oeste
A água obediente conduziu o homem

Começou então um Brasil sem-história-certa
A terra acordou-se com o alarido de caça
de animais e de homens

Mato-grande foi cúmplice nas novas plantações de sangue

Mulher foi espremer filho no escondido
E veio o negro
Trouxe o sol na pele
e uma alma de nunca-mais carregada de vozes

Foi desbeiçar terra
Alargaram-se as lavouras
Brasil encheu-se de queixas de monjolo
Sol espalhou verão nos canaviais das fazendas
O mato escondeu escravos
com inscrições de chicote no lombo

Em noite rural
Os bruxos reuniram-se para experimentar forças contra o branco
Deus montou num trovão que se quebrou na floresta
Árvores tinham medo que o céu caísse

Brasil-nenê foi crescendo...

O sol cozinhou o homem
e a geografia determinou os acontecimentos

Um dia
O capitão Pedro Teixeira com 1000 canoas ô ô
entrou águas-arriba no Amazonas
acordando aquela imensidão sem dono

O Brasil embarrigou para o Oeste

(Raul Bopp)

terça-feira, 1 de outubro de 2002

na massa

vai de mon amour
blusa de abajur
óculos escur apaziguando o sol
no domingo a caminho da praça

óculos ray-ban
raio de tupã
no pulso pulseira, no corpo collant
mostra a pele pelo rasgo da calça

pode ser de farda ou fralda
arrastando o véu da cauda
jóia de bijouteria
lantejoula e purpurina
manto de garrafa pet
tatuagem de chiclete
de coroa ou de cocar
pode se misturar

na massa
na massa
na massa
na massa
some na massa

sai de chafariz
bico de verniz
saia de safári sorriso de miss
camiseta de che guevara

plástico metal
árvore de natal
de biquini xale bata ou avental
e uma pinta pintada na cara

pode vir de esporte ou gala
de uniforme com medalha
braço cheio de pacote
nada debaixo do short
transbordando seu decote
gargantilha no cangote

(Arnaldo Antunes/Davi Moraes)


Achei essa música a cara da Créia!
Apontamento

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mil pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçaram-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e riem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A mnha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem porque ficou ali.

(Álvaro de Campos)

Poema encontrado, hoje, pela visão que tenho, caco que é, de Lindus.
Favela

Meio-dia

O morro coxo cochila
O sol resvala dezagarzinho pela rua
torcida como uma costela

Aquela casa de janelas com dor-de-dente
amarrou um coqueiro do lado

Um pé de meia faz exercício no arame

Vizinha da frente grita no quintal:
- João! Ó João!

Bananeira botou as tetas do lado de fora
Mamoeiros estão de papo inchado

Negra acocorou-se a um canto do terreiro
Pôs as galinhas em escândalo

Lá embaixo
passa um trem de subúrbio riscando fumaça

À porta da venda
negro bocejou como túnel


(Raul Bopp)


O morro, a cavaleiro da cidade, cujas luzes brilham ao longe. Platô da terra com casario ao fundo, junto ao barranco, defendido, à esquerda, por pequena amurada de pedra, em semi-círculo, da qual desce um lance de degraus. Noite de lua, estática, perfeita. No barraco de Orfeu, ao centro, bruxuleiam lamparinas. Ao levantar o pano, a cena é deserta. Depois de um prolongado silêncio, começa-se a ouvir, distante, o som de um violão plangendo uma valsa que pouco a pouco se aproxima, num tocar divino, simples e direto como uma fala de amor. Surge o Corifeu.

(Orfeu da Conceição - Vinicius de Moraes)




(Cidade de Deus - Fernando Meirelles)


Outros tempos, sensibilidades diversas. Há distância entre as imagens e o real. Mas percebe-se a realidade diretamente, sem imagens?
CATA-PIOLHO DO REI DO CONGO
(embalo de rede)

Ó cata-piolho
me empresta o teu sono
Os zoinhos piquininho
já quase fechou

O sono entrou nos zóio
Afundou na escuridão
A piroca piruquinha
tá molinha. Moleceu

Já são quatro Já são oito
Eu vou ver quem é que vem
Tá chegando o Presidente
no seu palácio real

Já são sete Já são oito
O rei Congo chegou
Chegou com elefantes
sapato de verniz

Iaiá fez quentinho
Rei Congo drumiu
Papagaio pena verde
ai, me conte que tu viu

O elefante foi à guerra
mas morreu o capitão
Deixou um anel de prata
e um tambor de papelão

Ai já vem chegando o sono
numa rede de algodão
Pra fazer um dormezinho
Pum-pum Para-ti Pum

Rei Congo Sorongo
sapato de verniz
Iaiá fez quentinho

Cante bem devagarzinho
Pum-pum Para-ti Pum


(Raul Bopp)

segunda-feira, 30 de setembro de 2002

Eros e Psiquê


Conta a lenda que dormia
Uma princesa encantada
A quem só despertaria
Um infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que a princesa vem.

A princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma guirlanda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A princesa que dormia.

(Fernando Pessoa)


(Pierre Verger - Dakar, Senegal, anos 50)